Crônica de um educador
14 de Marco de 2011, por Evaldo Balbino 0
Assisti outro dia a um evento na Universidade Federal de Minas Gerais. Tratou-se da entrega de diplomas e medalhas a alunos vencedores da Olimpíada Mineira de Química de 2010: a OMQ, sigla entre outras siglas, esta mania de batizar, num relâmpago, muito do que existe.
O que pude presenciar desde o início da cerimônia foi um triste índice. Triste e óbvio para as mentes antenadas de hoje. Não me lembro aqui de números, mas digo do que presenciei. Falou-se da quase ausência de escolas do lado norte de Minas Gerais nas Olimpíadas. Para cima de Belo Horizonte, praticamente nenhuma instituição de ensino marcou comparecimento no processo.
Tudo bem que se discutiu sobre futuros projetos nos quais buscarão a entrada de tais estabelecimentos na OMQ. Sobre outro fato, no entanto, ninguém nada comentou. O de que praticamente 100% das escolas premiadas são da rede privada de ensino e, espantosamente, situadas em Belo Horizonte. Centramentos políticos e outros centramentos andam de fato juntos.
Nomes conhecidos de escolas desfilaram perante os olhos e os ouvidos da plateia, composta em sua maioria por alunos e seus familiares. Não cito nomes, pois talvez isso não seja politicamente correto. Além disso, propagandas como as que presenciamos são insuperáveis. Basta dizer que são escolas da nata econômica da capital mineira. A exceção ficou por conta de algumas poucas escolas estaduais e uma municipal.
Diplomas de honra ao mérito, medalhas de bronze, prata e ouro foram distribuídos. Não faltaram, em alguns momentos, cumprimentos característicos entre alunos de colégios militares e um professor também militar. Confesso que, diante de tais saudações, eu teria me emocionado se tudo tivesse acontecido sob os auspícios parnasianos do Hino Nacional. Nada contra o Hino, que é belíssimo a despeito de suas ideologias equivocadas. Mas miro sempre de soslaio essas pantomimas engraçadas que andaram inventando no passado e que ainda hoje muitos papagaios repetem. É sinal de respeito, defendem. E fico me perguntando o que entendem pelo verdadeiro respeito.
As exceções são sempre atraentes. E eis que um desses alunos militares quebrou o protocolo, passando pelo professor militar e cumprimentando-o educadamente como fazem os mortais: deu-lhe apenas um aperto de mão.
Falando ainda das exceções, cheguemos agora à escola municipal, a bendita fruta entre as “maiores”. Ao final do evento, uma professora, que doravante é a coordenadora da OMQ, fez uma homenagem às escolas cujo maior número de alunos obteve diplomas e medalhas. Citou a Escola Municipal Paula Assis, cravada no povoado onde nasci há 34 anos, o Ribeirão de Santo Antônio. E falou das condições da zona rural, da ausência de telefone e de outras modernidades, fatos esses que não impediram o mérito de um aluno ali ter obtido uma medalha de bronze. O nome da escola, diferentemente dos demais nomes, foi projetado todo ele em letras maiúsculas numa tela diante dos nossos olhos. Quando a diretora Virgínia foi pegar o troféu dado à escola, a plateia bateu palmas mais fortes e mais duradouras.
Confesso que neste momento, o das palmas destacadas, me emocionei muito. E não se trata aqui de bajular o meu sobrinho Rodrigo, o ganhador da medalha de bronze, a Eunice, sua professora de Química também homenageada, nem a Escola Paula Assis, que recebeu um bonito troféu. Eles não precisam disso, e tampouco eu preciso me sujeitar a tal atitude. O que busco é parabenizá-los como se faz a uma equipe que trabalha. E o mesmo faço em relação a todas as escolas públicas do país. Essas escolas, computando aqui as minhas eternas Escola Estadual Assis Resende e Escola Estadual Conjurados Resende Costa, contam com professores e alunos que realmente querem chegar a algum lugar e que estudam para isso.
Esta crônica não vem apenas das mãos de um parente do aluno premiado ou de um conterrâneo da escola galardoada. Do mesmo modo ela não vem de um binarista, que sai por aí acusando escolas particulares de Lobo Mal e defendendo as escolas públicas como se fossem pobres cordeiros. Toda escola é bem-vinda e não sou de um marxismo reducionista. Esta crônica vem é das mãos de um educador. De alguém que acredita em sonhos possíveis. De alguém com a consciência de que para sonhar não se paga, bastando apenas (o que já é muito) arregaçar as mangas e correr atrás dos sonhos. E tudo isso, apesar de tudo. Um tudo que se resume nos descasos que vêm sofrendo nossas escolas públicas há tempos.
O que pude presenciar desde o início da cerimônia foi um triste índice. Triste e óbvio para as mentes antenadas de hoje. Não me lembro aqui de números, mas digo do que presenciei. Falou-se da quase ausência de escolas do lado norte de Minas Gerais nas Olimpíadas. Para cima de Belo Horizonte, praticamente nenhuma instituição de ensino marcou comparecimento no processo.
Tudo bem que se discutiu sobre futuros projetos nos quais buscarão a entrada de tais estabelecimentos na OMQ. Sobre outro fato, no entanto, ninguém nada comentou. O de que praticamente 100% das escolas premiadas são da rede privada de ensino e, espantosamente, situadas em Belo Horizonte. Centramentos políticos e outros centramentos andam de fato juntos.
Nomes conhecidos de escolas desfilaram perante os olhos e os ouvidos da plateia, composta em sua maioria por alunos e seus familiares. Não cito nomes, pois talvez isso não seja politicamente correto. Além disso, propagandas como as que presenciamos são insuperáveis. Basta dizer que são escolas da nata econômica da capital mineira. A exceção ficou por conta de algumas poucas escolas estaduais e uma municipal.
