Família Pinto, exemplo da fragmentação de fortunas no antigo distrito da Lage, atual Resende Costa


Cultura

José Venâncio de Resende0

fotoCapitão Antônio Pinto de Góes e Lara, bisavô do professor Antônio de Lara Resende.

A família Pinto, uma das maiores detentoras de terras e cativos do antigo arraial da Lage, atual Resende Costa, tornou-se um exemplo da fragmentação das maiores fortunas do lugar. É o que mostra o historiador João Carlos Resende, no artigo Fragmentação de riqueza da elite rural mineira entre a crise da escravidão e o pós-abolição: o caso da família Pinto (distrito da Lage, 1871-1912), publicado na Temporalidades – Revista de História (edição Jul./Dez. 2021). “A região, detentora de um dos maiores índices de população cativa de toda a Comarca do Rio das Mortes nos séculos XVIII e XIX, foi palco de acúmulo de riquezas em função da produção para o abastecimento do mercado interno.”

Um exemplo de fracionamento das riquezas familiares é o caso da família do Capitão Antônio Pinto de Góes e Lara, bisavô de Antônio de Lara Resende, fundador do Instituto Padre Machado e autor das Memórias (Volumes 1 e 2) de sua juventude. Falecido em 1871, o Capitão Pinto foi um dos maiores proprietários de terras e escravos no distrito da Lage no período, bem como o possuidor de uma das maiores fortunas arroladas, diz João Carlos que é professor da E. M. Paula Assis e da E. E. Assis Resende.

O Capitão era filho do Major Joaquim Pinto de Góes e Lara e de Anna de Almeida e Silva. O casal era possuidor das maiores fortunas encontradas pela historiadora Maria Lúcia Resende Chaves na década de 1830 na região (distrito da Lage, termo de São João del-Rei), “sendo os seus patrimônios equivalentes aos montantes médios da Corte”, de acordo com o autor. No inventário de Anna realizado em 1830, “o monte mor era de 102:020$109 (cento e dois contos, vinte mil e cento e nove réis), tendo metade ficado para seu esposo, cujos bens foram arrolados por ocasião de seu falecimento em 1835”. Altura em que seu patrimônio esteve avaliado em 74:449$425, “ou seja, em questão de cinco anos teve um aumento de quase 50% (...). Tanto Anna quanto Joaquim eram descendentes de portugueses, proprietários de algumas das principais fazendas da Comarca do Rio das Mortes, como a Mato Dentro e Rio Acima”.

Antônio Pinto casou-se com Mafalda Cândida de Resende, filha do português Capitão Gervásio Pereira Alvim e de Francisca Cândida de Resende, filha do inconfidente José Resende Costa (pai). Um casamento vantajoso, explica o autor: “Do ponto de vista econômico, uma união com Mafalda seria interessante já que se tratava de uma família de posses”; e “o patrimônio dos conjurados não foi totalmente confiscado pela Coroa Portuguesa, já que a união dos pais de Mafalda foi uma manobra da família visando à preservação de seus bens (…)”.

Pelo lado de Mafalda, “os pais de Antônio mais tarde possuíram as maiores fortunas da região. Já considerando o prestígio social a união deve ter sido vantajosa para a família do Capitão Pinto, uma vez o tio de Mafalda, o inconfidente José Resende Costa, o filho, após a volta do degredo conseguiu se eleger deputado às Cortes de Lisboa por Minas, e para os familiares de Mafalda o matrimônio com Antônio poderia ajudar a limpar a imagem da família possivelmente ainda marcada por algum desgaste causado pelo envolvimento de dois de seus membros na conspiração, já que a família Pinto não deve ter se envolvido e era a detentora de grande prestígio social naquela sociedade (…)”.

O  Capitão Pinto poderia ser classificado como membro da elite rural mineira, devido ao seu evidenciado prestígio social, diz o autor. Apesar da falta de fontes sobre a sua trajetória econômica, “em seu inventário foram arrolados 32 cativos, um número considerado expressivo na segunda metade do século XIX. Além de vários animais, foram também inventariados instrumentos como ferramentas agrícolas, um engenho de cana e 16 carros de milho e 20 alqueires de feijão. Por fim, cabe ressaltar que a presença de um rancho em sua fazenda pode indicar que ali hospedavam viajantes que poderiam comprar gêneros alimentícios na propriedade”.

O inventário do Capitão Pinto, de 1871, possuía um monte mor de 95:386$485. De sete inventários localizados dos herdeiros, as riquezas encontradas somaram 205:017$546 (valor médio de 29:281$707). Dos netos, foram encontrados 11 documentos com a fortuna total de 115:953$516 (média de 10:541$229). “Os inventários deste grupo demonstram que a maioria dos descendentes seguiu dependente das atividades agrárias para conseguirem seu sustento (…).” Assim, “a posse média de alqueires de terras, escravos e animais bovinos diminuiu de geração para geração”. Ou seja: o Capitão Antônio possuía 1.171 alqueires de terras, 32 escravos e 122 cabeças de gado bovino; seus filhos, o total de 905,5 alqueires (média de 129,4), 56 escravos (média de 8) e 425 cabeças de bovinos (média de 60,7); os seus netos, 613 alqueires (média de 55,7), zero escravos e 319 cabeças de bovinos (média de 29).

Como os inventários de apenas sete (dos 13) filhos foram incluídos no levantamento, o resultado do número de alqueires se explica pelo fato de contraírem casamentos com pessoas que também eram provenientes de famílias com posse fundiária, recebendo o casal duas heranças de terras. O mesmo se aplica aos escravos e aos animais. “Assim, pelos dados apresentados fica claro que os filhos de Antônio, de um modo geral, seguiam a lógica de seu pai: casaram com pessoas ligadas ao campo e continuavam desenvolvendo atividades agrárias. Entretanto, já não tinham mais as mesmas posses que seus pais, o que dificultava uma produção de riqueza como a de seus antepassados. Além disso, em nenhum dos inventários foi possível notar a existência dos novos bens típicos do capitalismo, como apólices e ações.”

Em relação à produção agrícola, o Capitão Pinto era detentor de um engenho em sua fazenda, 16 carros de milho e 20 alqueires de feijão, além de várias peças de madeira. “Entre os seus filhos, foram arrolados diversos outros itens, como açúcar, aguardente, canaviais e milho. Já entre seus netos, os quais detinham propriedades rurais ainda menores que a de seus pais, em apenas um caso apareceu tal bem. Maria Senhorinha de Resende teve entre seus bens 2,5 carros de milho e 1 alqueire e 8 quartas de café.”

Já entre seus netos surgiam alguns sinais de mudança de mentalidade, segundo o autor. Dois dos 11 inventariados possuíam itens típicos de comércio, o que pode indicar que “se viram como que obrigados a tentar novos rumos para tentarem melhor rentabilidade”, já que tinham propriedades menores que a de seus pais e estavam incapacitados de anexar mais terras como seus antepassados.

O fracionamento das propriedades rurais seria fruto do apego às atividades agropastoris, em muitos casos praticadas por várias gerações, desde a chegada dos primeiros povoadores europeus à região do distrito da Lage, conclui João Carlos. “Ao não abandonarem as atividades agrícolas e consequentemente não abraçarem novos elementos do sistema capitalista, os membros da antiga elite escravista do distrito da Lage viram como que inertes o fracionamento das riquezas de suas famílias.”     

            
  
    
   

Deixe um comentário

Faça o login e deixe seu comentário