Teotônio vinha sempre em sua calça de tergal, camisa aberta ao peito, botões por pregar. As sandálias havaianas, arrastando-se pela Rua do Rosário, diziam do corpo senil, mole, moroso, com muita prosa para dar e receber. Parecia namorar as árvores, os canteiros de raquíticas gramas e as janelas das casas que não mais o olhavam, pois ele já era tradição por ali. Temos este absurdo costume: deixamos de observar o que nos rodeia. Somente amamos novidades.
Mas para mim Teotônio era sempre novidade. Não apenas ele, e sim tudo o que me falava, os passados da Cidade Penha. Da antiga vila de Resende Costa, muita coisa fiquei sabendo, assim ao léu, meio duvidando e meio crédulo. E isso porque suas palavras eram matreiras, espertas, sinuosas como serpentes cujos caminhos nunca conhecemos de fato.
Contava-me de mulheres lindas que lhe dispensavam lá no outrora muita atenção, até mesmo demasiada. Disse-me certa vez, em suas rememorações de galã imperdível, sobre uma mulher que enlouquecera porque ele lhe negara o amor e também sobre outra que entrara para o convento, jurando amor eterno ao Cristo, o mesmo amor que ele não se dispusera a receber.
Apesar de tudo isso, dessas tantas mulheres e amores ofertados, Teotônio não era desses homens convencidos não. Era até mesmo muito simples. O que ele fazia bem era fantasiar e dizer verdades, tudo isso misturado, num gosto de lembranças antigas e inverossímeis.
Das assombrações de que me falava, eu tinha muito medo. Eram casos de arrepiar. Tipo o cavalo de três pernas que circulava pelas ruas de madrugada, ou o jipe de um farol azul, que zoava pelas estradas da redondeza sem nenhum motorista dentro. O estranho carro cruzava os povoados constantemente, sem pouso certo. Sua boca se movimentava vagarosa e suas mãos gesticulavam quando narrava tais fatos, a ponto de presentificá-los, torná-los concretos como as palavras que eu ouvia.
Uma das coisas que mais me prendiam a atenção era o seu bolso naquela calça de tergal. “Algibeira”, ele me corrigia. E sua voz de saudosista alfinetava minha suposta modernidade linguística. Sua algibeira vinha sempre estufada. Principalmente no início de cada mês, quando ele recebia a aposentadoria tão magra. No seu bolso o salário engordava, mostrava para todos a que vinha, num exibicionismo de notas a perderem-se de vista. É que ele sempre chegava até mim, ali ao lado do balcão na mercearia em que eu trabalhava, e pedia pomposo que eu lhe trocasse as notas. E lá ia eu, solícito, fazendo aquela troca mensal. Pegava seu dinheiro diminuto, um salário em poucas notas mais graúdas, e o fazia reproduzir-se em várias cédulas, as de menores valores. Assim Teotônio enchia seu bolso. Nem carteira usava. Eu percebia-lhe certo prazer em contar cédula por cédula, em passar os dedos amorosos nelas, e me perguntava se todo aquele ritual era pelas dificuldades que ele sofrera no passado ou se era mania de idosos, a de sentir deleitosamente o atrito que uma economia produz nas mãos. Talvez isto fosse preconceito de minha parte.
Ele sempre trazia consigo um jornal velho. Não parecia preocupar-se com a leitura de informações desatualizadas. Na postura de homem aposentado, sentava-se sobre botijões de gás, ao lado do balcão, punha seus óculos imensos, e ali ficava compenetrado, lendo por minutos a fio, virando pacientemente as páginas, levantando a cabeça, ruminando pensamentos. Num desses episódios, fiquei curioso diante do menear de sua cabeça e me predispus a fazer-lhe perguntas sobre o que tanto lhe chamava a atenção. Deu-me um banho de água fria. “Quieto, rapaz; assim não posso ler e pensar no que estou lendo!” Passei, desde então, a respeitar o seu silêncio ou os seus murmúrios naquela postura sagrada.
Certa vez, entretanto, descobri-lhe algo curioso. Aproximei-me silenciosamente por trás dele e fixei meus olhos numa página do seu jornal. Espantado, vi que o periódico estava de cabeça para baixo. E pude perceber, também, que os óculos que ele trazia no rosto tinham apenas armação. Lente nenhuma havia.
Depois desse fato, passei a comentar com ele, sem ser instado a isso, sobre notícias, todas aquelas comuns que os jornais trazem, tipo a economia vai indo a passos lentos, a violência nas cidades tem aumentado, os times de futebol continuam se digladiando etc., etc. E ele, curiosamente, me dava e se dava corda, sentindo-me cúmplice no ritual de sua leitura.
Leituras de Teotônio
13 de Dezembro de 2009, por Evaldo Balbino