Diplomas de honra ao mérito, medalhas de bronze, prata e ouro foram distribuídos. Não faltaram, em alguns momentos, cumprimentos característicos entre alunos de colégios militares e um professor também militar. Confesso que, diante de tais saudações, eu teria me emocionado se tudo tivesse acontecido sob os auspícios parnasianos do Hino Nacional. Nada contra o Hino, que é belíssimo a despeito de suas ideologias equivocadas. Mas miro sempre de soslaio essas pantomimas engraçadas que andaram inventando no passado e que ainda hoje muitos papagaios repetem. É sinal de respeito, defendem. E fico me perguntando o que entendem pelo verdadeiro respeito.
As exceções são sempre atraentes. E eis que um desses alunos militares quebrou o protocolo, passando pelo professor militar e cumprimentando-o educadamente como fazem os mortais: deu-lhe apenas um aperto de mão.
Falando ainda das exceções, cheguemos agora à escola municipal, a bendita fruta entre as “maiores”. Ao final do evento, uma professora, que doravante é a coordenadora da OMQ, fez uma homenagem às escolas cujo maior número de alunos obteve diplomas e medalhas. Citou a Escola Municipal Paula Assis, cravada no povoado onde nasci há 34 anos, o Ribeirão de Santo Antônio. E falou das condições da zona rural, da ausência de telefone e de outras modernidades, fatos esses que não impediram o mérito de um aluno ali ter obtido uma medalha de bronze. O nome da escola, diferentemente dos demais nomes, foi projetado todo ele em letras maiúsculas numa tela diante dos nossos olhos. Quando a diretora Virgínia foi pegar o troféu dado à escola, a plateia bateu palmas mais fortes e mais duradouras.
Confesso que neste momento, o das palmas destacadas, me emocionei muito. E não se trata aqui de bajular o meu sobrinho Rodrigo, o ganhador da medalha de bronze, a Eunice, sua professora de Química também homenageada, nem a Escola Paula Assis, que recebeu um bonito troféu. Eles não precisam disso, e tampouco eu preciso me sujeitar a tal atitude. O que busco é parabenizá-los como se faz a uma equipe que trabalha. E o mesmo faço em relação a todas as escolas públicas do país. Essas escolas, computando aqui as minhas eternas Escola Estadual Assis Resende e Escola Estadual Conjurados Resende Costa, contam com professores e alunos que realmente querem chegar a algum lugar e que estudam para isso.
Esta crônica não vem apenas das mãos de um parente do aluno premiado ou de um conterrâneo da escola galardoada. Do mesmo modo ela não vem de um binarista, que sai por aí acusando escolas particulares de Lobo Mal e defendendo as escolas públicas como se fossem pobres cordeiros. Toda escola é bem-vinda e não sou de um marxismo reducionista. Esta crônica vem é das mãos de um educador. De alguém que acredita em sonhos possíveis. De alguém com a consciência de que para sonhar não se paga, bastando apenas (o que já é muito) arregaçar as mangas e correr atrás dos sonhos. E tudo isso, apesar de tudo. Um tudo que se resume nos descasos que vêm sofrendo nossas escolas públicas há tempos.
De animais e de gentes
14 de Fevereiro de 2011, por Evaldo Balbino 0
Cravada em terra úmida, uma cruz parece falar em silêncio. Sem nome, acabou de ser batizada com um número, 305. Mais um entre centenas de outros que registraram as mortes neste janeiro de 2011, na região serrana do Rio de Janeiro. Iniciamos o ano com tristes índices, que não se devem apenas a catástrofes naturais, mas que se relacionam ao crescimento desordenado de nossas metrópoles. As casas instáveis, à beira de barrancos e abismos, dizem das instabilidades humanas e, no caso, da vulnerabilidade econômica e social de muitas pessoas.
Voltemos à cruz com seu número. Ao lado dela, pelo que vejo numa foto que está circulando pela mídia, um maior silêncio jaz, deitado, com os olhos perdidos sabe-se lá onde e com as patas plantadas na terra molhada. Chamaram-no de Caramelo. É um cachorro bonito, vira-lata dos bons, rente à sepultura de Cristina M. C. Santana, supostamente sua dona, morta em consequência da catástrofe que atingiu Teresópolis.
Caramelo já foi adotado por uma família que vive na Barra da Tijuca. Esse nome tem mesmo a ver com sua cara, com sua cor de um marrom inequívoco. O cão já está a salvo e o drama é passado, segundo afirmam alguns. Mas a fotografia ficou. Tanto que ela deu o que falar pela internet.
Olhemos mais uma vez a fotografia. O silêncio do cão é mais rumoroso que o da cruz. Ela é de madeira, objeto sem vida sobre a morte. O cachorro é vida pura, silenciosa, velando a vida que não deveria ter ido embora. Velar a morte inesperada, desnecessária como muitas mortes, e assisti-la em silêncio como faz o nosso quadrúpede, é um ato que substitui qualquer discurso de dor e qualquer palavrório político. O cachorro fala com seus olhos e com seu corpo deitado sobre a terra. Diz sobre saudade, tristeza, apego, amor. Não interessa que falem tratar-se de um animal que não pertencia ao corpo da mulher ali inumada. Sabemos que é um cão, um ser velando a morte e lamentando a perda da vida.
Somaram-se às especulações sobre a imagem alguns comentários que o colunista Michel Blanco, no dia 25 de janeiro, postou na internet, mostrando-se indignado, e com razão, pelas mortes e pelos desalojados no Rio de Janeiro. O comentador, entretanto, pagando um tributo à defesa do ser humano, achou por bem execrar o que ele chama de humanização excessiva dos animais. Fala de uma “atenção exagerada aos cães desabrigados pela tragédia”, zelo que toma a cena do que deveria estar no centro do palco: o fato de que “quase três mil crianças estavam sem casa só em Teresópolis”. Ecoando o lema “troque seu cachorro por uma criança pobre”, da canção Rock da cachorra de Leo Jaime, o autor denuncia o pouco valor que damos à infância, já que “a cachorrada chegou antes à condição de vítima”.
