PORTUGAL: artesanato de retalhos, ponte entre Ilha Santa Maria (Açores) e Resende Costa (MG)


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José Venâncio de Resende 1

Ilha Santa Maria - Rua da Misericórdia

O artesanato de retalhos de pano está nas raízes da colonização da Ilha de Santa Maria, no Arquipélago dos Açores - Portugal, no século XV. Hoje, é a locomotiva da economia de Resende Costa, em Minas Gerais, Brasil.   

A Cooperativa de Artesanato Santa Maria, na Freguesia de Santo Espírito, com 12 sócias, mantém a tradição, com a confecção de mantas (tipo colchas), tapetes, passadeiras e carpetes, utilizando retalhos de tecidos em teares manuais. Na Ilha Santa Maria, é uma atividade tipicamente rural, diz Eduarda Bairos, uma das sócias da cooperativa.

Os produtos de retalhos estão presentes na ilha desde os primeiros colonizadores. Eram feitos inicialmente de tecidos usados, conta Eduarda. No passado, o tear era mais rústico. Já o tear de hoje tem, por exemplo, pente de inox, que substituiu o pente de bambu.  

Além de usar o retalho, a cooperativa também produz colchas de lã, painéis de linho e outros produtos em tear manual. Na cozinha, está presente a doçaria tradicional (biscoitos de orelha, chocolate, manteiga, etc.), além de pão de milho e trigo e de aguardentes.

São produtos de interesse dos turistas que visitam a Ilha, especialmente no verão (julho e agosto), e também para o “mercado da saudade” (imigrantes). Mas destinam-se ainda às lojas da Vila do Porto e das freguesias.   

Nos teares da cooperativa também são produzidos trajes de grupos folclóricos, só que são tecidos principalmente de lã (tem também de linho). Uma referência à criação de ovelhas que antecedeu aos colonizadores no início do povoamento da ilha.

Outra ponte que se pode fazer entre a Ilha Santa Maria e a microrregião das Vertentes é a típica “casa rural mariense”. Trata-se de elemento importante da arquitetura local, que no Brasil praticamente se “urbanizou” e ainda está presente no cenário de Tiradentes e outras cidades da região – pouco sobrou delas em Resende Costa.

Esta habitação tradicional da ilha tem um modelo-síntese, constituído de planta retangular, com piso; fachada de janela/porta/janela; pequeno corredor com cozinha de um lado e quarto do outro; telhado de quatro águas; sistema forno/chaminé encostado à cozinha. Mas este modelo de moradia sofreu ampliação, com crescimento da estrutura orgânica (mantendo a escala e a proporção), e modernização. Atualmente, restam poucas casas rurais marienses ainda bem-conservadas.      

Ilha de Santa Maria

Uma das nove ilhas do Arquipélago dos Açores, Santa Maria “onde tudo começou” foi descoberta por navegadores portugueses entre 1427 e 1432, segundo os historiadores. Trata-se da ilha mais meridional dos Açores (nove ilhas). O professor e historiador Carlos Luís Cruz, do Instituto Açoriano de Cultura (IAC), resume: as Ilhas de São Miguel e Santa Maria formam o grupo oriental; as Ilhas Graciosa, Terceira, São Jorge, Pico e Faial, o grupo central; e as Ilhas Corvo e das Flores, o grupo ocidental do Arquipélago.     

Na Ilha de Santa Maria, um antigo aglomerado urbano (Vila do Porto), datado do início do povoamento insular, coexiste com um recente núcleo de características mais modernas (Bairro do Aeroporto), de acordo com o arquiteto e professor português José Manuel Fernandes.

Além da própria Vila, a Ilha é formada por mais quatro freguesias: Almagreira, Santa Bárbara, Santo Espírito e São Pedro. Tem 97,42 km2 de superfície, cujo povoamento se deu a partir de meados do século XV. Tem população de 5.628 habitantes, mas já chegou a ter 13.233 habitantes, após a construção e funcionamento do aeroporto de Santa Maria na década de 1940 e 50, especialmente durante a segunda guerra mundial.

Boa parte emigrou para a América do Norte e para outras regiões de Portugal. Tanto que, durante o período de verão (especialmente julho-agosto), a população da Ilha de Santa Maria dobra, principalmente por conta dos imigrantes, mas também de outros turistas. Recentemente, o jornal The Guardian, de Londres, recomendou Santa Maria como um dos melhores destinos de praia para 2013.

Além das praias, é um período de tradicionais festas típicas na Ilha. As mais conhecidas são as festas do Espírito Santo (festas religiosas comuns a todas as ilhas) e dos Santos Padroeiros (procissões e animados arraiais nas freguesias). O trajeto entre as ilhas nesta época do ano é feito por barcos (no inverno, apenas por avião).  

Atualmente, a maior parte da população dedica-se ao setor terciário, com destaque para o comércio. Outras atividades são o artesanato tradicional e a criação de gado para produzir carne (a Ilha busca o selo de identidade geográfica, uma vez que não pode concorrer nas exportações devido à pequena escala de produção e ao custo do transporte).

