A Teia do Mundo

Meu salário

17 de Agosto de 2011, por José Antônio 0

Quando as recordações de Resende Costa me invadem vestidas de saudade, algumas imagens ganham contornos nítidos.

Lembro-me de um cachorro grande, amarelão e com cara de filósofo, facilmente encontrado nas portas dos botecos. Vivia dormindo. Não dava a mínima para a gritaria das bebedeiras nos bares. Jamais descia do salto. De vez em quando, ele ficava sentado, altivo, olhando em direção do horizonte. Acho que era ali que ele filosofava.

Passamos várias vezes um pelo outro, eu indo e ele vindo. Nem olhava pra mim. Sempre com a boca aberta e a língua pra fora. Era bem nutrido e o pelo não era castigado. Com certeza, recebia ajuda dos moradores da cidade.

Seu nome? Nunca tive a curiosidade de perguntar. As pessoas o chamavam assoviando ou estalando os dedos. Ele ia até o sujeito, ficava por ali um instante e se retirava em busca de seu rumo incerto pelas ruas e becos.

Naquela tarde, eu e o Mário Márcio tínhamos acabado de receber o salário. Saímos da Minas Caixa e fomos até os Quatro Cantos. Num boteco peguei uns salgados e coloquei dentro de uma sacolinha, junto com o meu dinheiro. Foi então que o Mário me alertou:

– Não estou gostando nada daquele cachorro ali, Zé. Ele tá seguindo a gente desde lá de trás.

Era por causa dos salgados.

Passamos por diferentes ruas e o cachorro ali, numa fidelidade que incomodava. O Mário virou-se e agachou, fingindo pegar uma pedra. O bicho estacou e logo depois correu com medo.

Entramos na loja do Zé do Duque pra ver o preço de não sei o que mais. Pus a sacolinha no balcão e travei conversa com o Zé. De repente, o Mário gritou:

– O cachorro tá levando tudo!

E o cachorro já tinha virado a esquina do Tião Melo... Levava o meu salário com ele. Desci a ladeira como um desesperado. Dessa vez, o cachorro estava na frente e a fidelidade era minha. A correria foi parar perto do Conjurados. O animal se sentou e ficou olhando pra mim, rosnando com a sacolinha na boca.

Fui me aproximando, bem devagar. Fiz cara de simpático e soltava um elogio a cada passo que dava. Mas ele parecia dizer que mais um passo e eu me arrependeria. Achei melhor ouvir as ponderações que o cachorro me enviava entre os dentes. Afinal, ele era um filósofo.

Ele se levantou e fez que iria correr de novo. E correu. E foi embora. E levou o meu dinheiro. E nunca mais vi o meu pobre salário.

Ainda circulei pelos lados que o cachorro tomou. Tarde demais. Depois da ronda, voltei pra casa abatido, desencantado da vida, murmurando uma velha canção do Paulo Vanzolini.

No dia seguinte, passei pelos Quatro Cantos. O cachorro estava lá, dormindo sossegado na porta de um bar. Pensei em ir até ele e perguntar pelo meu dinheiro, sei lá, chamar a polícia. Loucura.

Tudo isso por um cachorro? Ainda ririam de mim. E tem mais: mesmo que o cachorro fosse preso, ele tinha dinheiro para pagar a própria fiança.

Entrevista com a miss

12 de Julho de 2011, por José Antônio 0

- Como você se sente sendo miss?

- Feliz... é o que eu sempre quis... como se diz... ah, é super legal ser miss.

- Você pretende entrar no mundo da moda?

- Legal, né? Uma curtição.

- Como é esse meio pra você?

- Que meio? O da curtição?

- Não, o meio da moda, dos desfiles...

- Eu me sinto super realizada, é um mundo de realizações. Eu me sinto especial, é como se eu fosse única. Entre milhares de garotas que sonham com isso, eu sou uma dessas milhares.

- Qual é o seu sonho?

- Participar de uma novela. Sei lá, nem precisa ser papel principal, mas eu gostaria de ser a prontagonisa... Como é que se fala?

- Protagonista.

- Isso. Prontagonista pra mim já estava super legal.

- Você está estudando?

- Sim. Mas quase não sobra tempo pros estudos. Você sabe, né? Academia, salão, festinha, desfile, lojas... Eu procuro estar sempre atualizada.

- Como?

- A galera sempre me conta tudo no twitter, no orkut, no msn... Eu já te falei que eu tenho um blog?

- Não. Conta pra gente. Como é o seu blog?

- Pois é. Sabe que eu ainda não entrei no meu blog? Esqueci a senha.

- Além de desfilar, você faz outra coisa?

- Adoro cantar.

- O que mais você faz?

- Eu canto. Tá vendo como eu sou versátil?

- E o seu prato preferido?

- Lasanha.

- E a música?

- I’ll kiss your lips forever, daquela banda teen.

- Se você estivesse no poder, o que você faria?

