Retalhos Literários

O cavalo de três pernas

13 de Setembro de 2011, por Evaldo Balbino 1

Há os que dizem: “não me venham com histórias de assombração, pois tenho medo!”. Existem também os céticos: “podem falar e falar, não adianta; o que é inventado não me espanta!”. Rima à parte, não sabem os descrentes que até mesmo a ausência de credo não abre mão de cultos. Enterramos em nós, muitas vezes, o que em algum momento mexeu com nossas cabeças, ou melhor, com nossos cabelos.

Que me perdoem medrosos e incrédulos, pois o que quero falar insiste em minha língua. Sinto-me um contador de causos que nem precisa de cachaça e fumo para tagarelar. Talvez doses de café, que este não dispenso. Quando criança, lá no Ribeirão de Santo Antônio, ouvi muitas histórias, e com um gosto de palavras proferidas por pessoas que nunca passaram por bancos de Escola. Cada vogal e consoante em pronúncias peculiares, tudo me era melhor do que o café em canecas esmaltadas. Ou igual a ele, pois cafeína e palavras são fundamentais para manter olhos e mentes acesos sem perigo de sono.

Que me perdoem, então, pois relembro aqui uma das ficções verdadeiras do Raimundo Mundo. Só ele mesmo para contar coisas como fazia o Teotônio. Sua língua peregrinava tanto como suas pernas. Sempre chegava lá em casa com pés cansados, todavia dispostos a se arrastarem pelas estradas do Ribeirão. Relembro aqui uma história que ele contou certa feita. Rememoro-a sem transcrevê-la, pois transcrição plena é impossível. Se a traição às palavras alheias é inevitável, assumo desde logo que sou traidor. E assim vou escrevendo.

O baile fora animado. As luzes mortiças dos lampiões ainda iluminavam o cansaço da madrugada. No terreiro, poucas pessoas. As mulheres já tinham se recolhido a suas casas. Quase todos os homens já tinham ido também. Era sábado.

O domingo seria para descanso, mas tinha a missa das seis horas, e o padre não gostava de ver a capela vazia. Quando a maioria dos fiéis se atrasava, ele até que começava o culto. E fazia isso murmurando ladainhas com má vontade, ferindo o latim como falamos rispidamente com quem nos contraria.

O outro dia seria domingo, e quase ninguém dava mais sinal de vida no terreiro da Fazenda do Morro das Antas. Foi aí que o Seu Chicota, o meu avô que era dado a bailes e viola, pegou seu instrumento de corda, dependurou-o nas costas e passou pela porteira escancarada. Nesse ponto o Raimundo Mundo colocava como protagonista da peripécia o meu antepassado, e fazia isso sem nos pedir licença.

O Chicota, então, viu que a lua o ajudava. A estrada se mostrava branca, como se fosse de leite. Depois de atravessar a ponte cujas madeiras rangiam a cada passo, ficou sem discernir o que mais fazia ruído, se a ponte sob os pés ou se o bambuzal ao lado. Subiu até a capela com o adro em barrancos e foi descendo até o Ribeirão do Meio pela cava profunda, cercada de matos que pareciam virgens de tão densos.

Dentro da cava era tudo mais espesso, o escuro mais caudaloso. Sem a contribuição da lua, o pó já não era mais lácteo, e sim um estorvo balofo em que as botinas afundavam. Chicota foi descendo e assoviando, no ritmo ainda do baile. Eis que de repente notou um cavalo se aproximando. A silhueta era esbelta, garbosa, mas com o escuro não dava para ver direito a cor do animal. Com arreio posto, deu para perceber a rédea se arrastando pelo chão. Porém era estranha a ausência do cavaleiro.

Preocupado, pensando que o cavalariano estivesse bêbado e houvesse caído mais lá para baixo, num pulo segurou a rédea do cavalo desinquieto, e foi puxando o mesmo consigo.

O cavalo bufava estranhamente. O ar que soltava era mais frio do que o vento soprando na densa vegetação escurecida. Seu Chicota, então, se lembrou de repente da história de um tal cavalo de três pernas. Um que diziam perambular sozinho pelas madrugadas daquelas grotas, mas que durante os dias não era visto por ninguém. O medo tomou conta do violeiro. Mesmo assim resolveu olhar para os pés do animal. O susto foi GRANDE, dum tamanho sem par.

