A Teia do Mundo

Previsões para 2009

11 de Janeiro de 2009, por José Antônio 0

Alguém já disse que a história é pouco criativa. Sei lá se a história é sequer criativa, pois vive mostrando os mesmos espetáculos com atores diferentes. Mudam-se cenários e atores, porém a trama e os personagens são os mesmos.

Olhe para a história e você verá uma proliferação de Hitlers, de Napoleões, de Leonardos da Vinci, de Chaplins... para ficar somente com esses. Aí, você me dirá que eles são únicos, pois se destacaram. Então, eu lhe pergunto: Qual foi o critério desse destaque? Será que outros de igual valor não conquistaram a eternidade dos registros? Será que a história é um desgastado relato de peripécias e proezas de mambembes ideologicamente selecionados se apresentando para uma platéia sempre desinformada?

É por isso que certas previsões me dão acesso de riso. Inclusive as minhas. Aí vão algumas, baseadas na critividade tautológica da história:

Na tela vítrea dos lares,
Feições bonitas brotarão
Em imagens vespertinas.
Mas, rosas sem seiva,
Rapidamente murcharão.

Ainda frente à tela vítrea dos lares,
Olhos hipnotizados esquecerão a lua
Para verem lugares arrojados de um globo
Contando sempre a mesma história
Que não esconde a mesmice nua.

As três segundas letras do alfabeto
Mostrarão retaguardas sem passado
Em busca de riquezas com futuro.
A ironia da fama fugaz apresentará
O retro em rosto e o rosto em retro transformado.

Virei Nostradamus. Vamos decifrar as profecias, todas elas sobre a televisão: a primeira estrofe diz que a televisão mostrará, em novelas da tardinha, modelos bonitos mas sem conteúdo. E logo cairão no ostracismo. A segunda estrofe diz que as pessoas estarão tão ligadas à TV que se esquecerão das simplicidades ricas. Tudo isso para ver aquelas produções arrojadas das novelas das oito, que, apesar de não serem às oito, contam sempre a mesma trama.

A terceira estrofe diz que o BBB (as três segundas letras do alfabeto) lançará novas bundas para posarem na Playboy e essas bundas ficarão mais famosas do que as suas donas... que ficarão com cara de bunda.

Tá vendo, cara? É fácil ser Nostradamus. Basta explorar as histórias repetidas da História e transformá-las em metáforas. (Ah!... e não se esqueça de colocar tudo em versos.)

Feliz Natal

07 de Dezembro de 2008, por José Antônio 0

O moço da loja foi lá pra dentro pegar a minha encomenda. Resolvi colocar moldura nuns quadros velhos. Loja de imagens de santos. Mais santos na loja do que céu. Só o Santo Antônio contei mais de trinta. Clonagem sacra!

Corri os olhos para outro canto, mais escondido. Vi lá um presépio simples, dos mais baratos. Não tinha nem boi.

Natal...

Venho ouvindo Feliz Natal em todos os natais. Agradeço, digo o mesmo e sigo meu caminho, tentando achar um estábulo onde possa colocar meu coração numa manjedoura.

Tento achar graça no Natal e acabo achando-o engraçado. Papai Noel e sua gargalhada previsível... o peru em cima da mesa, pronto para ser comido... e aí sempre aparece um que mistura saco de Papai Noel e comer o peru numa piada que só arranca riso de quem já exagerou na bebida...

Amigo oculto... caras e bocas, todo mundo sabendo quem é o amigo oculto, todo mundo sabendo o que vai ganhar, todo mundo fazendo cara de surpresa...

Lojas cheias de futuros endividados, crianças chorando porque não ganharam um brinquedo e os pais tentando convencer que o outro brinquedo é melhor... trenzinhos rodando, caminhõezinhos apitando, sininhos tocando, luzes piscando...

De repente, um cara cheio de presentes se encontra com um outro, também cheio de pacotes. Aquela complicação toda para abraçar e desejar Feliz Natal. Talvez, na confusão, um acabou levando presentes do outro.

Natal... Onde a graça?

Volto a olhar aquele presépio barato e pobre no cantinho da loja. O cara ainda não voltou com as minhas molduras. Tento tirar os olhos, mas eles se detêm naquele bebê pobre que nasceu sem berço. Seus pais o olham orgulhosos e humildes enquanto ele dorme. Tão menino. Tão Jesus. Menino, uma vez que senhor do mundo, corajoso, desapegado, coração pronto para perdoar. Jesus, uma vez que alegre, simples, cheio de idéias.

Natal... Onde a graça?

Justamente aí está a Graça! Acima do engraçado e do desgraçado, do presente e de qualquer tempo. A Graça de dormir em paz. A Graça de fazer da natureza o lar. A Graça de sofrer sem esquecer que é filho de Deus. A Graça de ser o anfitrião da festa da vida. A Graça de encontrar a pérola da humildade no lodo das vaidades.

