Agora me falas tantas coisas, que me ponho a divagar por mares de sempre. Os nossos velhos e conhecidos mares.
Ouvindo uma canção romântica, composição do nosso Antônio Maria, dizes estar quase morrendo, pois tua autoestima anda baixíssima, o que não te permite ouvir tais palavras e ritmos. Respondo de imediato que dor amorosa fica muito bem em música, bem construídas, é claro! Bem construídas a música e a dor, esta através daquela.
“Mas e o que dizer da dor que sinto, para além desta que a arte de Antônio Maria me joga aos ouvidos?”
Pergunta incisiva a tua. E complexas são as nossas dores e complexos sãos os modos de nos relacionarmos com as dores sentidas pelo artista e com aquelas impressas por ele. A arte, como tudo na vida, é bifronte. Aponta-nos horizontes e depois nos nega a estabilidade; aprofunda as experiências, mas angustia a alma. Entretanto há os que fazem disso um modo de vida, uma forma lúdica de se viver da melhor maneira possível. Palavras, cores, sons, movimentos, formas, tudo isso escreve é em nós, nas tábuas dos nossos sentidos. Na vã e necessária tentativa de se buscar uma simplificação, não falemos aqui das dores de Antônio Maria, mas sim das nossas. E isso sem esquecermos, é claro, que as dele podem comungar com as que sentimos.
Tu és de fato romântica. Ainda tão jovem (talvez por isso o romantismo), e já me podes falar do que sentes, do que todos nós sentimos. É só o tempo que vai ensinar-te mais sobre tudo, como, aliás, ele me tem ensinado. Posso dizer-te muitas coisas, tal como “sai dessa situação pelo amor de Deus, pois creio que tudo seja questão de idade; já passei cronologicamente do Cabo das Tormentas; agora o mundo desaba, mas eu fico é rindo dele, nada mais”.
Se conhecesses o lindo livro Enamoramento e amor, de Francesco Alberoni, poderias dar-me como resposta definitiva a fatalidade cerceadora: o sentimento de nulidade que assalta o indivíduo leva-o a buscar no outro o que lhe falta. Entretanto, não conheces tal autor, e então simplesmente declaras que, ao invés de desejar o Cabo da Boa Esperança e a proximidade do mesmo, o que almejas é conquistar a ironia, a doce ironia, o doce ceticismo.
Isso de Cabo da Boa Esperança não existe, afirmo peremptoriamente. Isso é mito! E, com toda calma, mesmo triste, dizes que ainda conquistarás essa crença na descrença, tornando-te mais pessimista, mesmo que mais atormentada. Ora, minha amiga, não sejamos pessimistas, mas realistas. Poderemos, então, chorar com alegria e consciência. Um choro cheio de riso. Nada melhor do que a falta de ilusão. E se amas, busca amar (e aceitar) tudo o que seja móvel, volúvel, volátil; aceita as incertezas, e pronto! Localiza-te nas geografias desnorteadas. Qualquer lugar nos cabe, quando aprendemos a conviver com nossas próprias geografias.
Admites concordar com tudo o que digo, mas defendes precisar ainda aprender muito sobre como fazer o desnorte, como vivê-lo, como sê-lo. Assim me chegam tuas palavras: “Esse período de desconstrução, de esvaziamento é muito duro, é deixar o porto seguro da identidade, mergulhar no que julgávamos desconhecido, mas que sempre esteve ali”.
Ora, te respondo, se temos fantasmas, isso é prova de que estamos no processo, na travessia de que nos fala Guimarães Rosa. Lembro-te aqui o nosso Antonio Machado em seus Provérbios e cantares:
Caminhante, são teus rastos
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Pois assim é: que os nossos caminhos se façam, ou melhor, que nós os façamos, aceitando mesmo que eles não são retos, mas sinuosos, do jeito que nós podemos e sabemos caminhar.
Palavras a uma jovem (I)
14 de Janeiro de 2010, por Evaldo Balbino