Nessa parte da historieta o Raimundo riu com seus dentes amarelos. Riu com vontade, gargalhou entre goladas de café. Suas mãos tremiam sempre, mas agora vibravam mais. Vibravam de felicidade incontida, dessas que nos levam a viver com sobressaltos.

E terminou a fábula entre mãos e boca felizes, dizendo que o Chicota chegara a casa depois de uma corrida com forças que não tinha.  Chegara com as calças molhadas de urina e com a camisa rasgada numa cerca de arame. Terminou como se dissesse: “Quem tem ouvidos ouça o que diz esta boca verdadeira”.

O bolo sem graça

17 de Agosto de 2011, por Evaldo Balbino 1

A mãe era certinha, gostando de tudo no seu lugar. Com simplicidade, que as posses eram exíguas, mas com organização. Até os remendos nos shorts eram feitos com capricho, e nem pensar em ir com eles para festas, para a escola. Para a igreja, então, nem se fala! Mais execráveis que os remendos seriam os shorts. Onde já se viu entrar na Casa de Deus com calças curtas? O Todo Poderoso não receberia ladainhas de um menino com pernas de fora. Nenhuma voz mendicante, por mais gritada que fosse, entraria nos tímpanos de Deus. Ele seria um surdo perante pernas escandalosas.

A mãe decidiu levar o filho naquela tarde à casa da Tia Graça. Uma visitinha de nada que versaria sobre coisas de escola. Dona Graça, que na verdade se chamava Maria das Graças, não era tia de ninguém, pelo menos de ninguém lá na casa do garoto. Mas e a mania que os aluninhos tinham de chamar as professoras de tias? Lembro-me de uma professora que chegou no primeiro dia de aula para todos nós, crianças encapetadas, e já foi logo berrando: “Aí de quem me chamar de tia! Tia, não, de jeito nenhum!”. Com olhos arregalados, pernas tremendo sob a imensa carteira, as mãos suando e sujando a brochurinha simples, fiquei olhando para a professora brava e já arrependido de ser aluno dela. Porém depois o tempo me ensinou a amar aquela braveza toda.

Tia Graça era professora no Ribeirão de Santo Antônio, num grupo rural onde todos os irmãos do menino tinham estudado. Um ano antes, 1981, a irmã do guri, dois anos mais velha que ele, tinha cursado a 1ª série com a mestra. E agora, a mãe, sempre solícita com a educação dos filhos, iria resolver algumas pendências. A família humilde acabara de mudar-se e estava morando na entrada da Vila, numa rua com nome bonito, 1º de Maio, o mês das noivas. Hoje o nome é outro, o de um homem conhecido na cidade. Quando mudaram esse nome, o menino já adolescente ficou triste. Tristeza pela perda da poesia.

Morando na cidade, outra escola, mais preocupações. A mãe queria pegar com a professora o boletim da filha. Quanto ao menino, ele ia entrando de penetra na história, pois nunca teve boletim, tinha acabado de completar sete anos e já estava borrando os shorts pelo tamanho medo de ter que enfrentar a escola, as lições, o alfabeto, os números. Teria que encarar tudo, aqueles hieróglifos que via indecifráveis nos cadernos e livros dos irmãos e que agora iriam entrar definitivamente na sua vida. Só de ouvir a mãe chamando para o banho, dizendo que iriam à casa da dona Maria das Graças, ficou massacrado, encolhido no seu mundinho de medo.

Banho tomado, roupa sem remendos assentada, um conga arrumadinho nos pés e com as meias três quartos combinando com tudo, lá se foi o garoto de mãos dadas com a mãe. Foi pensando que quem deveria cumprir aquele papel era a irmã, a folgadona que, ao invés de enfrentar a educadora, estava não se sabia onde.

Na varanda da casa da professora, sentiu-se num outro mundo. Azulejos do chão até a metade da parede. Amava azulejos coloridos que enfeitavam as casas e as vidas. Desejava morar numa casa assim um dia, ataviada. Teve vontade de não ser bem comportado, de largar as mãos da mãe e se esparramar no chão tão frio, gostoso, bonito. Havia ali flores entre ramos. Folhas que se completavam de uma peça para outra, um mosaico perfeito para se olhar. Contudo ele não pôde fazer isso. As mãos maravilhosas da mãe o seguravam com pulso firme. Certinhas, as que despejavam um amor rijo, uma canga suave no pescoço de bezerro indomado.