Argumentando que “somos cada vez mais ridículos no trato com animais de estimação, elevados à condição de filho mimado”, o colunista alega que “humanizamos a relação com os bichos ao mesmo tempo em que é lugar comum da vida urbana queixar-se da deterioração de relações interpessoais”.
Comuns entre as gentes, tais ideias não me assustam. Blanco, pelo visto, pensa enfaticamente nas relações entre pessoas, esquecendo que todos nós somos também animais. Por que insistimos tanto em olvidar esse fato?
“Animalesco” é sinônimo de selvageria, vandalismo, estado regressivo no seio das evoluções. Assim caracterizamos a conduta de humanos em diversas situações: “aquele homem é um animal”, “sua atitude é animalesca”, e assim por diante. Agora, quando afirmamos “aquele cão age como gente, é educado, parece humano”, não estaríamos mitificando o comportamento humano?
Não estou execrando os cuidados com os humanos e defendendo apenas cães, gatos e bois. Somos também animais, gados entre gados. Se nos julgamos mais preparados para entender a vida (suas vulnerabilidades físicas, psíquicas e espirituais), eis aí um motivo para endossarmos aquilo que chamamos de humanismo, humanidade ou seja lá o que for.
Protejamo-nos uns aos outros, mas também amemos as outras vidas que comungam conosco as felicidades e as adversidades da existência. Todos nós animais possuímos coração e sentimento, temos dor biológica e psíquica. Existindo como todos nós, os amigos animais podem também provar que somos bons. Afinal, como afirmou o filósofo Arthur Schopenhauer, “a compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem”.
Voltemos à cruz com seu número. Ao lado dela, pelo que vejo numa foto que está circulando pela mídia, um maior silêncio jaz, deitado, com os olhos perdidos sabe-se lá onde e com as patas plantadas na terra molhada. Chamaram-no de Caramelo. É um cachorro bonito, vira-lata dos bons, rente à sepultura de Cristina M. C. Santana, supostamente sua dona, morta em consequência da catástrofe que atingiu Teresópolis.
Caramelo já foi adotado por uma família que vive na Barra da Tijuca. Esse nome tem mesmo a ver com sua cara, com sua cor de um marrom inequívoco. O cão já está a salvo e o drama é passado, segundo afirmam alguns. Mas a fotografia ficou. Tanto que ela deu o que falar pela internet.
Olhemos mais uma vez a fotografia. O silêncio do cão é mais rumoroso que o da cruz. Ela é de madeira, objeto sem vida sobre a morte. O cachorro é vida pura, silenciosa, velando a vida que não deveria ter ido embora. Velar a morte inesperada, desnecessária como muitas mortes, e assisti-la em silêncio como faz o nosso quadrúpede, é um ato que substitui qualquer discurso de dor e qualquer palavrório político. O cachorro fala com seus olhos e com seu corpo deitado sobre a terra. Diz sobre saudade, tristeza, apego, amor. Não interessa que falem tratar-se de um animal que não pertencia ao corpo da mulher ali inumada. Sabemos que é um cão, um ser velando a morte e lamentando a perda da vida.
Somaram-se às especulações sobre a imagem alguns comentários que o colunista Michel Blanco, no dia 25 de janeiro, postou na internet, mostrando-se indignado, e com razão, pelas mortes e pelos desalojados no Rio de Janeiro. O comentador, entretanto, pagando um tributo à defesa do ser humano, achou por bem execrar o que ele chama de humanização excessiva dos animais. Fala de uma “atenção exagerada aos cães desabrigados pela tragédia”, zelo que toma a cena do que deveria estar no centro do palco: o fato de que “quase três mil crianças estavam sem casa só em Teresópolis”. Ecoando o lema “troque seu cachorro por uma criança pobre”, da canção Rock da cachorra de Leo Jaime, o autor denuncia o pouco valor que damos à infância, já que “a cachorrada chegou antes à condição de vítima”.
Argumentando que “somos cada vez mais ridículos no trato com animais de estimação, elevados à condição de filho mimado”, o colunista alega que “humanizamos a relação com os bichos ao mesmo tempo em que é lugar comum da vida urbana queixar-se da deterioração de relações interpessoais”.
Comuns entre as gentes, tais ideias não me assustam. Blanco, pelo visto, pensa enfaticamente nas relações entre pessoas, esquecendo que todos nós somos também animais. Por que insistimos tanto em olvidar esse fato?
“Animalesco” é sinônimo de selvageria, vandalismo, estado regressivo no seio das evoluções. Assim caracterizamos a conduta de humanos em diversas situações: “aquele homem é um animal”, “sua atitude é animalesca”, e assim por diante. Agora, quando afirmamos “aquele cão age como gente, é educado, parece humano”, não estaríamos mitificando o comportamento humano?
Não estou execrando os cuidados com os humanos e defendendo apenas cães, gatos e bois. Somos também animais, gados entre gados. Se nos julgamos mais preparados para entender a vida (suas vulnerabilidades físicas, psíquicas e espirituais), eis aí um motivo para endossarmos aquilo que chamamos de humanismo, humanidade ou seja lá o que for.
Protejamo-nos uns aos outros, mas também amemos as outras vidas que comungam conosco as felicidades e as adversidades da existência. Todos nós animais possuímos coração e sentimento, temos dor biológica e psíquica. Existindo como todos nós, os amigos animais podem também provar que somos bons. Afinal, como afirmou o filósofo Arthur Schopenhauer, “a compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem”.
No armarinho da memória
10 de Janeiro de 2011, por Evaldo Balbino 0
Aquele homem sem uma das pernas estava no armazém. A tarde era quente, de uma quentura insuportável. Ele estava num canto à direita, bebendo cachaça e comendo pedaços de mortadela. O menino de braço dado com sua mãe entrou já temendo toda a cena, nem querendo pensar em tudo o que poderia acontecer. Não gostava de mortadela, da palavra e da coisa. Palavra feia, parecida com morte. Os seus irmãos tinham a mania de comprar aquelas fatias vermelhas com bolinhas brancas de gordura. Muitas bolinhas alternavam-se com caroçozinhos de pimenta ardida, sem vergonha. A alma do garoto ardia, sem sequer tocar naquelas quenturas. As bocas fraternas comiam com vontade a carne comprimida entre pães. As mãos movimentavam-se gulosas entre os sanduíches e goladas de café ou de refrigerante.