- Eu abriria tudo só pra todo mundo realizar os sonhos com prazer.

- Qual a mensagem que você deixa para as garotas que querem um dia estar nas passarelas?

- Não desistam dos seus sonhos. Um dia, a vida vai oferecer uma oportunidade para a gente realizar os nossos sonhos.

- O que mais irrita você?

- Falsidade e artificialismo.

- Você está namorando?

- Não. Nada sério. Mas eu quero encontrar um cara super legal e sincero. Quero um casamento super legal e passar a lua de mel em Paris.

- Obrigado pela entrevista. É muito bom a gente conversar com gente inteligente.

- Quem?

- Nada, esquece. Um beijo.

- Pra ti também. Foi super legal. Super.

Frio é psicológico

16 de Junho de 2011, por José Antônio 1

Era assim que eu costumava me referir aos meus alunos quando os via agasalhados naquelas noites geladas de maio e junho. Em Resende Costa, esses dois meses pintam o céu com um azul diferente e esfriam as horas com um vento que só quem nasce por aqui conhece.

Nunca fui de usar muita roupa. Muitas peças me tiram o movimento e a agilidade. Gesticulo muito ao falar e, quando estou com muito pano, parece que estou amarrado.

Noites cortantes, até os ossos ficavam molhados de sereno. E eu lá, o único no Assis Resende usando manga de camisa.

– Você não está sentindo frio? Virou homem de aço?

Eu dava um sorriso torto, meio cínico, meio sádico:

– Frio é psicológico.

Isso irritava o agasalhado que me ouvia. Mas, por outro lado, me fazia sentir um certo prazer de superioridade. O homem que não sente frio. Uma noite, estávamos tocando violão e cantando nas lajes da Matriz. Olhei ao redor e formávamos uma orquestra encapotada. Menos eu.

– O que é isso, gente? Frio é psicológico.

Frio é psicológico... Só mesmo um doido de gelo pra pensar assim. E essa minha loucura glacial me levou a pagar um mico quente.

Numa festa junina em São João del-Rei, tomei não sei quantos copos de quentão. Bebi tanto quentão que já estava dizendo que frio é psicológico em cinco línguas, todas travadas. Não deu outra: inflamação forte na garganta. Não deu outra também: cama e antibiótico.

Fiquei sem ir a Resende Costa uma semana. Quando voltei, apareci na escola com uma jaqueta grossa e uma blusa cacharrel de lã. Lembro-me de que eu estava entrando na sala onde quase todo mundo tinha se estrepado com a minha prova de literatura. As relações estavam ao mesmo tempo tensas e frias... e essas relações frias não eram psicológicas.
A turma foi entrando aos poucos e todos me olhavam ora com estranhamento, ora com um olhar de deboche. Eu agasalhado?

O psicológico falhou. Ficaram sabendo que estive adoentado e teria que usar aquela fantasia de urso até o inverno ir embora. O frio deixou de ser psicológico.

Uma das alunas, Ana Cristina, passou por mim com cara fechada e entrou na sala dizendo para uma amiga, com um risinho desafiador:

– Frio é psicológico.

Tentei responder, mas falar o quê? Meus argumentos estavam congelados.

Ao longo da aula, de vez em quando eu tentava lançar um olhar bravo para a turma, pois o pessoal se esforçava para não rir do Professor Freezer. Naquela época, estava na moda o RPM. Lembrei-me da música Olhar 43. Então lancei para todos o meu olhar 43.

... 43 graus de febre!

Tiros que viriam na manhã da escola sem manhã

08 de Maio de 2011, por José Antônio 0

Essa noite custou a amanhecer.

Noite funda, abismo lodoso e sem eco.

Meu sono foi atormentado várias vezes por espasmos estranhos que contraíam as minhas veias. Ao longo do meu corpo, uma quentura sem febre... um suor sem sal... uma nudez sem pele.

Madrugada alta. Comecei a ouvir sons que se sobrepunham numa confusão trágica. Eram gritos confusos e gemidos de dor que tentavam inventar uma lua negra no meu quarto minguante e só.

Mais um silêncio. E me afoguei nele.

De novo, aqueles sons. Gritos vindos de não sei onde... prantos confusos e desesperados... Minha cama me vomitava. O ar estava escasso. Corri para a varanda.

E essa manhã que não chega.

Olhei para o céu e as estrelas eram pontos vermelhos na íris preta dos olhos da insanidade. As estrelas eram respingos de sangue.

O que foi isso? Juro que ouvi umas explosões secas e rápidas. Tiros? Silêncio curto. E vieram prantos terríveis chegando de uma sala de aula onde somente cadáveres respondiam à chamada. Uma dor me cortou a palavra. Meus espasmos foram se transformando em convulsões. Aos poucos, meus olhos deixaram fluir, lágrima por lágrima, um luto de mar que perde a praia, de onda que perde o mar.

Noite que custa a amanhecer.