À mesa, a conversa foi se esticando. O menino ficou atento a tudo, apesar de não entender nada. Ficou de ouvidos abertos para ver se pronunciariam o seu nome, porque aí a coisa ficaria preta, pois aí já estariam planejando confiná-lo numa daquelas escolas tenebrosas, com corredores imensos e professores severos.

De repente os olhos infantis brilharam mais do que uma estrela maior. Flamejaram ao virem pedaços dum bolo amarelo trazidos por Tia Graça. Cintilaram de um modo diferente, com mais fulgor do que quando viram os azulejos.

Café servido numa xícara de louça, luxo para o menino que só usava copo americano, e a bandeja com as fatias amarelas chegou bem perto. Ele percebeu que dois pedaços estavam grudados. Olhou de soslaio as duas mulheres e, sonso, decidiu-se discretamente. Sua mão direita estendeu-se afoita, fingindo contenção. E eis que segurou o naco que trouxe o outro consigo. A mãe, de súbito, deu-lhe um tapinha no braço e rosnou “Que coisa feia, meu filho! Isso não se faz!”.

A vontade de chorar tomou conta do garoto. Dona Graça amainou a situação, segurando o outro bocado do bolo e dizendo que não tinha sido culpa dele. Sua boca pequena e ávida foi comendo a iguaria, mas os olhos não comiam nada, mergulhados que ficaram num lago raso de vergonha.

Sardinhas enlatadas e pirataria em alto trânsito

12 de Julho de 2011, por Evaldo Balbino 1

Com vocês um produto refinado. Trata-se da mais alta tecnologia desenvolvida nas grandes cidades brasileiras. Não sei falar de muitas metrópoles, mas sobre Belo Horizonte, por experiência cotidiana, posso discorrer. Posso dizer de belezas e maldades, concretos e verduras, amizades e assaltos, paz e sequestros. Posso falar de ruas, becos ou até mesmo de algumas quebradas, para utilizar aqui a gíria dos malandros, dos boys e de muitos marginais. Posso discursar sobre as serras no entorno da cidade, as chamuscadas por barracões verticais, casebres de concreto sem acabamento ou de madeira gasta, sem pintura. Também sobre as verdes serras, como a do Curral, as exceções que me acalmam.

Mas voltemos às ruas da cidade, que a natureza merece discurso próprio.

É nessas ruas que medram fábricas da intolerância. Até nossas sombras guerreiam entre si por um naco de espaço. Parafraseando Sartre, pode-se dizer que sempre se esquecem de que a liberdade tem limites. Não pensando que a liberdade de um termina onde começa a do outro, atropelamo-nos nas ruas nossas de cada dia.

Querem um exemplo mais específico de tanta intolerância plantada e colhida com um esmero muito estorvado? Volto a apresentar-lhes a alta tecnologia de que lhes falava. Quem já teve a graça de empoleirar-se nos lotações de Belo Horizonte? Aos atropelos entramos neles, os lotações nossos de cada dia, e que não são nossos! São motores roncando e lataria sacolejando, a estragarem uma noite já mal dormida e a anteciparem outra noite de um sono também atropelado. Galinhas entre telas e telhados usufruem de melhores condições nos galinheiros. Elas são equilibristas. E sempre me espantaram essas bípedes apoiadas num só pé quando dormem! Quanto a nós, pobrezinhos bípedes desengonçados, não temos tal poder.

Entre braços levantados tentando imitar macacos, axilas nem sempre agradáveis, apertos que podem até excitar alguns e que sinceramente não excitam este que lhes fala, seguimos todos aflitos com a chegada a um destino sem fim. E aquelas pessoas que adoram falar aos celulares? E gritam, pois certamente do outro lado o interlocutor seja surdo. Ou, na melhor das hipóteses, são elas que se equivocam e gritam, gritam, porque no meio de tanto barulho também acham que o seu ouvinte não esteja escutando nada. Já me perguntei muitas vezes se essa falação alta com boca grudada em tais aparelhos não seja também um modo de extravasar uma raiva por tudo, pela carga que somos em carros tão cheios. Como não nasci para gritos, escrevo esta crônica, este modo meu de gritar.

