Entre a “Laje do Céu” e o Buraco do Inferno! Sobre a gigantesca laje abaulada de rocha granítica foi erguida, em 1749, a igreja do antigo Arraial da Lage que deu origem a Resende Costa. Debaixo desta grande laje está a gruta natural, descrita poeticamente pelo professor resende-costense Antônio Lara Resende, em seu livro Memórias (Volume I, 1970, edição do autor).
Quem a custo consegue descer-lhe até o fundo, lá verifica a existência de uma gruta lateral a maneira de sala, de linhas irregulares, seguida de enormes aberturas de fendas. A princípio, em sentido vertical e depois horizontal. Pouquíssimas pessoas se arriscaram até o presente a perscrutar aquelas galerias húmidas e escuras que lá se sucedem. Sem toque de luz direta do sol, são cortadas aqui e ali de feixe de luz amortecida, até se tornarem de total escuridão. São blocos de tamanho variado, de formas as mais caprichosas que ora se amontoam ora se sucedem na mais desordenada sucessão.
Carrega o destino de tornar-se motivo e origem de lendas que a imaginação popular engendra. E muitos, de bom grado ou de boa-fé, aceitam, conservam, alteram, enriquecem e propagam. Em menino, muita coisa ouvi sobre entes e fatos misteriosos que teriam por morada ou palco aquele escuro mundo subterrâneo ou sub-rocheano. O tesouro existente em grande profundidade sob a igreja matriz a coisas de uns 600 metros do buraco do inferno só teria acesso através daquelas galerias de que todo mundo falava, mas que ninguém conhecia.
Filho de padre
Tal pai, tal filho. O Buraco do Inferno também foi assunto, num ambiente religioso, do escritor e jornalista são-joanense Otto Lara Resende, no livro Boca do Inferno (1ª edição, Companhia das Letras, 2014). A personagem Trindade, do conto “Filho de Padre”, deixava a casa paroquial a passear com o cão Peludo e, depois de ouvir o grito “filho do padre!” vindo da janela de algum vizinho, reagia com uma pedrada na vidraça suspeita e corria a esconder-se na caverna.
O “cabeça-dura” do Trindade, que tinha dificuldade em aprender latim, descia até à cavidade, na laje que conhecia como a palma da sua mão, e se refugiava na caverna: Lá de cima ninguém o poderia ver. (…) A caverna sombria guardava ainda o calor do sol. (…) Na caverna, Trindade estava seguro, longe da zombaria dos outros meninos, longe de toda a gente, das obrigações do padre Couto. Se fosse preciso, se alguém aparecesse, Trindade podia descer até onde a laje se abria numa furna que a tradição considerava amaldiçoada, mal-assombrada.
Escura e secreta Boca do Inferno. Aranhas e lagartos ali viviam, e cobras. O lugar pouco acessível tinha a proximidade desconfortável do cemitério, que em parte ficava à vista, com os seus túmulos abandonados. Na laje, lá em cima, muita gente aparecia para tomar a fresca da tarde, até a noitinha, e apreciar o crepúsculo.
E o seu pai, Antônio, acresce poesia a esta descrição sobre a laje de cima. “A grande área constituída pela superfície meio abaulada laje do inferno proporciona esplêndido posto de observação, empolgante pela vastidão e formosura das paisagens num horizonte compreendendo bem mais de 180 graus. Manhãs e tardes de abril até setembro proporcionam ali ao expectador cenários e espetáculos indescritíveis por sua beleza. Pela manhã, tem-se ali ante os olhos vasto oceano de leite, sereno, sem ondas, deixando-se atravessar pela luz matutina mais intensa aqui do que ali, bem menos além do que mais longe, o que resulta em telas soberbas e variadas em matizes que vão do branco de neve ao nácar, passando pelo marfim e pérola.
A lenda do milagre
Stela Vale Lara e Alair Coelho de Resende reportam ao Gênesis e aos moradores das primeiras cavernas para falar de lendas, ou “histórias fantasiosas que têm que ter um fundo de verossimilhança”, do Buraco do Inferno. No livro Resende Costa - A Flor das Vertentes (Academia de Letras de São João del-Rei, 2019), a dupla de autores lembra dos “causos” (ou lendas?) contados na infância que “há séculos mexe com o imaginário popular em nossa terra”. A gruta do Buraco do Inferno era muito temida porque diziam que ela era morada de muitos animais ferozes e que até o demônio, quando era surpreendido pela alvorada, sem tempo de voltar para o inferno, nela se escondia até a próxima noite, porque ele não se dava bem com a luz do dia.
Num desses casos, um grupo de “homens destemidos” apareceu no antigo povoado e resolveu penetrar na gruta. Encontraram no fim da caverna uma capela e um belo altar, e sobre ele a imagem de Nossa Senhora da Penha. (…) Aterrorizados, viram que aos pés da virgem estava uma enorme serpente que os encarava ameaçadoramente. (…) Após alguns esforços e ardis, conseguiram resgatar a imagem de Nossa Senhora da Penha e conduziram-na para o alto da rocha, onde estavam acampados ao lado do povoado.
Improvisaram um rústico altar em uma capela no centro do povoado e houve um dia de romaria, e também de celebrações com o padre à frente do grupo de aventureiros. Mas, no dia seguinte, a santa tinha fugido. Descobriram que ela tinha voltado para o altar nos fundos do Buraco do Inferno. O grupo retornou ao local e, no amplo salão ao fim da caverna, lá estava a imagem sobre o altar. Trouxeram-na de volta. (…) Apesar da forte vigilância, sem que os guardas se dessem conta, Nossa Senhora voltou para a temida gruta. (…).
E assim aconteceu repetidas vezes, a santa sempre voltava para seu altar primitivo, nas entranhas da rocha. Até que alguém teve uma ideia: - Vamos construir uma capela com pedras tiradas da própria laje onde está o Buraco do Inferno, e assim a santa não vai fugir mais. A capela foi erguida, a imagem de Nossa Senhora da Penha foi resgatada do Buraco do Inferno e entronizada no altar que fizeram para esse fim. Nunca mais fugiu.
Mas um pároco da cidade resolveu demolir a igreja setecentista que substituía a primitiva capela. A parede do fundo da capela mor da antiga igreja resistiu a todas as tentativas de demolição. (…) O projetista teve que fazer modificações na planta da nova igreja e a parede, de granito, permanece lá até hoje.
A cobra que guardava a imagem na capela, no fim do Buraco do Inferno e que está exatamente sob a nossa Igreja Matriz, altas horas da noite, quando é lua nova, sai das profundezas das lajes e vai até o adro e dá várias voltas, atenta, para ver se Nossa Senhora da Penha, de quem ela é guardiã, continua no seu altar. Apesar da luz elétrica, há quem, em nossos dias, diz ter visto a cobra rastejando no adro e dando voltas em torno da Matriz.