Olhou bem para o chão cascudo, perto da vitrine do balcão. Do lado de lá do vidro, alguns pães murchos insistiam em exibir-se. Na prateleira acima dos pães, marias-moles ostentavam sua lassidão, coloridas, esborrachadas e preguiçosas, querendo derreter-se por causa de uma faixa de luz do sol que entrava pela porta da venda. Rente a elas, às marias molengas, chicletes e balas sortidas estavam arrebanhados em caixinhas de cores diversas.
Enquanto a mãe entregava ao senhor do outro lado do balcão uma caderneta azul, os olhos do menino continuaram buscando salvações.
Uma balança Filizola, com bandeja de um alumínio sujo e gasto, estava bem à vista dos fregueses, sobre uma mesa de cimento liso que era uma belezura. Ao lado da balança, bexigas de mussarela, cabeças de alho entrançadas, caixas de fósforos a serem riscados. E no centro de tudo a mortífera mortadela! A lembrança da carne anunciando-se para bocas e olhos que pudessem desejá-la.
Ao lado, ainda o homem sem uma das pernas, carne inexistente. O menino desconfiou que estava sendo olhado por ele, por sua vontade de oferecer-lhe um pedaço da carne. Só não lhe daria cachaça, “a bebida de adultos” como o pai dizia.
Olhar para diante, para a Filizola imponente e determinadora dos preços e das facadas nos fregueses, seria o mesmo que olhar para o homem, para a ausência de uma perna e para o perigo de que lhe fosse dado por esse homem um pedaço daquilo que era gordura e carne e pimenta. Os olhos titubearam. Ficaram na dúvida do que fazer, de que trajeto, sempre o mesmo, deveriam seguir.
Os ouvidos, então, ouviram ansiosos a voz da mãe: “duzentas gramas de fermento e quatro quilo de farinha, a da Santa Luzia”. E nenhuma santa poderia ali salvar seus olhos. Ele não estava cego, e o homem sem uma das pernas lhe diria alguma coisa se atenção lhe desse.
As prateleiras à direita o resguardaram momentaneamente do que aconteceria. Gavetas abertas com retroses de linhas coloridas, sandálias havaianas e correias de sandálias, fumos de rolo como cobras escuras à espreita, botões de roupa, agulhas, colchetes, vidros esverdeados de óleo Singer, garrafas de querosene, lamparinas em forma de cone, tripas-de-mico e sacos de linhagem, almôndegas frias em pratos esmaltados e descascados, pacotes de Q-suco, latas de banha, açúcar batido e moreno em caixotes. Diversas conchas esperavam nos repartimentos sobre grãos de arroz, de feijão, de fubá de moinho d’água, grãos de café limpo e de café em coco...
O homem e sua muleta cumprimentaram a mãe. Uma perna apoiada no chão e a outra não existindo. Mãos sobre o balcão, preocupadas em levar à boca de dentaduras duplas e amareladas o tira-gosto terrível. O menino não o olhava, mas percebia: ao lado do homem sem uma perna descansava uma muleta. Encostada na parede, ao lado de sacos de ração, esperava por continuar desempenhando sua nobre tarefa, a de ser ela também uma perna.
O garoto quis de repente namorar a muleta, abraçar-lhe a existência, agradecer-lhe pelo que ela vinha fazendo com dedicação, mas aí teria que esbarrar na perna sem vida, naquilo que não existia, e num pedaço de mortadela estendido por mãos tão afáveis.
Após nova e dolorosa hesitação, um novo refúgio: o lado esquerdo da venda. Pacotes de polvilho, de farinha de trigo, de canjica; pacotes de sal refinado e sacos de sal grosso para gados nos pastos e pés cansados das pessoas em sua lida diária. Mais adiante, prateleiras com bobes, brincos de cabacinha, águas de cheiro, ruge, batom, leite de rosas. Tudo existências para tornar a vida possível, mais bonita, mais fácil.
Enquanto olhava perdido para as utilidades de todas aquelas coisas, não chegou a ouvir a mãe agradecendo o comerciante, mas pôde voltar a si quando a sua mão esquerda lhe tocou o ombro, chamando-o para que fossem embora.
Ao virar-se, continuou fugindo de olhar para o homem sem uma das pernas. O assoalho cascudo veio ao seu encontro novamente. Voltaria, por fim, ao mormaço que fazia lá fora. Passou com a mãe pela porta larga de madeira antiga, gigante. Atravessou a soleira como um vitorioso, mas triste consigo mesmo. Triste por não compreender o sentimento que acabara de ter diante da possibilidade de aceitar uma oferta daquele homem.
Olhou bem para o chão cascudo, perto da vitrine do balcão. Do lado de lá do vidro, alguns pães murchos insistiam em exibir-se. Na prateleira acima dos pães, marias-moles ostentavam sua lassidão, coloridas, esborrachadas e preguiçosas, querendo derreter-se por causa de uma faixa de luz do sol que entrava pela porta da venda. Rente a elas, às marias molengas, chicletes e balas sortidas estavam arrebanhados em caixinhas de cores diversas.
Enquanto a mãe entregava ao senhor do outro lado do balcão uma caderneta azul, os olhos do menino continuaram buscando salvações.
Uma balança Filizola, com bandeja de um alumínio sujo e gasto, estava bem à vista dos fregueses, sobre uma mesa de cimento liso que era uma belezura. Ao lado da balança, bexigas de mussarela, cabeças de alho entrançadas, caixas de fósforos a serem riscados. E no centro de tudo a mortífera mortadela! A lembrança da carne anunciando-se para bocas e olhos que pudessem desejá-la.
