Da outra vez fora horrível: ele andava sobre o telhado de amianto com todo o cuidado, como quem caminha sobre cascas de ovo. Queria pegar a bola que o Nivair, displicente e violento, arremessara sobre a varanda da cozinha. Seus passos profetizavam consequências, mas não as mediam. Era mais fácil entregar-se às irresponsabilidades. De repente, a queda! Furando o teto como um super-homem às avessas, caiu arrependido no chão, entre cacos de telha e a bola fujona. A mãe assustada foi ao seu encontro, cuidadosa, mas o pai sequer perguntou como estava o seu dolorido corpo. Se chegou a se preocupar com isso, o menino não percebeu. No amor enrijecido do pai, pesado como pedra, o garoto via somente um inquisidor, nada mais.
Agora algo parecido ou talvez pior. Todo chocho pela Rua do Rosário (a sempre ladainha nesta rua de uma infância pequena e por isso mesmo imensa). Vem devagar, com medo do futuro. Os passos diminuem a velocidade, e o medo aumentando. Não há enxurradas para seus pés descalços, nas quais poderia mergulhar sua nudez entre ciscos. Águas em que se perderia na aventura da correnteza brava como a de um rio bravo, sempre fugindo dos perigos das valas, dos medos maravilhosos de ser sugado pelos abismos do esgoto. Como explicará tudo o que aconteceu? Que reação seus pais vão ter? Os irmãos e as irmãs levantarão os ombros, já acostumados com as façanhas do caçula. A mãe reclamará um pouco pelo desmazelo do filho, o que por si mesmo já o deixará infeliz. Mas certamente, depois, vai abraçá-lo com os braços de mãe, uma nuvem grande e protetora contra o sol abrasador que se aproxima. Mas, e o pai? Aquele pai com seu amor retorcido a ver no filho um perdulário, um sujeito não preparado para a vida difícil que levam.
Perdeu os chinelos havaianas, novinhos, bem debaixo do ipê, durante a aula de Educação Física. Tia Dilma exigiu que corresse no pique com eles, mas não quis. Agora estão perdidos! E tem certeza de que foram furtados. Preferiria dizer “roubados”, porém Tia Juscéia tem horror a essa palavra “ofensiva”. Mas é roubo mesmo, e ninguém pode negar! Ou as sandálias têm pernas próprias para saírem serelepes pelas ruas de Resende Costa? Essa nem pescador contaria!
Continuará descendo pela rua e chegará a sua casa respirando fundo, preparando-se para o que virá. Mas de que adianta respirar fundo, juntar coragem, se agora mesmo sua irmã, também vindo da escola, ultrapassa-o em galope e grita “vou contar pra mãe que você perdeu as chinelas, seu burro!”.
As chinelas foram roubadas e mesmo assim ele, tão sem culpa, receberá um castigo. O ladrão andará pela cidade com pés pomposos, assim como ele faz questão de andar com as congas que a mãe lhe comprou no Natal passado. A pompa do usurpador será algo abominável, vaidade de merecer até mesmo o inferno. Merecimento duplo! Por roubar e por ser vaidoso! Agora ele, no seu luxo, nada tem de pecador. Calça as congas com orgulho, assim como estava usando as chinelas, porque tudo é fruto do suor dos pais. A mãe no tear e o pai entre pedras são os dois alicerces da família. Tecendo casas e erguendo colchas, dão a ele, menino travesso, toda proteção contra as agruras do mundo. Palavra bonita esta: agruras. Tão estrangeira para o aprendiz das letras, e tão medonha no sentido. Vendo-a pela primeira vez, num livro da biblioteca escolar, chegara a sentir calafrios.
Pensando na palavra “agruras” e nas agruras da família, compadecido, como não sendo estas também suas, acaba por deparar-se com o portão de madeira da sua casa. Pela cerca de taquara, vê a mãe do outro lado estendendo roupas no varal. Atarefada, sempre na correria para sentar-se ao tear e gerar colchas, num misto de amor das entranhas e necessidade financeira.
Abre o portão, cabisbaixo. Arrasta seus pés desolados até a sombra da mãe. Contristado e numa voz lamentosa. “Mãe, perdi os chinelos na Educação Física”. Dóceis e nada surpresos, os dedos maternos secam-lhe algumas lágrimas, enquanto a voz no mesmo tom o acaricia. “Sem problema, filhote: amanhã vou lá e cobro da professora!”
Sob os ecos do “filhote” no ouvido, o menino, agora apaziguado, vai para o quarto que divide com os três irmãos. Mas aí a terrível vergonha: o que vão dizer os colegas quando virem a mãe reclamando por um simples par de chinelos? Vão achar que ele é pobre, e isso nem pensar! Joga-se na cama, consternado novamente, e vislumbra ao lado da penteadeira as havaianas sorridentes e molecas, prontas para sumir de novo.
O menino e os chinelos do menino
12 de Abril de 2010, por Evaldo Balbino