Onde está o cara com as minhas molduras? Já faz quase quinze minutos.

Minha impaciência se acalma outra vez naquele cantinho da loja. Entendo que aquele cantinho santo pode acontecer no coração de cada homem, de cada mulher, de cada criança se a gente não apenas dizer Feliz Natal... mas desejar Feliz Natal, trabalhar para um Feliz Natal, perdoar para um Feliz Natal.

Finalmente o rapaz veio com as minhas molduras. Paguei e saí. Nas ruas, o afobamento dos compradores de presente. Noite bonita de harpa paraguaia tocando baladas natalinas para alegrar os contentes e entristecer os solitários. Tanta gente andando como estrela sem Belém. Olhos vidrados e fixos na pressa, olhos que podem se tornar úmidos de vida se eu olhar bem dentro deles e acreditar que algo divino existe entre mim e você.

Minha carteira! Onde ficou minha carteira? Com certeza, no meio dos santos. Voltei para a loja. O rapaz tinha guardado. Agradeci e lhe perguntei o nome.

– Divino.

Entendi a mensagem daquele Jesus do presépio pobre e barato que, curiosamente, já não estava mais no cantinho da loja. Abri meu sorriso, pus meu coração no olhar e disse ao meu divino irmão:

– Feliz Natal!

Os homens do Sarney

16 de Novembro de 2008, por José Antônio 0

26 de janeiro de 1986. Todo mundo olhando para cima na esperança de que algum anjo aparecesse. Mas os anjos choravam por trás da fumaça, espiando a explosão do ônibus espacial “Challenger”. Os sete tripulantes morreram. E daqui de baixo, todos ainda olhavam para cima sem enxergarem nada, sem encontrarem nada, sem entenderem nada, pois o que se desenhava no céu dos Estados Unidos era a náusea dos rabiscos do absurdo.

Quase um mês depois: 17 de fevereiro de 1986. Todo mundo outra vez olhando para cima, na esperança de que nenhum anjo saltasse das sacadas. Incêndio no Edifício Andorinhas, um edifício comercial e velho, no centro também velho do Rio de Janeiro, exposto às tentativas heróicas do corpo de bombeiros que trabalhava com material também velho. Mais mortes, mais gente queimada, anjos saltando sem asas pelas janelas e se arrebentando contra o cimento da calçada, espirrando sangue em ebulição. E daqui de baixo, todos ainda olhavam para cima, agora enxergando tudo, encontrando tudo, entendendo tudo, pois o que se desenhava no céu era a pedra cantada do absurdo.

Ainda naquele começo de ano, todos voltaram – mais uma vez – a olhar para cima na esperança de que algum herói surgisse, já que os preços disparavam no Brasil. Apareceram alguns arremedos de economistas, um punhado de dublês de ministros, mas eles explodiam queimados num rabo de foguete. E todo mundo abaixava a cabeça, pois agora nem o absurdo existia mais. Era especulação, agiotagem, roubo, quebras, incompetência... O absurdo ficou pequeno frente a isso tudo.

Mas eis que o presidente José Sarney, aquele que pegou a presidência no susto, pois o Tancredo teve que se afastar devido a um atestado de óbito, mirabolou com uma equipe temerária um plano que proibia que os preços subissem no país. Era a mesma coisa que mandar galinha parar de botar ovo.

E todo mundo voltou a olhar para cima. O Sarney rezando para o Tancredo ajudar. O povo, para ver os preços pararem onde estavam, ou seja, lá em cima mesmo. Os comerciantes pedindo a Deus sabedoria, pois havia dono de supermercado indo pra cadeia só porque tabelou os preços para baixo e o pessoal pensou que ele estava tabelando os preços para cima. E o coitado foi para o xilindró, para também ficar olhando para cima, vendo o sol nascer quadrado.

Foi nesse cenário de explosão, incêndio, prisões, presidente assustado, supermercado e lojas na mira dos fiscais do Sarney que eu e o Toninho Assunção demos a nossa primeira aula em Resende Costa. O Assis Resende estava inaugurando o segundo grau. Lembro-me de que havia uma lanchonete ali em frente ao Bar do Miguel. O dono era o Paulo César (PC), que hoje, se não me engano, trabalha com um táxi.

A fome chegou e resolvemos comer algo ali. Não éramos conhecidos na cidade. Olhares nos acompanharam, reparando em nossas roupas de tecido fino, pastas novas, papéis timbrados, andar sereno e olhar sisudo. Pedimos o cardápio olhávamos de maneira inquiridora os preços, para depois sabermos da comida, pois no aperto a gente lê cardápio da direita pra esquerda: escolhe primeiro os preços e a comida passa a ser detalhe.