Ao lado, ainda o homem sem uma das pernas, carne inexistente. O menino desconfiou que estava sendo olhado por ele, por sua vontade de oferecer-lhe um pedaço da carne. Só não lhe daria cachaça, “a bebida de adultos” como o pai dizia.
Olhar para diante, para a Filizola imponente e determinadora dos preços e das facadas nos fregueses, seria o mesmo que olhar para o homem, para a ausência de uma perna e para o perigo de que lhe fosse dado por esse homem um pedaço daquilo que era gordura e carne e pimenta. Os olhos titubearam. Ficaram na dúvida do que fazer, de que trajeto, sempre o mesmo, deveriam seguir.
Os ouvidos, então, ouviram ansiosos a voz da mãe: “duzentas gramas de fermento e quatro quilo de farinha, a da Santa Luzia”. E nenhuma santa poderia ali salvar seus olhos. Ele não estava cego, e o homem sem uma das pernas lhe diria alguma coisa se atenção lhe desse.
As prateleiras à direita o resguardaram momentaneamente do que aconteceria. Gavetas abertas com retroses de linhas coloridas, sandálias havaianas e correias de sandálias, fumos de rolo como cobras escuras à espreita, botões de roupa, agulhas, colchetes, vidros esverdeados de óleo Singer, garrafas de querosene, lamparinas em forma de cone, tripas-de-mico e sacos de linhagem, almôndegas frias em pratos esmaltados e descascados, pacotes de Q-suco, latas de banha, açúcar batido e moreno em caixotes. Diversas conchas esperavam nos repartimentos sobre grãos de arroz, de feijão, de fubá de moinho d’água, grãos de café limpo e de café em coco...
O homem e sua muleta cumprimentaram a mãe. Uma perna apoiada no chão e a outra não existindo. Mãos sobre o balcão, preocupadas em levar à boca de dentaduras duplas e amareladas o tira-gosto terrível. O menino não o olhava, mas percebia: ao lado do homem sem uma perna descansava uma muleta. Encostada na parede, ao lado de sacos de ração, esperava por continuar desempenhando sua nobre tarefa, a de ser ela também uma perna.
O garoto quis de repente namorar a muleta, abraçar-lhe a existência, agradecer-lhe pelo que ela vinha fazendo com dedicação, mas aí teria que esbarrar na perna sem vida, naquilo que não existia, e num pedaço de mortadela estendido por mãos tão afáveis.
Após nova e dolorosa hesitação, um novo refúgio: o lado esquerdo da venda. Pacotes de polvilho, de farinha de trigo, de canjica; pacotes de sal refinado e sacos de sal grosso para gados nos pastos e pés cansados das pessoas em sua lida diária. Mais adiante, prateleiras com bobes, brincos de cabacinha, águas de cheiro, ruge, batom, leite de rosas. Tudo existências para tornar a vida possível, mais bonita, mais fácil.
Enquanto olhava perdido para as utilidades de todas aquelas coisas, não chegou a ouvir a mãe agradecendo o comerciante, mas pôde voltar a si quando a sua mão esquerda lhe tocou o ombro, chamando-o para que fossem embora.
Ao virar-se, continuou fugindo de olhar para o homem sem uma das pernas. O assoalho cascudo veio ao seu encontro novamente. Voltaria, por fim, ao mormaço que fazia lá fora. Passou com a mãe pela porta larga de madeira antiga, gigante. Atravessou a soleira como um vitorioso, mas triste consigo mesmo. Triste por não compreender o sentimento que acabara de ter diante da possibilidade de aceitar uma oferta daquele homem.
Crônica de Natal
14 de Dezembro de 2010, por Evaldo Balbino 0
Desta vez seria diferente.
Nos anos anteriores ele correra com outros meninos atrás de um carro luxuoso, conversível e enfeitado de apetrechos natalinos. Um carro distinto daqueles com que na pequena cidade estavam acostumados. Fizera todo aquele exercício, ano após ano, e nenhum brinquedo sequer. Só conseguira pegar, de cada vez, uns dois ou quatro saquinhos de pipoca doce. Sujos pela terra vermelha da rua sem calçamento, aqueles saquinhos seguiram jururus em suas mãos de menino.
Se pelo menos fossem daquelas pipocas que estouravam no fogão a lenha de sua casa! Uma barulhada dentro da panela: “rebenta piruá e deixa a pipoca”, “rebenta piruá e deixa a pipoca”... Assim seu coração ia dizendo, pulsando, pulando como as pipocas na panela, desejando que não restasse nenhum grão daqueles pulos eletrizantes. Queria que a mágica acontecesse sempre e com todos os milhozinhos. Queria isso para depois brincar e comer. Cada pipocazinha ganhava uma forma: ovelha, pedaço de nuvem, um carrinho diferente, uma cabeça de boi, uma florzinha para a vida. Cada qual mais bonita e comestível que a outra. Barulhavam felicidades entre os dentes apressados e gulosos do menino.
Mas depois daquelas corredeiras atrás do carro faustoso e com Mamãe Noel dentro, ele conseguira apenas pipocas doces, sem o doce sal que as de sua casa tinham. Por isso decidiu que agora tudo seria diverso. Definiu o que iria acontecer, deliberando o porvir como sonha um profeta com o futuro. Ficou sabendo que outra mulher rica estava inscrevendo crianças pobres para serem agraciadas pelo espírito natalino. Era só dar o nome para conseguir um brinquedo. Qualquer um que fosse, não se importaria. Mas tinha que ser um brinquedo.
Saiu de casa pela manhãzinha, sem falar com a mãe. Chegou a uma mansão escondida, cujo portão grande abrigava mistérios, mostrando e ao mesmo tempo escondendo coisas que ele não podia tocar. Um cachorro desses imensos corria de um lado para outro, atrás do portão. Bafejava seu hálito audaz nas grades, impondo a elas não um medozinho qualquer, mas um terror desses bem graúdos. O garoto, catatauzinho de nada, atreveu uma aproximação. Era bem cedo, não podia acordar a família da Dona que lhe daria um presente. Ficou silencioso, montando guarda como o cão valente.