Vila do Porto

A Vila do Porto – mais antiga vila dos Açores onde se instalou a maioria dos primeiros povoadores  - é o centro político e administrativo da Ilha de Santa Maria. Situa-se desde o Forte de São Brás até a Igreja de Santo Antão.  Pode-se identificar na Vila efetivamente as três ruas fundamentais, que se desenvolvem entre a Ermida da Conceição (atual Igreja de Santo Antão) e a Matriz de Nossa Senhora da Assunção, explica o arquiteto Fernandes. São elas a rua principal (Frei Gonçalo Velho), a via que a acompanha até a nascente (Rua Dr. João de Deus Vieira/Rua da Boa Nova/Rua da Misericórdia) e a mais secundaria, quase de “traseiras” (Rua do Livramento/Rua José Inácio de Andrade).

Ainda segundo Fernandes, as três ruas convergem junto à matriz, com o seu prolongamento para o norte fazendo-se por uma típica “rua nova”, mais longa que as anteriores, mais reta e de traçado já dos séculos XVII e XVIII (atual eixo da Rua Teófilo Braga/Rua Dr. Luis Bettencourt/Rua José Leandres Chaves). A Igreja de Santo Antão culmina a rua longa e larga.

Foi nesta rua que se instalaram sucessivos conventos da Vila, como o Recolhimento de Santa Maria Madalena (1594-1600); o Convento de São Francisco (1607-1609), onde funciona a atual Câmara Municipal; e o Convento de Santo Antônio (atualmente, imóvel dividido entre supermercado e Associação da Juventude).

A Vila possui várias ermidas, capelas, igrejas e solares antigos. Destaque para a Igreja de Nossa Senhora da Vitória (anexa ao antigo Convento de São Francisco); a Ermida de Santo Antônio (século XVII); a Igreja da Misericórdia (de invocação ao Espírito Santo) fundada em 1536; a Ermida de Santa Maria Madalena (século XVI) e a Ermida de São Pedro Gonçalves (séculos XV-XVI, ligada à Confraria de Pescadores). A atual igreja matriz, construída no século XV, possui três naves, com especial referência ao lampadário de prata (lavrado com as armas do capitão Brás Soares).  

A arquitetura residencial ainda em muitos casos provém dos primeiros séculos do povoamento, embora muitas casas estejam em ruínas. As ruínas da Casa do Capitão Donatário, de resquício medieval, pouco acima do Forte São Brás, foi residência do capitão Brás Soares de Sousa.

O bisavô de Branca Victoria Gago da Câmara Monteiro Leandres, Victor, e o irmão dele, Severino, foram donos da maior parte dos solares da parte antiga da Vila. Um deles é o atual prédio onde funciona a Biblioteca Municipal. A família de dona Branca também ofereceu um solar para o Convento de Santo Antônio – hoje,  lá funcionam um supermercado e a associação da juventude.

Resendes nas ilhas

Os Resendes dos Açores são citados por Gaspar Frutuoso, primeiro cronista das Ilhas (Saudades da Terra, Livro IV, Instituto Cultural Ponta Delgada, 2005), e pelo genealogista Rodrigo Rodrigues (Genealogias de São Miguel e Santa Maria, 6 Volumes, Dislivro Histórica), em geral em casamentos com famílias como Andrade, Carvalho, Coelho, Costa, Freitas, Melo, Monteiro, Moniz, Pacheco, Paiva, Pereira, Santos, Sousa e Vieira entre outros.

Encontrei Resendes na Vila do Porto, mas das novas gerações. São raros aqueles com idade mais avançada, como Maria de Sousa Resendes, filha de Antonio de Freitas Resende (nascido em 1893 e falecido em 1950) e de Maria de Jesus Sousa (1892-1985). Quando o pai faleceu, dona Maria tinha 14 anos incompletos; era a mais nova de sete irmãos (os outros são José de Freitas Resendes, Manuel Sousa Resendes, Antonio Sousa Resendes, Agostinho Sousa Resendes, Francisco Sousa Resendes e João de Sousa Freitas, já falecidos).

Na sua infância, a família morava na Freguesia do Santo Espírito. “Meu pai era lavrador, tinha poucas terras e plantava milho, trigo e batata de meia em terras de outras pessoas. Usava arado puxado por boi e grade... Minha mãe cozia pão, dia sim, dia não. A gente vivia com pão de milho; de trigo só em dia de festa. Meu pai tinha um gado para produzir leite e queijo para o consumo. E matava-se porco.”

Hoje, dona Maria mora na Vila e tem uma filha casada e dois netos; os dois outros filhos já são falecidos. Também tem 33 sobrinhos, a maioria vivendo na América do Norte (Estados Unidos e Canadá).

 

 

 

Comentários

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    Francisco Sousa Resendes era meu avô. A minha avó ainda vive em Santa Maria, na Vila do Porto, e têm ainda 9 filhos/as, divididos entre as ilhas de São Miguel, Santa Maria e Terceira (Açores). A família Resendes está viva e bem viva!


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