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Infância, doce infância!

09 de Outubro de 2009, por Evaldo Balbino

As pernas afadigadas iam sobre os papéis coloridos, os quais apresentavam um homem de gravata sorrindo escancaradamente. Ninguém percebia as palavras ali impressas, o slogan esplendoroso que prometia futuros como uma cigana o faz pelas ruas. Estavam sujos aqueles papéis, e o rosto do homem beijava o asfalto iluminado pelas luzes. Parecia que todas as coisas existiam no seu devido lugar, mas uma caixa de chicletes estava quase vazia, indecisa entre os dedos que tremiam de frio e trabalhavam. Uma garota de uns oito anos vendendo chicletes na Avenida Afonso Pena, às quatro horas da madrugada de um sábado! A todos os que estavam nos carros e nos ônibus, o olhar da menina chegava muito explícito. Ela não suplicava nada com palavras, mas sorrindo e cheia de trejeitos que só uma criança possui. Os ônibus movimentavam-se e não paravam para a vendedora, mas ela, querendo consolar-se, dizia em voz alta que ainda bem que já tinha vendido quase tudo. Sorria, e o fazia com falhas nos dentes ainda tão claros, mostrando-se intactos em sua extrema juventude.

“Os chicletes são doces, mas o açúcar era doce para os senhores e amargo para os escravos”. Por que naquele instante não aparecia ninguém para gritar isso? Alguém que gritasse a todos que o chiclete é amargo para as crianças, mas isso seria uma loucura, uma vez que iria contra os princípios da infância. Isso seria uma fala de louco sim, porque todos diriam que não existe mais escravidão. Eis que tudo é compreensível, tudo, pois não há tempo para olhares e muito menos para colóquios hoje em dia. E apesar da falta de tempo, da falta de olhares, a garota ainda insistia em tentar parar os ônibus.

E me afligia a vontade de aproximar-me mais dela e de dizer-lhe algo, essa necessidade que nos assalta e que não sabemos por que e para quê, mas que deve se realizar em palavras, talvez uma ou outra, para além de um simples olhar. E se eu estivesse mais afastado do humano que há em mim, desta identidade retorcida e a esmo que todos nós já adquirimos sob as luzes da cidade, lhe perguntaria o que fazia ali àquela hora, com aquele frio, ou por que não ia para casa. Mas se assim eu fizesse, seria um idiota. Ela poderia dizer-me que estava trabalhando e que ainda não podia parar, porque precisava do trocado no dia seguinte. Então eu lhe perguntaria se o trocado que já estava em suas mãos não bastava e ela me diria que não, que mal daria para si e que, além disso, tinha cinco irmãos em casa, todos famintos e um doente, esperando, pelo menos, por um litro de leite. Assim eu levaria a mão nos bolsos de minha calça e de minha camisa, mas não encontraria dinheiro, e me desculparia com ela, dizendo que da próxima vez lhe daria um trocado. A menina olharia vagamente para mim e diria: “moço, e se não tiver a próxima vez? Esta cidade é muito grande, o senhor sabe”.

“Moço”! Que juventude eterna a mim concedida! Com essas palavras os meus olhos ficariam molhados e eu choraria daquele jeito mais meu, e talvez dos outros, porque a maioria não tem tempo nem para chorar. Eu choraria, mesmo que um militante me acusasse com as mãos em punho: “chorar não leva a nada, mas agir sim!”. Eu choraria da forma mais triste possível, como aquele que não enxerga mais o amanhã e que, se o enxerga, tem apenas uma visão apocalíptica. A garota me perguntaria aflita, “moço, por que o senhor tá chorando, tem algum problema?” E eu lhe diria “não, meu anjo, o problema não é meu, mas nosso, desta avenida escura, cheia de pessoas e carros, sob as luzes desses postes reverberando”.

Ela continuaria me olhando assustada, sem me entender. E quando eu fosse lhe explicar o que quis dizer, não teria como fazê-lo, pois estaria ferindo uma infância com a crueza do nosso mundo. Mas já não estava ferida aquela menina? A mim me bastaria perguntar-lhe a que horas da manhã se levantava, o que sua mãe colocava sobre a mesa para o café, em que turno ia para a escola, em qual momento do dia arrumava um tempo para ser criança, para entregar-se ao ludismo com seus amiguinhos etc., etc. Também poderia indagar-lhe quantas bonecas tinha, e o que fazia com elas. Mas essas perguntas seriam desnecessárias. Bastava mirar-lhe para já sabermos de tudo. Envolvida nos seus braços muito sujos, uma caixa de chicletes substituía um brinquedo. Talvez minhas palavras explicativas, cortantes como navalhas afiadas, e não esplendorosas como as impressas nos papéis pelo chão, fariam com que ela ficasse triste, triste como um adulto, que na maioria das vezes nem tempo tem para perceber-se neste estado.

Naquele momento, quando me atormentavam todos esses zumbidos, um ônibus finalmente parou e a menina entrou pela porta de trás do mesmo. Aqueles olhos infantis se foram na cidade iluminada e sem fim. E nem sequer me falaram que talvez não haveria uma próxima vez. Ou falaram? Será que apenas se foram? Creio que tenham ido para sua casa, felizes como uma criança deve ou deveria ser.

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