Logo começaram os movimentos. Questão de minutos. Outras crianças principiaram a chegar. E todas traziam nas mãos uns papéis amarfanhados. Ele era o primeiro da fila. Imponente, feliz como ficava na escola, quando todos tinham que ficar em linha para entrar na sala e para ir ao vestiário. Ele, sempre o primeiro. O menorzinho lá na frente perto da professora. Como poderia enxergar o bê-á-bá se um grandão ficasse na sua frente? Não, de jeito nenhum! E ali, agora, era como sua mãe dizia: “Deus ajuda a quem cedo madruga.” Chegara cedo, não chegara!? Nada mais justo do que ser o primeiro a ser atendido.
Apareceu um homem forte do outro lado do portão. Assoviando, prendeu o cachorro, abriu as grades e permitiu que a fila acedesse ao pátio. Ele, o meninozinho, ficou rente à porta bonita da sala, toda de madeira e vidros. Belezura assim ele nunca tinha visto.
Rapidinho apareceu a madame, com um caderno encostado ao peito e uma caneta presa na mão direita. Ela se sentou num sofá grande, e ali se afundou carregada e pomposa.
– Pode entrar o primeiro!
O homem que prendera o cachorro guiou o menino pelo braço até uma cadeira diante da mulher. Tamborete duro perante o sofá. O guri nem perceberia a diferença, pois com bancos duros já estava acostumado. O problema ali era o sofá. Sua maciez destoava diante do banco em que ele fora depositado.
– Seu nome?
– Chiquinho, senhora.
– O seu nome, garoto, não o apelido!
– Ah, sim, é Francisco.
– Francisco de quê?
– Como assim?
– Ora, como assim?! Quero saber seu nome completo!
– Ah, tá certo: é Francisco Jesus da Silva.
A mulher anotou o seu nome e pediu que ele lhe mostrasse os documentos.
– Que documentos?
– Uai, você não viu escrito no cartaz pregado lá no portão? Não sabe ler não, meu filho?
– Sei sim! – respondeu melindrado, pois o que mais sabia fazer na vida era ler – Sei sim, mas não vi o tal de cartaz não!
– Pois você tinha que trazer a carteira de trabalho dos seus pais e a sua certidão de nascimento pra me mostrar!
– Mas eu não trouxe não, senhora. Não tem jeito sem esses papéis?
– Não. Não tem! Providencie tudo ou do contrário não se inscreve.
Ele abaixou um pouquinho o rosto, com raiva, triste, mas não deixou de perceber os olhos da madame inspecionando-o de alto a baixo. Diante do seu silêncio, continuou a mulher:
– Ou será que você tá escondendo que não precisa de brinquedo? Seu pai trabalha com o quê?
– Ele faz casas, dona.
– De qualquer forma preciso dos documentos. Volta em casa e pega!
O garoto saiu constrangido, magoado. Não tinha como pegar os papéis. Como explicaria tudo para os pais? Orgulhosos, não iriam deixar que ele fizesse aquilo. Subiu pela rua calçada e bonita, perguntando-se quantos saquinhos de pipoca doce conseguiria pegar dali a alguns dias. O Natal chegaria de novo, e em sua casa não existia lareira nem chaminé.
Nos anos anteriores ele correra com outros meninos atrás de um carro luxuoso, conversível e enfeitado de apetrechos natalinos. Um carro distinto daqueles com que na pequena cidade estavam acostumados. Fizera todo aquele exercício, ano após ano, e nenhum brinquedo sequer. Só conseguira pegar, de cada vez, uns dois ou quatro saquinhos de pipoca doce. Sujos pela terra vermelha da rua sem calçamento, aqueles saquinhos seguiram jururus em suas mãos de menino.
Se pelo menos fossem daquelas pipocas que estouravam no fogão a lenha de sua casa! Uma barulhada dentro da panela: “rebenta piruá e deixa a pipoca”, “rebenta piruá e deixa a pipoca”... Assim seu coração ia dizendo, pulsando, pulando como as pipocas na panela, desejando que não restasse nenhum grão daqueles pulos eletrizantes. Queria que a mágica acontecesse sempre e com todos os milhozinhos. Queria isso para depois brincar e comer. Cada pipocazinha ganhava uma forma: ovelha, pedaço de nuvem, um carrinho diferente, uma cabeça de boi, uma florzinha para a vida. Cada qual mais bonita e comestível que a outra. Barulhavam felicidades entre os dentes apressados e gulosos do menino.
Mas depois daquelas corredeiras atrás do carro faustoso e com Mamãe Noel dentro, ele conseguira apenas pipocas doces, sem o doce sal que as de sua casa tinham. Por isso decidiu que agora tudo seria diverso. Definiu o que iria acontecer, deliberando o porvir como sonha um profeta com o futuro. Ficou sabendo que outra mulher rica estava inscrevendo crianças pobres para serem agraciadas pelo espírito natalino. Era só dar o nome para conseguir um brinquedo. Qualquer um que fosse, não se importaria. Mas tinha que ser um brinquedo.
Saiu de casa pela manhãzinha, sem falar com a mãe. Chegou a uma mansão escondida, cujo portão grande abrigava mistérios, mostrando e ao mesmo tempo escondendo coisas que ele não podia tocar. Um cachorro desses imensos corria de um lado para outro, atrás do portão. Bafejava seu hálito audaz nas grades, impondo a elas não um medozinho qualquer, mas um terror desses bem graúdos. O garoto, catatauzinho de nada, atreveu uma aproximação. Era bem cedo, não podia acordar a família da Dona que lhe daria um presente. Ficou silencioso, montando guarda como o cão valente.
