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O presente

15 de Junho de 2010, por Evaldo Balbino

Não poderia de jeito nenhum pegar o frasco de Rexona que o irmão deixara sobre a cômoda. Era um perfume gostoso, que ele de vez em quando borrifava nos “subacos” para que ficassem apresentáveis. “É ‘sovaco’, seu bobão; mesmo assim fica mais bonito dizer ‘axilas’. Por que você não diz ‘axilas’?”. Mais velha e mais escolada do que ele, sua irmã era professoral. Mas também era chata, acusando-o sempre de bobão, de boboca e de outros nomes que ele sequer ousava pronunciar.
 
Mas agora não lhe interessava articular corretamente as palavras. Deveria sim articular um plano. Sua urgência era outra. Estava ali em cima o frasco, bonito, oferecido, sem-vergonha. Mas o que ele diria se o irmão, dando pela falta do desodorante, começasse a perguntar a todos da casa? Quando tudo de errado acontecia, era ele o culpado. Eram muitos ali. Dos pais certamente não duvidaria. Um filho não pode duvidar do pai ou da mãe. Entre os sete irmãos, tirando-se o dono do perfume, eram seis os que poderiam ser inquiridos. E quem seria o alvo principal? Já se imaginava sentado na cama, com medo, tomando uma chuva de perguntas, interrogatórios terríveis. Os olhos desconfiados do irmão, e os seus olhos arregalados, fingindo uma calma impossível.
 
Precavido, decidiu-se pela busca dum comportamento modelar. Algo havia de se fazer. Não poderia comparecer diante da Tia Lúcia com as mãos abanando. Não fora ela mesma quem disse estar precisando de um vidro de desodorante vazio? Outro dia a Bárbara chegara perto dela com uma linda rosa vermelha. Por que tinha de ser vermelha? Se pelo menos fosse branca! Assim os agrados da Bárbara seriam sem cor, comezinhos; ninguém os perceberia. Mas diante daquela cor aberrante, quem poderia fechar os olhos? A Tia Lúcia sorrira um sorriso grande, dera um abraço na aluna, que nem era tão boa aluna assim, mas que sabia adular aqueles que poderiam dar-lhe algo em troca.
 
Ele não queria notas boas. Queria era o sorriso da professora, o abraço gostoso, o afago merecido depois de uma ação exemplar. Rosas, sua mãe não possuía, e muito menos vermelhas. Lá no quintal alastravam-se umas plantas verdes, umas samambaias choronas, um comigo-ninguém-pode que lhe dava medo e um cacto ranzinza, de uma braveza que o incomodava. Como encontrar flores delicadas no meio daqueles verdes sérios e daquela aspereza de espinhos? O copo-de-leite não lhe serviria também, pois naqueles dias nenhuma flor tinha brotado das verdes ramas. E além de tudo não seria bem-vindo, pois suas flores preguiçosas eram brancas, uma ausência de cor que o menino não desejava.
 
De novo os olhos sobre o frasco, e a necessidade urgente de não pensar mais em flores, de não pensar no que via. A necessidade de fazer alguma coisa urgentemente. E se desse à Tia Lúcia o desenho do piolho fazendo morada na cabeça do menino? Uma vasta cabeleira, e o piolho lá, todo refestelado, como se estivesse na casa da sogra. Com trouxas nas costas e corpão na casinha construída entre os fios de cabelo. Mas o desenho não fora feito por ele. Apenas o tinha colorido, todo feliz, com os lápis Faber-Castell presenteados por sua irmã. O que a Tia Lúcia faria com aquele piolho na cabeça do menino? Não! Definitivamente não! O que lhe daria tinha de ser algo útil, com serventia conhecida e carimbada. Mas o que seria esse algo?
 
Resolveu ir brincar, porque esta é resolução mais urgente de uma criança. Resolveu ir brincar para não se perder diante do insolúvel. Foi aí que, na hort’couve, entre as taquaras da cerca e os pés de alface, descobriu um tesouro: um frasco parecido com aquele sobre o móvel do quarto. Não dava para ver se era de Rexona. Estava um pouco velho, mas era de plástico também, e também com a possível e mesma função que o outro teria. Feliz, o menino se pôs a pensar na Tia Lúcia usando o frasquinho para esguichar álcool no mimeógrafo. E o milagre acontecendo durante horas a fio: o braço cansado de girar a manivela, mas tirando do estêncil textos e desenhos gostosos, letras cheirosas, sedutoras, perfumadas.
 
O vidro lavado, e o garoto agora na expectativa de fazer feliz a professora. No exato momento em que iria tirar da pasta polionda o seu velho frasquinho, a Bárbara, a mesma Bárbara de sempre, correu até a mestra e estendeu seus braços escandalosos. O que ela ofertava era um frasco bonito, novinho, de um perfume desconhecido, talvez chique. Outro abraço afetuoso da Tia Lúcia, outras palavras carinhosas e amigas. Diante da cena, o menino e o seu frasco encanecido e ainda guardado foram murchando-se, sumindo, escondendo-se num aperto de tristeza e frustração.

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