E a gente olhava, falava baixo, apontava um preço módico (ainda não tínhamos recebido o primeiro salário), discutia a possibilidade de racharmos um misto quente... O PC olhando desconfiado. Não agüentou e nos lançou a pergunta:
– Vocês são fiscais do Sarney?
O Toninho ficou vermelho e eu vim com a explicação:
– Não, a gente é professor aqui do Assis Resende. É que ainda não recebemos salário algum, pois estamos começando hoje. Aí, a gente está escolhendo uma coisa bem barata.

Tudo terminou em uma efusiva gargalhada dos três. O PC nem cobrou os dois mistos quentes com a coca-cola.

Fomos embora, sustentando a cara e a pose de distintos Ministros da Pindaíba. Olhei furtivamente para trás. O PC recolhia os copos e os guardanapos. Vi que ele olhou aliviado para cima. Ele, sim, viu anjos e harmonia. Nada explodiu em sua lanchonete, nada pegou fogo em seu balcão... o PC não viu o absurdo.

Já em frente à loja do Zé do Duque, escutei uma mulher perguntando lá na lanchonete:
É gente do Sarney?
Não sei o que o PC respondeu. O Assis Resende apareceu à nossa frente. De repente, explosões! Eram apenas fogos de artifício comemorando não sei o quê. Preferi não olhar para cima.

Jornal das Lajes: Edição da madrugada

11 de Outubro de 2008, por José Antônio 0

A neblina colocava um tule de nuvem nas ruas e os grilos arranhavam a sobriedade do silêncio. Sombras soturnas se postavam imóveis ao lado de árvores e postes. Becos calados e esquinas vazias. Um quinteto rondava pela madrugada. Quinteto sem viola nem seresta, apenas vozes e passos sem rumo pelas incertezas que toda madrugada traça. Cinco homens e uns destinos, paródia pitoresca de um filme que um dia eu vi quando criança... e agora me encontrava na própria tela do tempo, representando a mim mesmo.

Um deles, André Eustáquio; logo depois, Tataka, Eustáquio Peluzzi, Rosalvo Pinto e eu. Não, leitor, não era um time de futebol de salão, apesar estarmos sendo cinco jogadores de palavras e momentos naquela noite. Andávamos todos falando ao mesmo tempo, assuntos que quase sempre terminavam em explosão de gargalhadas, fazendo cachorros latirem ao longe, em hortas e quintais de quem nem imagino.

E uma edição especial do Jornal das Lajes começou a surgir, uma edição que só sairia naquela madrugada. Durante um jantar de fandangos regado a latas de cerveja, a equipe caminhava torta, mas afiada nas lembranças. Notícias dos fatos da cidade... causos de personagens típicos do lugar... necrológio a respeito de tristes despedidas... informações sobre acontecimentos policiais... lembranças de sucessos do cinema... comentários críticos e humorísticos em forma de crônica oral...

E não é que tínhamos mais matéria do que pensávamos? De repente, alguém deu a idéia de comermos pizza no Buteco da Maura. Foi aí que o Rosalvo intimou todos a irem em seu fusca. Eu nunca tinha visto o fusca do Rosalvo e indaguei pelo veículo.

– Tá lá nos Quatro Cantos. É velho, mas leva todo mundo.

O fusca estava lá mesmo, no passeio de frente à casa da Filomena, mãe do padre Fernando Salomão. Estava empinado, jogando seus dois faróis apagados para cima. Todo mundo entrou, mas o fusca não pegou: bateria arriada.

– Ele pega no tranco. Vou soltar o carro, ele desce de ré e aí ele pega.

Não iria pegar nunca, pois estava quase que colado com a traseira num poste.

– Um, dois e... já! – empurramos o fusca com todo o empenho. Se fracassássemos, o Rosalvo iria dirigir um fusca de ré até o Parque do Campo.

Pegou. Entramos e fomos comer a pizza. Lá na Maura, o papo rolou solto e alegre, cada um contando coisas e jurando detalhes num requinte de conhecimento de causa. Ai, meu Deus! Pobre vida alheia! Quem disse, meu Deus, que a vida alheia é alheia?

Revisamos os assuntos e causos. A edição estava pronta para ser impressa. Uma edição da madrugada, tecida com vozes e coração, tudo irmanado no tablóide efêmero de um luar. Só faltava o Editorial. Resolvemos fazê-lo na praça em frente ao Assis
Resende. E tinha que ser antes do sol nascer, pois a edição era especial. Um jornal feito na madrugada para circular de madrugada, tal e qual pãozinho fresco de padaria que começa cedo. Estávamos prontos para brindarmos uma Resende Costa que fica acordada enquanto a cidade dorme, uma Resende Costa que renasce a cada teimosia de andarilhos noturnos na sua insistência em pensar que recordar é fundar eternidades.