Logo começaram os movimentos. Questão de minutos. Outras crianças principiaram a chegar. E todas traziam nas mãos uns papéis amarfanhados. Ele era o primeiro da fila. Imponente, feliz como ficava na escola, quando todos tinham que ficar em linha para entrar na sala e para ir ao vestiário. Ele, sempre o primeiro. O menorzinho lá na frente perto da professora. Como poderia enxergar o bê-á-bá se um grandão ficasse na sua frente? Não, de jeito nenhum! E ali, agora, era como sua mãe dizia: “Deus ajuda a quem cedo madruga.” Chegara cedo, não chegara!? Nada mais justo do que ser o primeiro a ser atendido.
Apareceu um homem forte do outro lado do portão. Assoviando, prendeu o cachorro, abriu as grades e permitiu que a fila acedesse ao pátio. Ele, o meninozinho, ficou rente à porta bonita da sala, toda de madeira e vidros. Belezura assim ele nunca tinha visto.
Rapidinho apareceu a madame, com um caderno encostado ao peito e uma caneta presa na mão direita. Ela se sentou num sofá grande, e ali se afundou carregada e pomposa.
– Pode entrar o primeiro!
O homem que prendera o cachorro guiou o menino pelo braço até uma cadeira diante da mulher. Tamborete duro perante o sofá. O guri nem perceberia a diferença, pois com bancos duros já estava acostumado. O problema ali era o sofá. Sua maciez destoava diante do banco em que ele fora depositado.
– Seu nome?
– Chiquinho, senhora.
– O seu nome, garoto, não o apelido!
– Ah, sim, é Francisco.
– Francisco de quê?
– Como assim?
– Ora, como assim?! Quero saber seu nome completo!
– Ah, tá certo: é Francisco Jesus da Silva.
A mulher anotou o seu nome e pediu que ele lhe mostrasse os documentos.
– Que documentos?
– Uai, você não viu escrito no cartaz pregado lá no portão? Não sabe ler não, meu filho?
– Sei sim! – respondeu melindrado, pois o que mais sabia fazer na vida era ler – Sei sim, mas não vi o tal de cartaz não!
– Pois você tinha que trazer a carteira de trabalho dos seus pais e a sua certidão de nascimento pra me mostrar!
– Mas eu não trouxe não, senhora. Não tem jeito sem esses papéis?
– Não. Não tem! Providencie tudo ou do contrário não se inscreve.
Ele abaixou um pouquinho o rosto, com raiva, triste, mas não deixou de perceber os olhos da madame inspecionando-o de alto a baixo. Diante do seu silêncio, continuou a mulher:
– Ou será que você tá escondendo que não precisa de brinquedo? Seu pai trabalha com o quê?
– Ele faz casas, dona.
– De qualquer forma preciso dos documentos. Volta em casa e pega!
O garoto saiu constrangido, magoado. Não tinha como pegar os papéis. Como explicaria tudo para os pais? Orgulhosos, não iriam deixar que ele fizesse aquilo. Subiu pela rua calçada e bonita, perguntando-se quantos saquinhos de pipoca doce conseguiria pegar dali a alguns dias. O Natal chegaria de novo, e em sua casa não existia lareira nem chaminé.
As grandes miudezas
12 de Novembro de 2010, por Evaldo Balbino 0
Não é burguês o meu amor por formigas trabalhando. Há cem milhões de anos elas estão assim, na peleja. Contemplo o alinho com que marcham sob folhas e ciscos. Levam detritos de vida para mais vida fazerem. É pura vitalidade o que me dizem nos seus rápidos movimentos. Bastam um pé, uma gota d’água ou um soprozinho do vento, para que se desbaratem e percam a direção. Mas eis que de repente, como num passe de mágica, voltam ao balé compassado. Voltam, como se uma ordem maior as governasse. E continuam como juntas de bois e boiadeiros numa sintonia que dá gosto.
Quando criança, meus olhos buscavam atentos aquelas “correções” de formigas. Era assim mesmo que os adultos diziam: “correções”. Não proferiam o que manda a norma: “correições”. Mas sabiamente me diziam das correções dos passos, das perninhas perfeitas, impecáveis, num andar de fazer inveja a muitos. Somos ritmados, com certeza. Mas quantas e quantas vezes não tivemos que lutar e ainda lutamos nesta vida para buscar um ritmo uniforme? Bailarinas, corpos vários dançando numa só cadência, pés de várias pessoas como se de uma apenas fossem. Somos capazes desse ritmo, é verdade. Mas devemos brigar pelo mesmo. Já as formigas não! Podem me dizer os estudiosos que cada um desses serezinhos passa por uma aprendizagem de compasso também. Nem sei se é isso o que ocorre. De formigas entendo o que me fazem sentir. E o que me ensinam é movimento puro, graciosidade natural, elegância perfeita. E se nem todas se arranjam naquelas filas apreciáveis, o que ficou nos olhos do menino de outrora e de agora foram as enfileiradas, as poderosas falanges em prol da vida.
São perfeitas as formigas. Pontinhos no universo. Há as maiores, também sublimes. Porém todas tão pequenas sob pés de elefantes desengonçados que somos. Andamos sem nenhum cuidado. Caminhamos displicentes, pisando essas vidas em sua faina. Andamos sem mirar os lírios do campo, majestades maiores que a de Salomão. Sequer paramos para colher flores à beira do caminho e conversar com o Lobo Mau. Há sempre alguém para dizer dos perigos nas curvas floridas das alamedas, dos abismos nos lábios do lobo que nos adulam. Mas se parássemos, se olhássemos amorosamente os grandes olhos, sua fome de carne, suas patas enormes em nossa direção, poderíamos assim verificar que sob suas patas peludas, quentes, perigosamente apetecíveis, estão trabalhando as formigas.
E como não determos os olhos naquelas trilhazinhas sinuosas ou retas? As pequeníssimas estradas são aquelas trilhas feitas pelo ato de se trilhá-las. Não são passivas as formigas. Por isso podemos e devemos dizer a elas, meio que seguindo o poeta Antônio Machado: “caminhantes, não há caminho, mas fazeis caminho ao andardes. Se o que importa são os atos, os afazeres, a prova de vossas ações está aí, no chão diante de nós”.