Bancos apertados, lixeirinhas exíguas que mal abarcam um papel de bala ou chiclete mascado por dentes nervosos. Sem falar nos educados cidadãos que ainda insistem em jogar lixo pelas janelas. Uma vez ouvi um cara dizendo que joga mesmo tudo lá fora, pois isso é um modo de empregar garis. Com as ruas sujas, não faltará emprego. Santa ignorância! Santa e irresponsável!

Ultimamente, o que mais me tem irritado é o comportamento que vejo em alguns motoristas e trocadores. Fui perceber isto por agora, eu com esta mania de não ver podridão em frutos bonitos postos em bancas limpas. Faz dois meses mais ou menos que um trocador me disse com a cara mais lavada do mundo: “Fica aí na frente, não precisa passar pela roleta não. Me dá só R$2,00; o chegado aí vai te deixar descer na frente”. Fiquei estarrecido! Não que eu seja um santo, mas também com que cara eu desceria pela frente? Todos me olhando e se perguntando por que eu estaria fazendo aquilo. Não, eu não queria levantar suspeitas sobre minha pessoa. Deus me livre! Respondi que não, que passaria pela roleta e pronto. Paguei R$2,45. O trocador levantou os ombros e me deixou passar como se eu fosse ninguém. Vi os olhos do motorista no retrovisor, seu olhar me fulminando.

Depois disso passei a observar mais as pessoas passando ou não pelas roletas. E pude constatar que tal prática (a de pessoas que não pagam ou que pagam menos para descerem pela porta da frente) não é pouco comum. Nos pequenos pontos da vida, sempre há algo que foge a certa engrenagem. Por que não buscar outros modos de contestação ao abuso no valor das passagens? É, parece que cada um sobrevive como pode.

Certa feita brinquei com um amigo: “ainda vou comprar um ônibus só pra mim. Somente eu terei o direito de passar pela roleta, pagar e andar sozinho no meu lotação”. Mas depois dessa experiência, acho melhor não. E se o trocador me subornar outra vez?

Catar feijão

16 de Junho de 2011, por Evaldo Balbino 0

Quando minha mãe dizia “tem que botar feijão na panela pra cozinhar”, eu ia lamentando até a lata grande de banha, que me esperava para abri-la e retirar o feijão plantado e colhido por meus irmãos e meu pai. Aquele feijão entre pedras. E eram muitas, as de duro trato!

Nas roças debaixo de um sol de matar, ouviam-se do lado de fora dos ranchos as varas vergando em mãos cheias de calo e suor. Tentei algumas vezes ajudar os meus, pegava também uma vara e tentava bater feijão como um adulto fazia. Meu esforço era muito, e o resultado era pouco. Eu achava bonito como as palhas de feijão voavam, algumas faziam curva no espaço e iam parar macaqueadas em árvores do entorno. Como eu tinha inveja de ver meus irmãos dando vergadas nos montes de palha ressequida! Nem se viam as varas como relâmpagos no ar! Mas eram audíveis os sons que faziam desde lá de cima até as batidas sobre o feijão açoitado.

Não vendo frutos do meu esforço, o que eu gostava mesmo era de agachar nas laterais do terreiro e catar os grãos tresmalhados, os sem-vergonha que ainda queriam ficar por ali, no meio da terra, para brotar mais vida no meio do mato.

Os terreiros eram batidos. Mesmo assim soltavam pedrinhas intratáveis. E eu ficava matutando por que meu pai não cimentava aqueles eirados, por que não evitava que as pedrinhas viessem incomodar a nós, pobres humanos sem propensão para degustar pedras. Somente depois é que pude entender muita coisa. Como um agricultor poderia gastar o dinheiro que não tinha? Como um meeiro poderia cimentar um pedaço de terra que não era seu? Para nossa subsistência, o feijão tinha que ser cultivado. E só metade dele é que meu pai levava para nossa despensa. O jeito era mesmo bater feijão no terreiro de terra batida!

