A Teia do Mundo

Brancas nuvens

14 de Marco de 2011, por José Antônio 0

Mais uma edição do BBB. Onze anos no ar. Tenho o orgulho de dizer que nunca, jamais em minha vida vi um só minuto desse programa. Nunca vi a cara de uma dessas figuras. Sou ocupado convicto e não tenho tempo para prestar atenção a desocupados convictos.

Pelo que sei, ganha quem fica mais tempo entregue à vagabundagem e à intriga. Isso não é novidade em nosso país, até mesmo nos altos escalões. O que me preocupa é a lição de casa que o povo aprende: vale a pena ser vagabundo.

Comida paga, piscina liberada, academia de ginástica, fama, dinheiro, luxo... E tudo isso sem precisar trabalhar. É só ficar seminu e batendo papo, jogando uns contra os outros. Reality show... Pra mim, deveria ser reality shower, ou seja, dar uma chuveirada nessa lambança de realidade.

Dizem também que o BBB é a vitrine da Playboy. E aí fica aquele negócio: uma parte é vagabunda e a outra é bunda vaga.

Fico pensando nessa garotada de cabeça fácil que acompanha esse lixo pela TV. Essa mesma garotada se diz cabeça aberta. Concordo: a cabeça é tão aberta que entra qualquer porcaria. E o que entra fecha a cabeça por dentro. Com isso, os olhos não veem o subliminar, os ouvidos não escutam o subentendido e a inteligência boceja até dormir com pijama de burro. E todos dormem tranquilos na inteligência rasa da aldeia global.

Voltando ao pessoal do programa: pessoal que fica confinado ao conforto e ao nada que fazer. Pois é, viram celebridades. Ainda bem que são celebridades rápidas, tão fugazes que no ano seguinte ninguém se lembra mais delas. Pelo menos, há algo positivo nisso: as celebridades são celeridades.

Viva o à toa! Viva a ociosidade! Viva o vazio cultural! Viva o programa que fez voto de pobreza: pobreza de princípios.

Faço parte de uma pequena parcela que pode pagar por uma televisão de alguma qualidade. Sou privilegiado por não ser obrigado a me entorpecer com tanta droga midiática. Há tempos que não sei o que é canal aberto. Não é novidade: aquilo que é de graça para o povo só pode ser de baixa qualidade. Não quero nem vou engolir goela abaixo o sabor amargo do BBB: Boçalidade, Baboseira e Baixaria.

Não sei a quantas anda o tal programa, se está no meio ou no fim. É mais um que vai passar em brancas nuvens.

Você pode me perguntar se são brancas nuvens mesmo. Se não tomo conhecimento desse programinha, então por que estou falando dele? Simples: é que ontem alguém me falou que o BBB desse ano está sendo o pior em termos de audiência. Então resolvi colocar o que está virando nada nas minhas nuvens brancas. E o tal do BBB continua sendo um nada navegando em outro nada.  

Ovo podre

14 de Fevereiro de 2011, por José Antônio 0

Nunca duvidei de três coisas quanto ao Mário Márcio: ele é meu amigo, ele toca maravilhosamente o violão, ele é teimoso. Pois o meu teimoso violeiro amigo conseguiu desovar uma situação indigesta que quase arrebentou as cordas do seu intestino. Tudo por causa da teimosia.

Estávamos em casa depois das aulas Marcos eu e o Mário. Era tarde e o Mário cismou de fritar um ovo.

– Mário, já vai dar meia-noite...

– E daí? Ovo é ovo de dia e de noite. Além disso, não tem geladeira aqui e esse ovo está dando sopa há semanas. Se não for agora, é nunca mais. Não vou desperdiçar esse ovo.


Tentei uma última ponderação:

– Antes, vamos colocar o ovo numa panela com água. Se o ovo boiar, então ele está podre.

O Marcos encheu uma caçarola e mergulhou o ovo. Ele voltou à tona rapidamente. A operação foi repetida e, mais uma vez, o ovo boiou. Marcos ainda achou ânimo para dar uma explicação da física quanto ao fenômeno do ovo boiativo... mas o Mário insistia em comer aquele ovo que tinha despencado da cloaca da galinha numa semana já perdida no tempo.