E nas trilhas, em cada soldadozinho visto e namorado, podemos notar muitas glórias. Têm antenas as formigas! E isso me comove mais do que os radares poderosos criados pelo homem. Vivem em mundos de dinossauros, sombras concretas que as pisam, que se julgam superiores, que pouco ou nada se importam com elas. Mas têm radares, o que não possuímos. Não temos o poder das formigas.
Tudo é uma questão de ponto de vista, eu sei. Mas não as vejo pequenas por falar desta altura toda, desta altura falsa. Este lugar de que falo me engana. Grandes são as formigas, imensas! Elas sim suportam o mundo.
E meus olhos de criança não suportam a alegria, quando as vejo nos labirintos entre gramas, entre folhas caídas, levando gotas de néctar, pedaçozinhos de vegetais ou bichinhos mortos e menores que elas. Quando as vejo unidas e levando uma carga maior do que seus corpinhos frágeis, também me comovo. Enterneço-me com tamanha união. No debaixo de terras que desconheço, no mistério do húmus, de uma humildade que me fascina, sei que elas se alimentam e se cuidam, para que a vida prossiga.
Já me perguntei em demasia sobre o que me é insondável. Mesmo que entomólogos devassem o de dentro das formigas e as suas casas subterrâneas, as sauvazinhas me apelam é com mistérios. Mistérios brilhando como deleites, gotas tremulantes nos olhos da criança que eu fui e ainda sou. A criança que via, nas veredas do Ribeirão de Santo Antônio, formigas pelo quintal como juntas de bois em namoro. Bois sem nenhuma canga, livres, ruminando continuamente aos ouvidos desta criança que escreve; desta criança que não olvida as significâncias, brincando sempre com bois, formigas e palavras.
Quando criança, meus olhos buscavam atentos aquelas “correções” de formigas. Era assim mesmo que os adultos diziam: “correções”. Não proferiam o que manda a norma: “correições”. Mas sabiamente me diziam das correções dos passos, das perninhas perfeitas, impecáveis, num andar de fazer inveja a muitos. Somos ritmados, com certeza. Mas quantas e quantas vezes não tivemos que lutar e ainda lutamos nesta vida para buscar um ritmo uniforme? Bailarinas, corpos vários dançando numa só cadência, pés de várias pessoas como se de uma apenas fossem. Somos capazes desse ritmo, é verdade. Mas devemos brigar pelo mesmo. Já as formigas não! Podem me dizer os estudiosos que cada um desses serezinhos passa por uma aprendizagem de compasso também. Nem sei se é isso o que ocorre. De formigas entendo o que me fazem sentir. E o que me ensinam é movimento puro, graciosidade natural, elegância perfeita. E se nem todas se arranjam naquelas filas apreciáveis, o que ficou nos olhos do menino de outrora e de agora foram as enfileiradas, as poderosas falanges em prol da vida.
São perfeitas as formigas. Pontinhos no universo. Há as maiores, também sublimes. Porém todas tão pequenas sob pés de elefantes desengonçados que somos. Andamos sem nenhum cuidado. Caminhamos displicentes, pisando essas vidas em sua faina. Andamos sem mirar os lírios do campo, majestades maiores que a de Salomão. Sequer paramos para colher flores à beira do caminho e conversar com o Lobo Mau. Há sempre alguém para dizer dos perigos nas curvas floridas das alamedas, dos abismos nos lábios do lobo que nos adulam. Mas se parássemos, se olhássemos amorosamente os grandes olhos, sua fome de carne, suas patas enormes em nossa direção, poderíamos assim verificar que sob suas patas peludas, quentes, perigosamente apetecíveis, estão trabalhando as formigas.
E como não determos os olhos naquelas trilhazinhas sinuosas ou retas? As pequeníssimas estradas são aquelas trilhas feitas pelo ato de se trilhá-las. Não são passivas as formigas. Por isso podemos e devemos dizer a elas, meio que seguindo o poeta Antônio Machado: “caminhantes, não há caminho, mas fazeis caminho ao andardes. Se o que importa são os atos, os afazeres, a prova de vossas ações está aí, no chão diante de nós”.
E nas trilhas, em cada soldadozinho visto e namorado, podemos notar muitas glórias. Têm antenas as formigas! E isso me comove mais do que os radares poderosos criados pelo homem. Vivem em mundos de dinossauros, sombras concretas que as pisam, que se julgam superiores, que pouco ou nada se importam com elas. Mas têm radares, o que não possuímos. Não temos o poder das formigas.
Tudo é uma questão de ponto de vista, eu sei. Mas não as vejo pequenas por falar desta altura toda, desta altura falsa. Este lugar de que falo me engana. Grandes são as formigas, imensas! Elas sim suportam o mundo.
E meus olhos de criança não suportam a alegria, quando as vejo nos labirintos entre gramas, entre folhas caídas, levando gotas de néctar, pedaçozinhos de vegetais ou bichinhos mortos e menores que elas. Quando as vejo unidas e levando uma carga maior do que seus corpinhos frágeis, também me comovo. Enterneço-me com tamanha união. No debaixo de terras que desconheço, no mistério do húmus, de uma humildade que me fascina, sei que elas se alimentam e se cuidam, para que a vida prossiga.
Já me perguntei em demasia sobre o que me é insondável. Mesmo que entomólogos devassem o de dentro das formigas e as suas casas subterrâneas, as sauvazinhas me apelam é com mistérios. Mistérios brilhando como deleites, gotas tremulantes nos olhos da criança que eu fui e ainda sou. A criança que via, nas veredas do Ribeirão de Santo Antônio, formigas pelo quintal como juntas de bois em namoro. Bois sem nenhuma canga, livres, ruminando continuamente aos ouvidos desta criança que escreve; desta criança que não olvida as significâncias, brincando sempre com bois, formigas e palavras.