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Móbiles de areia

14 de Novembro de 2009, por Evaldo Balbino

O tempo passa, e eu não me conformo e vou escrevendo.

Iludido, poderão dizer-me. E eu digo “iludido sim, não hei de negar”. Mas minha ilusão traz consigo sentimentos de distância, de olhares oblíquos, um modo soslaio de olhar para o que já não mais é e que, se continua sendo, nada mais é do que ressonâncias do outrora nas reconfigurações do agora. Vou observando de esguelha tudo o que muda, as águas do rio correndo, meus cabelos ressentidos de tudo, minha pele na ameaça constante de vincar-se, meus olhos como espelho refletindo o tempo. Minhas mãos feitas à imagem e semelhança do tempo. Elas passam, mas se querem eternas. As minhas mãos preparam-se para um dia tremerem. Caneta ondulando, trêmula, hesitante, indecisa. Mas continuando, mesmo torta, por linhas tão retas.

O tempo passa e continuarei escrevendo, como se continua a respirar, para que a vida aconteça sem a necessidade de mecanismos artificiais. Não há luta na escrita? Tudo é natural como o próprio ato de respirar? Ora, ora: e quem disse que respirar seja algo natural!? Você pode ficar no seu canto, fazendo isto ou aquilo, sem preocupar-se com a ventilação do seu corpo. Mas ele estará sempre trabalhando, agindo em prol da vida, máquina incansável, pretensamente nunca exausta. A vida é máquina não-mecânica. O corpo trabalha, como um velho fâmulo insistente. Escravo biológico da existência. Serviçal e ao mesmo tempo senhor de si, dono da arte de viver.

Escrever também é assenhorear-se das palavras senhoras. Os pensamentos e as palavras insistem como água em pedra dura, como enxurrada à beira do riachozinho fazendo montinhos de areia. E nós também insistimos, na difícil arte de domar as indomáveis palavras. Acontece um texto. E acontece porque ele quer acontecer, mas também porque nós corremos atrás das palavras, daquelas que possam dizer-nos os pensamentos que não se calam.

O texto acontece, mas sempre desejando outro texto, outro discurso também sem fim. Escrever é indagar sempre, é construir castelos no ar, é abrir precipícios em solos de areia movediça. Escrever é pescar o que está nas profundidades da vida, o que antecede a palavra. É isca a palavra, já dizia Clarice Lispector. E a ponte que a escrita constrói liga-nos a algo que está perto e está longe. A escrita é droga que nos salva, que nos salva e nos engana. Temos a dor; e o remédio, paliativo necessário, diz-nos que ela já não mais existe e que nunca mais voltará.

Escrever é um ensaio de ponte, uma tentativa de encurtar todas as saudades que se estendem para muito longe, que aumentam enquanto o tempo passa. É um modo de brincar com todas as saudades, inclusive com a que sentimos de nós mesmos. Ter saudades de si e de tudo o mais é saber-se indo no rio do tempo, é saber-se pisando areias se desfazendo debaixo de uma água em movimento.

Escrevemos para perguntar, como nestes versos:

Água pura e transparente,
Água mansa da ribeira,
Donde é que vens tão contente,
Onde é que vais tão ligeira?


Como nos engana a água!! Na sua alegria e na sua mansidão, ela corre ligeira, sem dizer-nos nada: não fala das origens e dos destinos. Então escrevemos, para tornar transparente e claro o que como tal se finge constantemente. Escrevemos para enganar a água que corre e nos faz correr em sua correnteza. Escrevemos para clarear essas águas, torná-las mais cristalinas e menos turvas. E o que vemos sob os nossos pés nos assusta, mas vale a pena.

Antes eram apenas cócegas provocadas por uma alga deslizando, um detrito à deriva, uma larva brincando em tuneizinhos, a areia incontrolável em sua volubilidade.
Mas agora, escrevendo, vemos tudo isso se desnudando perante nossos olhos de medo e prazer. Mais do que o tato, a visão nos diz da nossa pequenez. Ver dá-nos uma grandeza incomparável: a grandeza de saber-nos tão pequenos e tão sem pés de pedra sobre um ar em movimento.

Escrevendo o tempo que passa, estamos pastoreando essa ovelha velha e eterna e impiedosa: o próprio tempo. Mesmo sendo pastores de nuvens, como diria Cecília Meireles, modelamos com elas, as nuvens-palavras, nossos castelos de areia. Desmoronáveis, é verdade; mas mesmo assim eles valem pela beleza da construção, pelos desejos que os erigiram.

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