– Mário, o ovo está até meio verde.

– Tem ovo que é assim mesmo.


Nem mesmo uma curetagem no zigoto convenceria o meu amigo. Em poucos minutos, o ovo estava frito. Cheirava bem e mal ao mesmo tempo. Mário comeu e ainda jogou catchup por cima. Depois foi tocar violão.

No dia seguinte, o destino deu um show de ironia e sadismo. Mário ganhou, no Assis Resende, um bolo que uma aluna fez especialmente para ele. O confeito foi levado para nossa casa depois das aulas. Porém, o Mário não conseguiu comer. Contorcia-se de dor, estava pálido, pontadas no abdômen... era o ovo podre! Nem queria olhar para o bolo. Marcos sugeriu que ele passasse catchup no bolo, quem sabe?

O negócio foi parar no hospital. Com isso, Mário pegou um afastamento... um período mais ou menos igual ao que a galinha leva para chocar um ovo.

Quando retornou, teve que conviver com aquela coisa de provar que focinho de porco não é tomada nem Tratado de Tordesilhas é tarado atrás das ilhas: a escola toda jurava que a menina do bolo era terrorista e a menina do bolo jurava que jamais pensou em matar o Mário.

Meu amigo veio me procurar para saber como ele se sairia daquela.

– Deixe pra lá, Mário. Se mexer com isso, não vai demorar e você terá uma granja só de ovo podre.

O tempo passou. Um a um, fomos saindo de Resende Costa e seguindo outros rumos. Quanto a mim, jamais fiquei sabendo quem é a menina do bolo. Caso você esteja lendo essas linhas, menina do bolo, saiba que jamais teve culpa de coisa alguma. Foi tudo culpa do ovo podre.

... mas o Mário ainda insiste que a culpa foi do catchup.

Cursinho pré-vestibular

10 de Janeiro de 2011, por José Antônio 0

Não me lembro de quem partiu a ideia. Só sei que a coisa foi crescendo e o monstrengo já estava formado: o tal do cursinho pré-vestibular.

Monstrengo, pois o negócio era um Frankstein. Um apanhado de professores, cada um com uma pedagogia deferente, como se fossem membros variados de corpos diversos formando um todo desengonçado e assustador. Típica inserção de Mary Shelley no terror escolar.

O cursinho tinha diretor, o que não tinha era direção. O diretor era mais conselheiro honorário do que administrador. Na primeira reunião não apareceu. Na segunda mandou um substituto. Na terceira fomos todos pra casa dele sem avisar: só assim a reunião poderia acontecer.

Durante a reunião, o diretor mais parecia um gato na piscina, de tão apavorado. Ainda mais porque já havia trinta alunos matriculados e esperançosos. Depois de muitas perguntas sem respostas, a escalação do corpo docente apareceu. Porém, faltava professor para biologia. Sugere daqui, discorda dali, até que o diretor apresentou uma solução: dentre os matriculados, havia um aluno que era fera em biologia. Então, o rapaz poderia lecionar a tal disciplina e ser aluno, tudo ao mesmo tempo, e ele teria um bom desconto em sua mensalidade.

Pobre cursinho! Já começou esquizofrênico. O aluno de biologia é aluno e não é aluno... o professor de biologia é professor e não é professor.

Todos acharam um absurdo, inclusive o diretor. Mas era a única saída, uma vez que os alunos já estavam cobrando o início das aulas. E num rasgo de estupidez conjunta, a ideia foi aceita. O corpo docente franksteiniano já estava montado.

O primeiro dia de aula foi marcado para a próxima segunda-feira. Fiel ao seu estilo social, o diretor não compareceu devido a exames médicos – a bem da verdade, ele iria a um laboratório pegar o resultado de seu exame de fezes. Assim, logo na estreia, o cursinho iria se apresentar lá sem direção.

Lá onde? Outra pergunta sem resposta. Não havia local para o cursinho funcionar. E aí veio uma lista imensa de imóveis adaptáveis: garagem, sacristia da igreja, salão paroquial, boteco desativado, casa de algum parente solitário... O último imóvel da lista era a capelinha do cemitério de cima.

