Quem tem 40 anos ou mais (e a gente sempre caminha cada vez para além), vai se lembrar de tudo isto que vou dizer agora. Se a sua memória já estiver meio fraquinha, vítima dessa modernidade que guarda tudo em nuvens etéreas, mas esquece o chão de terra batida, vou ajudando aqui nestas linhas de palavra e tempo.
Recordar, mais do que viver, é dar um drible desconcertante no relógio e voltar para o lugar onde a gente não precisava de bateria para estar plenamente carregado. Naquela época, o Wi-Fi era o grito da mãe na janela e o Bluetooth era o aperto de mão suada após um pacto de amizade no fundo do quintal.
O maior clássico da nossa infância era o jogo de pelada nas ruas descalças: Camisa X Sem Camisa. O critério estético era de uma simplicidade leve, sem frescuras de uniformes carimbados e caros. “Você aí, magrelo, tira a blusa que dá pra ver o que você comeu no almoço por entre essas costelas!”, gritava o capitão do time, um menino dois anos mais velho que já se achava o dono da bola. E assim, os “descamisados” serviam de radiografia humana para a vizinhança curiosa, enquanto os de camisa ostentavam tecidos de algodão grosso e desbotado que, após o primeiro tombo, pesavam cinco quilos de puro suor e poeira ferida.
Havia também o embate geográfico, a geopolítica do bairro: Rua de Baixo contra Rua de Cima. Coloco o time da Rua de Baixo primeiro porque ele não pode ficar por baixo, ora essa! Façamos justiça, mesmo que tardia! O ar ficava espesso com o cheiro quente de terra misturado ao odor de mato cortado das calçadas vizinhas.
O gol era demarcado por dois chinelos Havaianas cansados, cujas tiras já tinham sido remendadas com prego quente tantas vezes que pareciam Frankenstein de borracha. A distância entre os chinelos era medida em passos que geravam brigas homéricas. “Esse seu passo tá muito grande, Orlando! O gol já virou o Maracanã! Desse jeito até minha vó faz gol!”, reclamava o goleiro, limpando o suor da testa com as costas da mão suja de terra. A regra do “quem chuta busca” era a única lei respeitada, um código inabalável.
Mas o pavor real acontecia quando a bola de leite ou de capotão descascada caía no quintal da dona Marocas, a vizinha mais temida da rua. Ela guardava as bolas “presas” como troféus de guerra em cima do telhado, entre telhas de amianto e ninhos de rolinha. “Lá vai o tonto buscar a bola na onça!”, sussurravam os colegas enquanto o infeliz pulava o muro sentindo o cheiro de mofo, terra molhada e samambaia velha.
A terra batida moldava cascas nos joelhos que ostentávamos como verdadeiras medalhas de honra. O único “VAR” disponível era o grito estridente da vizinha cujo vaso de violetas acabara de ser estilhaçado por um chute de bico mal calculado.
O som era uma sinfonia caótica: gritos agudos de “passa a bola!”, o baque seco e oco da bola no portão de ferro e o chiado rítmico dos pés descalços raspando o chão áspero. Tudo isso envolto em uma nuvem de poeira dourada pelo pôr do sol, com aquele cheiro inconfundível de liberdade e poeira que subia ao nariz e batizava a nossa alma.
E o telefone com fio? Que engenharia de ponta! Bastavam duas latas de extrato de tomate vazias, com furinhos embaixo, e uma tira de linha de costura ou de retalho esticada entre as duas. “Tá me ouvindo, Juvêncio? Câmbio!”, “Fala mais alto que a linha tá bamba e a conexão tá caindo!”. Era a nossa primeira experiência com a fibra óptica de algodão, uma tecnologia de fundo de quintal que desafiava as leis da física e nos fazia acreditar em milagres acústicos. Se a corda ficasse minimamente frouxa, a fofoca morria em um chiado de nada, um silêncio absoluto que frustrava os espiões de plantão.
Nas brincadeiras de cobra-cega, o pânico lúdico era puro e absoluto. O escuro forçado nos instigava; as mãos tateavam o ar de forma desajeitada, como se buscássemos o sentido da vida, quando na verdade só queríamos agarrar o ombro suado de um primo para passar a vez. O som era composto por risinhos abafados, respirações ofegantes e o ranger característico dos sapatos no piso de taco encerado. O cheiro era uma mistura de terra úmida que vinha do jardim com o perfume barato das colônias infantis da época – aquela lavanda persistente que grudava na pele e na memória.