Apesar de a forte presença de brasileiros em Portugal não ser novidade, continua a ser a de maior número entre os estrangeiros no país. É o que mostram os dados do censo de 2021, confirmando o censo de 2011. Assim, “os brasileiros representaram quase metade das principais nacionalidades estrangeiras que responderam ao Censo português de 2021”, revela o geógrafo Romerito Valeriano, no artigo Brasileiros em Portugal: o que nos diz o censo português de 2021*.
Segundo o autor, os dados apresentados possibilitam delinear um perfil aproximado deste brasileiro que vive em Portugal. “A probabilidade maior é de ser uma brasileira, com idade entre 25 e 50 anos, com ensino médio completo, solteira, evangélica, que paga aluguel e trabalha por conta própria na área de cuidados pessoais. Além disso, a residência predominante é na área metropolitana de Lisboa.”
Romerito é professor do CEFET/MG, em Timóteo, e colega de instituição do resende-costense e também geógrafo Adriano Valério Resende. Está em Portugal para a realização do pós-doutorado sobre a imigração brasileira nesse país, como parte de um projeto que estuda a migração internacional na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), financiado pelo CNPq. Romerito desenvolve a pesquisa Reemigração Definitiva ou Circularidade Migratória: trajetos pós-retorno dos brasileiros, como parte do Projeto "Observatório das Migrações dos Países de Língua Portuguesa: iniciando uma agenda de pesquisa" da PUC-Minas, CEFET-MG e Universidade de Lisboa.
Aumento considerável
A população de naturalidade brasileira residente em Portugal passou de 109.787, em 2011, para 199.810 em 2021, de acordo com os dados dos Censos Demográficos do Instituto Nacional de Estatísticas (INE). Um aumento de 80%, “enquanto a população estrangeira geral aumentou 37% e a população residente portuguesa diminuiu em 2,1%. Tais dados, além de confirmarem a relevância dos brasileiros, revelam ainda o quanto a imigração é estratégica para o desafio demográfico português, já que a população desse país tem diminuído há algumas décadas e o prognóstico é de que continuará diminuindo nos próximos anos”, constata Romerito.
De maneira geral, em 2021, “os estrangeiros eram aproximadamente 5% da população residente em Portugal e somente os brasileiros representavam 2% da população desse pequeno país europeu”, observa Romerito. “Esses valores, que podem ser questionados (…), demonstram a importância dos brasileiros para o mercado de trabalho e a sociedade portuguesa, o que resulta dos vínculos históricos-culturais-econômicos entre esses dois países, justificando a configuração de um subsistema migratório luso-brasileiro”, afirma Romerito ao citar diferentes estudos.
Esvaziamento demográfico
Outra constatação de Romerito é que os brasileiros seguiram a distribuição da população portuguesa, concentrando-se também “nos maiores concelhos, com destaque para as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, embora estejam em quase todos os concelhos portugueses”. Além disso, percebe-se “maior concentração próxima à costa, com poucos brasileiros nos concelhos do interior”.
Os dados permitem distinguir as áreas em que esse grupo é relativamente mais relevante, pontua Romerito. “Nesse caso, continua o destaque no litoral oeste e sul, além disso, é possível perceber a relevância dos brasileiros em alguns concelhos com populações menores e até mesmo no interior.” Mas “as maiores proporções de brasileiros por residentes ainda ocorrem nos concelhos mais próximos do litoral e nas regiões de economia mais dinâmica”.
Albufeira (Algarve) lidera seguido de Cascais (grande Lisboa), Portimão (distrito de Faro), Valença (distrito de Viana do Castelo) e Braga (região norte). Loulé, Almada, Amadora e Montijo completam os dez concelhos com maior proporção de brasileiros. “Dessa forma, o esvaziamento demográfico do interior de Portugal não está sendo compensado pela imigração brasileira”, diz Romerito. De qualquer forma, “onde a demanda de mão de obra é grande, esse maior grupo de estrangeiros em Portugal se faz presente, contribuindo para evitar uma potencial escassez de mão de obra”.
Perfil sócioeconômico
O perfil dos brasileiros que vivem em Portugal indica que a imigração pode ser um dos caminhos, se não o principal, para o desafio demográfico português, considera Romerito. “Afinal, os dados mostram que a grande maioria dos brasileiros que respondeu ao censo português estava em idade ativa.”
No censo de 2021, a proporção de brasileiros em idade ativa (61%) era maior do que a dos demais estrangeiros (55,4%) e bem maior do que a dos portugueses (46,1%), assinala Romerito. “Isso confirma mais uma vez tratar-se de uma imigração laboral, fundamental para o mercado de trabalho português.” E também segue os censos de 2001 e 2011, “confirmando a manutenção de um padrão econômico nas emigrações brasileiras para Portugal”.
Já a população feminina (55%) continua sendo a maior parte daquela de naturalidade brasileira em Portugal, apesar de uma pequena redução em relação a 2011 (57,8%). Há dez anos, o contexto de crise poderá ter contribuído para a “feminização da imigração brasileira em Portugal”, de acordo com o autor. Assim, a redução da proporção de brasileiras em relação aos brasileiros em Portugal ocorre “em um contexto de maior estabilidade econômica no país”, que favorece setores como o da construção civil.
Outros aspectos sociais
Outro aspecto social interessante apontado por Romerito é o religioso. “Por exemplo, os brasileiros são bem menos católicos (37,5%) do que os portugueses (80,6%). Em contrapartida, são bem mais protestantes/evangélicos (30%) do que os nacionais (1,3%)”, o que explica “a presença cada vez maior de igrejas evangélicas brasileiras em Portugal e a força desse grupo entre os imigrantes provenientes do Brasil”, considera Romerito respaldado em outros autores.
Quanto ao status civil, 53% dos brasileiros era solteiros, percentual pouco maior do que o dos portugueses (43%) e dos demais estrangeiros (52%).
Em relação a moradia, apenas 22% dos brasileiros eram proprietários de suas residências, em relação aos portugueses (73%) e aos demais estrangeiros (33,9%). “A grande maioria dos brasileiros dependia do pagamento de aluguel (69,9%) para ter uma moradia.”
Sobre a educação formal, os dados mostram: “Curiosamente, os brasileiros tendem a apresentar um nível maior de escolaridade do que os demais estrangeiros e até mesmo do que os portugueses”. Isso é válido para aqueles que concluíram o ensino médio (45%) e o curso superior (25%), observa Romerito, “porque os cidadãos de naturalidade brasileira ainda são os que, proporcionalmente, mais responderam não ter nenhum estudo”.
*Observatório da Emigração Brasileira: textos selecionados. Rosana Baeninger, Andrea Oltramari, Jorge Malheiros, Duval Fernandes, Victor Barros (coordenação). Campinas, SP. Núcleo de Estudos de População “Elza Berquió” - Nepo/Unicamp, 2025.
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