Depois de algumas negociações, a Lilia Lara – então diretora – permitiu que o cursinho funcionasse no Conjurados. No primeiro dia, sala lotada. Na segunda semana, sala pela metade. Na terceira semana, apenas cinco alunos. Na quarta semana, apenas o diretor apareceu por lá, para apagar as luzes. Todos tínhamos desistido.

Já vai longe esse ano de 1986. Ainda tenho comigo a lista dos alunos. Vejo ainda o rosto ansioso de cada um em minha memória, assentados nas carteiras e querendo passar no vestibular. Vejo ainda o rosto revoltado de cada um em minha memória, postados em fila e querendo o dinheiro de volta.

O cursinho não foi pra frente, nenhum professor recebeu uma só gratificação e ainda tivemos que ressarcir os alunos.

Quanto ao resultado do exame do nosso diretor...ele estava contaminado pela Entamoeba histolytica. Em outras palavras, o cara tinha uma ameba de estimação. Mas já está curado.

Papai Noel...? Tô fora!

14 de Dezembro de 2010, por José Antônio 0

Pra começar, a festa nem dele é. O Papai Noel entrou de gaiato no Natal e se deu bem. O Aniversariante fica esquecido e o obeso risonho de barbas brancas posa de pop star com o saco nas costas.

Uns não gostam de limão... outros não gostam de jiló... tem gente que não gosta de samba... mais alguns detestam funk... Ora, eu também tenho o direito de não gostar de alguma coisa. Papai Noel... sei lá, nunca me afinei muito bem com ele.

Pra mim, esse cara é um fintão. Tem menino que pede bicicleta e ganha uma bermuda. Já vi menina escrevendo carta caprichadinha, papel rosa e cheirinho de morango, pedindo computador. E lá vem um fogãozinho com panelinha de plástico.

Isso sem falar nas fintas que o velhinho dá nas criancinhas pobres. Elas também escrevem cartas pro Papai Noel. E é cada presente que elas pedem... E o velhinho nem tchum! Tem criança pobre que pede carrinho e no dia do Natal o pai continua desempregado. Há criança pobre que pede boneca e no dia seguinte a mãe, que abandonou a família, ainda não voltou.

São coisas do bom velhinho. Bom velhinho... bom pra quem? Pros lojistas, é claro. O Papai Noel até pode trazer presentes, mas ele deixa tudo nas lojas pra gente comprar.

Além disso, Papai Noel pra mim é meio sem noção. Dezembro no Brasil: calor rachando o pepino, sol tostando a mamona, seca pra tudo quanto é lado, malária, dengue, febre terçã... e o homem aparece por aqui todo agasalhado, de touca e luvas de frio. Olho pra ele e tenho sintomas de insolação.

Papai Noel brasileiro tinha que ser do nosso jeito. Pra começar, nada de aparecer como se fosse um bombeiro fora de forma. Ele viria de calção e sem camisa, chinelo havaiana e um copo de cachaça. Só mesmo tungado é que ele entraria nessa de entregar presente pra todo mundo. Trenó? Nem pensar. Viria de busão e vale-transporte. Do seu saco, ele tiraria um pandeiro, um cavaquinho e um surdo. Encharcaria todo mundo de pinga. Depois era só mandar um Jingle Bell num ritmo de pagode e estaria todo mundo conversado. Inclusive, teríamos dois natais: um em dezembro e outro em fevereiro.

Não sei quem trouxe o Papai Noel pro Brasil. Devem ser os mesmos que trouxeram o Michael Jackson, o Paul McCartney, o Queen, o Frank Sinatra... Todos esses conheceram o Reino Desencantado de Tupiniquim, mas foram embora depressa. Nunca mais falaram do Brasil. Só o gordo do trenó é que teima em voltar. Vai ver que esses caras do show bizz pagam uma nota rechonchuda pro rechonchudo.
 