Gritos desesperados de quem corre sem direção... meu Deus, pais abraçados a filhos que gotejam sangue... a vida revirada pela reviravolta do absurdo... a morte fazendo festa alucinada, dona do baile macabro, rodopiando e dançando sozinha a feia canção do inferno.

Olhei para o lamento da noite. Numa cegueira de Édipo às avessas, ainda pude enxergar algumas luzes que subiam para céu. Vi uma menina vestida de bailarina... um menino com roupa de futebol... outra menina, vestida de princesa... mais outra menina, essa toda de branco... Eram muitos, eram doze.

E a noite não amanhece.

Não amanhece para que amanhã não tenha mais alarido de criança alegre. Para que amanhã não tenha mais correria de filho que encanta os pais. Para que amanhã seja um pesadelo que jamais se transforma em ontem.

Meu pranto parou e fui para o infinito. Invadi a escrita e costurei uma crônica. Fiz dela um aviãozinho de papel e mandei para o céu, em busca dos doze anjos que subiam... nenhum deles com a asa quebrada.

Minha crônica não voltou. Não sei se um deles a apanhou. Não sei se ela caiu no chão ensanguentado de uma escola vazia. Não sei se ela caiu na frente dos olhos marejados de alguém que perdeu para sempre.

Tá ficando chato

10 de Abril de 2011, por José Antônio 0

Não sei se é coisa de personalidade ou se estou ficando velho. O negócio é que dei pra achar umas coisas chatas que não acaba mais. Coisas nas quais eu nem prestava atenção agora se tornaram insuportáveis pra mim.

Meu amigo Leovaldo, como você já sabe, é cheio de cismas. Tem mais grilo do que noite no mato. Ele me confessou que também passou por isso. Tudo pra ele era chato, inclusive o espelho. Penteava-se atrás da porta, olhando-se pela greta. Não aguentava se ver no seu próprio reflexo. Até que sua irmã falou que o chato era ele e não o espelho. E, se continuasse assim, terminaria num hospício, cheio de espelhos.

O Leovaldo me falou que tudo não passa de uma crise, que um dia essa minha chateação com as coisas vai passar. Sei lá. Acho que isso veio pra ficar. Coisa chata custa pra ir embora. Às vezes, nem vai.

Por exemplo: tomei raiva de samba-enredo. É aquela mesma coisa de sempre. Um exagero de elogios, de refrões repetidos, rimas forçadas, expressões sem sentido. E a ala dos compositores? Tem mais gente ali do que na bateria da escola. E mesmo assim, tanta cabeça junta não consegue fazer algo que preste. É, meu irmão, na verdade todo mundo está é a fim de meter no bolso um naco do direito autoral.

Também ando implicado com o tal do Papai Noel. Sujeito chato. Trajes ridículos, risadinha irritante, penetra de festa que não é dele, mentiroso porque não traz presente pra ninguém. Além disso, o velhinho gordo é mau exemplo: ensina a entrar na casa dos outros durante a noite enquanto todos dormem. Isso tem um nome...

E o berimbau? Um porre. Quer coisa mais chata do que esse instrumento sem graça? Não sai daquilo. O monocórdio da Bahia é a apoteose da monotonia. Não sei como o cara que toca berimbau não dorme. E por falar em cara que toca o berimbau, que nome se dá ao cara que toca berimbau?

Pescaria... Ficar o dia inteiro parado, olhando pra nada, falando nada, ouvindo nada, pegando nada. O ritual é todo chato. Montar a vara, esticar a linha, sujar a mão pra colocar a isca, sentar no barro, levar picada de mosquito. Depois, levantar-se do barro, recolher a vara, desmontar tudo e ir embora sem levar nada, sem contar nada, sem mostrar nada. Isso tudo é muito chato.

O politicamente correto também é diplomado em chatice. Mudaram até a letra do “Atirei o pau no gato”! Dizem os politicamente chatos que essa mudança é ecológica. Ora, que me desculpem, mas a vida inteira eu ouvi cantando que atiraram o pau no gato e nunca vi ninguém jogar pedaço de pau, sarrafo, tora, palito ou qualquer outro tipo de madeira no gato.  

Desfile de Sete de Setembro é outra coisa chata. Todo ano é a mesma coisa. Mesmo assim, está lá o povo tomando sol nas costas, de pé, olhando sempre pras mesmas pessoas, ouvindo sempre o mesmo ritmo, vendo sempre a mesma marcha. Vem um colégio e o povo grita: Êêêêê!!! Vem outro colégio e o povo grita outra vez: Êêêêê!!! Aí vem mais outro colégio e o povo ali, fiel na torcida: Êêêêê!!! Pra encerrar, aquela turma toda de verde, capacete e baioneta, são soldados indo pra uma guerra que não sei onde nem contra quem. E o povo fazendo coro: Êêêêê!!! Cenas de chatura explícita...

Coisa chata é assim mesmo: insiste tanto que a gente continua discordando.