André recolheu os títulos, Tataka fotografou, Eustáquio planejou a diagramação, Rosalvo ainda trouxe uma última história do passado e eu arrisquei uma crônica. Tínhamos pouco tempo para fazer o Editorial.

Porém, o jornal morreu ali mesmo na saída do boteco: a bateria do fusca arriou de novo. As partes da edição da madrugada ficaram por ali mesmo, foram sopradas pelo vento frio da madrugada. Não sei onde foram parar.

Ontem à noite, eu passei por lá. Vi uma coisa familiar agarrada a uns ramos: era a minha crônica. Peguei-a com cuidado e mandei para você, leitor. Está aí, frente aos seus olhos. Acho que alguma coisa foi fundada.

Só mesmo em Resende Costa...

11 de Outubro de 2008, por José Antônio 0

Naquela manhã de sábado a moça acordou cedo, toda preocupada. Nem tinha conseguido dormir direito. Afinal, chegara o dia de tirar a tão sonhada e esperada carteira de motorista. Curso, prova de legislação, tudo fora superado. E com brilho. Mas só de pensar no exame de rua, ela sentia escorrer um friozinho insistente espinha abaixo. E se perdesse a calma e desse uma mancada? Lembrou-se, para aumentar seu tormento, daquela conversinha chata de muita gente: é difícil, pra não dizer impossível, passar da primeira vez. Seja lá o que Deus quiser, pensou ela, se aprontando. E partiu para o inesperado.

Parecia uma eternidade, mas até que enfim chegou a sua vez. Entrou meio ressabiada no carro. Nem sequer arriscou uma olhada no examinador à sua direita. Vamos, disse ele secamente, dê na partida e arranque, seguindo em frente. Tudo certinho, sem arranco, seta ligada, lá se foi ela. Aos poucos foi desaparecendo o medo, tudo estava dando certo. Foi subindo a Praça Rosinha Penido, pela esquerda, bem em frente à Escola Estadual Assis Resende.

Entrando na Praça Cônego Cardoso, ela tinha que contorná-la pela esquerda, passando em frente ao hospital. De frente para a casa do Inconfidente, ela virou à direita, chegando bem ao lado da casa do Savinho da Iaiá. Naquele exato instante, ela ouviu uma ordem firme: contorna a praça e pára perto do capacete, lá do outro lado. Um pequeno susto, mas deu pra se recuperar e olhar o outro lado da praça, à sua direita. Conseguiu ver o capacete. Até aqui tudo tranqüilo, ainda deu pra pensar. Subindo um pouco mais, virou à direita bem em frente ao portão da Matriz e continuou já virando à direita novamente. Nem se esqueceu da famosa setinha. Tudo bem, pensou. Mas poucos metros adiante, ela não ouviu mais uma ordem, mas um grito: pára! Páááára!

Foi um susto só. Uma brecada violenta no freio e... se não fosse o cinto de segurança, o examinador teria quebrado a cara no pára-brisa. Ainda sobrou um segundinho pra ela pensar, desolada: mas o que fiz de errado? Não vai dar, perdi, levei ferro... Custou ouvir o examinador: eu não te disse para parar perto do capacete? O cone, desses cones laranja-brancos sinalizadores de rua, com um capacete sobre sua ponta, tinha ficado para trás. Ela ainda teve força e coragem para apenas balbuciar: foi, mas o capacete está lá adiante! E ainda sobrou uma mão meio trêmula para apontar na direção do Dudu do Orozimbo, de pé, alguns metros abaixo, perto da casa paroquial.

Agora era o examinador que não entendia mais nada do que estava acontecendo. Que capacete, que eu não estou vendo? Olha ele lá, aquele rapaz, aquele em pé na calçada, ainda teve forças para argumentar. É ele, ele é que é o Capacete. Só lhe faltou naquele momento de nervosismo a proeza de até pronunciar o nome com “c” maiúsculo. Nesse momento caiu a ficha para o examinador. Ainda intrigado, achando que se tratava de uma brincadeira, alguma gozação, ele saiu do carro e chamou o rapaz. Você que é o Capacete? Ainda meio desconfiado, ele perguntou a duas outras pessoas que estavam por ali. Todos confirmaram. Era ele mesmo. Em carne e osso. E ainda por cima, sem capacete!

A moça estava lá, sem coragem de sair do carro. Naquele momento de angústia, caladinha, já esperava pelo pior. Ele entrou novamente no veículo. Com o rabo do olho ela ainda o viu pegar a prancheta e rabiscar algumas coisas. Rabiscos ininteligíveis, na certa uma condenação assinada, segundos que pareciam horas. Mesmo assim, já resignada, ela ainda tentou agüentar a barra para ouvir o veredicto final: moça, pode sair, você está aprovada!

Cousas como essa, só mesmo em Resende Costa!