Não é à toa que ele sempre passa no céu com aquela risada irritante: Oh! Oh! Oh! No mínimo, ele está levando algum. Ninguém ri assim com tanto gosto metido num modelito de Polo Norte e tostando na fornalha tropical.

Por outro lado, lembrar-se do Aniversariante é também lembrar-se de que existem injustiças... é lembrar-se do perdão que a gente não dá... das traições que a gente faz... dos amores que a gente amordaça... das guerras que a gente semeia... do agradecimento que a gente não faz... E todo mundo vai preferindo colocar essas coisas todas dentro do saco do Papai Noel pra ele levar embora.

Fica dentro de nós um vazio estranho. A gente quer chorar e não sabe por quê. E lá no céu, alguém ri: Oh! Oh! Oh!

Sono

12 de Novembro de 2010, por José Antônio 0

Era dia 29 de setembro de 1992. Naquela terça-feira, o Collor tinha sofrido o impeachment lá em Brasília. Até hoje não sei quem ganhou com isso. Os artistas mudaram, mas o circo continua o mesmo. Não existem mais os caras-pintadas, porém o povo continua aquele velho palhaço de sempre.

No final da aula daquele dia, um casal de alunos me parou no portão da escola. Eram namorados e estavam tocando juntos um comércio na cidade. Iriam fazer um concurso e queriam aulas particulares comigo.

– Não tem como. Dou aula de segunda a sexta, de seis às dez e meia da noite.

Estavam dispostos a tudo. Até mesmo aulas depois das aulas.

– É muito puxado. Já terão trabalhado o dia inteiro e ainda virão da escola, depois de cinco aulas. A gente só vai terminar depois de meia-noite.

Aceitaram. Aceitei. Aceitamos.

As aulas aconteceriam num cômodo do pai da garota. Era um lugar apertado, cheio de coisas. Um tear, vários rolos de fios, panos e panos, umas caixas de papelão que eu nunca soube o que havia dentro, algumas latas de leite, três bicicletas, uma moto, gaiolas e um cachorro. No meio desse sarapatel doméstico, uma tábua esverdeada que imitava um quadro-negro. Ela era apoiada numa mesa velha debaixo da qual o cachorro dormia. O casal se assentava em uma mesinha e eu ficava de pé.

Nas duas primeiras noites ninguém dormiu. Nem o cachorro. Esse, inclusive, sempre que eu chegava, rosnava lá debaixo da mesa. Vai ver que dormia cedo e agora tinha que ficar acordado até de madrugada ouvindo coisas que jamais iria entender.

Lá pela quinta noite, comecei a perceber que a garota já dava uns cochilos longos. Virava a cabeça pra trás, abria a boca, roncava e, num sobressalto, acordava. Voltava ao normal, olhando constrangida ao redor. O rapaz não ficava atrás. Ou melhor, ficava do lado. Uma vez, os dois dormiram tanto um ao lado do outro que suas cabeças se chocaram.

– Gente, isso não vai dar certo. Vocês querem continuar mesmo?

Numa das últimas noites, o rapaz me fez um pedido estranho:

– Professor, será que você pode nos acordar quinze pra meia-noite? É que a gente tá cansado mesmo.

Olhei o relógio: onze e quinze. Queriam dormir meia hora. Fiquei parado trinta minutos esperando o casal dormir. No horário certo, acordei os dois e a aula continuou.

Teriam a doença do sono? Em Resende Costa havia focos da mosca tsé-tsé? Ou estavam dormindo por causa das minhas aulas? Existe a “narcolepsia didática”?

No último dia, deram-me um café com bolo e me pagaram. Não quis aceitar, pois o que eles não fizeram foi participar das aulas. Somente dormiram. O rapaz insistiu, com farelos de bolo espalhados pela boca:

– Que isso, professor? Você teve boa vontade com a gente. Não foi, bem? – e deu uma cutucada no braço da garota, que, por sinal, acordou.

Aceitei o dinheiro, mas não fiquei com ele. No dia seguinte, dei-o a uma instituição de caridade. A atendente pegou o dinheiro, sorriu e me agradeceu dizendo:

– Que bom! Estamos precisando comprar uma cama. Tem gente que está dormindo muito mal por aqui.