E lá ficava eu diante da lata de banha. Uma guerra se travando. Tinha vontade de resmungar. Como enfrentar aquelas pedras medonhas, que de tão pequenas eram insuportáveis? Espertas, aproveitavam a pequenez para fugir entre feijões, até mesmo confundiam-se com eles. Mas no prato nosso de cada dia, ali quando comíamos com boca e vontade, essas pedrinhas aumentavam de tamanho a ponto de sufocar qualquer apetite. Aí vinham os xingamentos, o coro de vozes da família martelando no meu ouvido que eu era porco, que não fazia nada direito. E ninguém se condoía com minha expressão de tristeza, de fome roubada num relance.

Lembro-me de uma vez ter visto alguém numa novela catando feijão. A nossa TV era em preto e branco, e me deu uma agonia ver aqueles grãos acinzentados, numa parecença com possíveis pedrinhas no meio deles. Como se não bastasse o poder de mimetização que essas pedrinhas têm, a confusão entre pedras e grãos era aumentada demasiadamente. Resolvi nem ficar olhando muito aquelas mãos na faina perigosa, no risco de ouvirem depois que eram porcas, que não trabalhavam direito.

Tempos depois, já não morando no Ribeirão e sim em Resende Costa, passei a achar chique minha mãe levando fubá e arroz na “limpadeira do Vantuir”. As máquinas ficavam abaixo do nível da rua. Na entrada já se sentia um cheirinho gostoso de fubá que não acabava mais! Descíamos um corredor cimentado, antigo. O dono das máquinas pegava os sacos e despejava o conteúdo dentro delas. Era um barulho de dar medo. E eu achava tudo maravilhoso. Não me lembro de minha mãe levando vagens secas de feijão para limpar. Não havia máquinas para isso ali. E eu tinha que continuar em casa, separando o trigo do joio.

Hoje em dia catar feijão é mais fácil. Os pacotes chegam bonitos, trazendo grãos brilhosos, meio seda. Dá gosto vê-los com pedra quase nenhuma. Deslizo-os entre meus dedos; e se uma ou outra pedrinha tenta me enganar, pego-a de surpresa, e lhe digo a que vim, qual a minha função diante da nobre tarefa de limpar o que será comido. Jogo-a fora como quem se livra de um estorvo, de um possível incômodo.

A propósito do que estou falando, lembro aqui o poema “Catar feijão” de João Cabral de Melo Neto. O poeta, um exímio catador de palavras, buscava a pedra que “dá à frase seu grão mais vivo: / obstrui a leitura fluviante, flutual, / açula a atenção, isca-a com o risco”. Eu, particularmente, não gosto de tais pedras. Quero leituras fluviais e flutuantes, palavras boiando para todo lado. Quanto aos feijões, Deus me livre de pedras no meio deles! Essas eu também queria flutuando. Pegaria todas e as jogaria fora. Se tudo fosse assim desde sempre, acho que eu teria sofrido menos, não as ruminando na minha infância entre mãos e boca.

Piteiras e emplastros

10 de Abril de 2011, por Evaldo Balbino 0

As piteiras são grandes, leques abertos para o céu. Como é possível essa atenção para as nuvens, lá onde o vento as carrega, lá onde elas são arejadas e sopradas? As nuvens são mulheres espaventadas em dia de verão. Faz calor entre os terrões jogados na pirambeira do pasto do Chicão, entulhos do desaterramento em uma construção mais acima do pasto, e as nuvens lá, folgadas, leves e esvoaçantes. Ele gosta delas, atribuindo-lhes formas, modelando-as como se deseja modelar a vida. Mas o problema são os leques abertos, as piteiras que se abrem para o céu, jogando suas folhas largas para o espaço. Lançam-se, não como a espada de São Jorge contra o dragão, mas como lanças verdes e espinhentas contra não se sabe o quê.

Quando ele corta algumas dessas folhas, faz isso sem maldade nenhuma. Todavia não deixa de pensar, com ares de maldade bem ingênua, que o que faz é uma pequena vingança. As piteiras olham para as nuvens e o desdenham, e ele faz dessas piteiras seu joguete, um jogo de camicase. Transformando cada folha de borda espinhenta em prancha, ele pode brincar com a morte. E aí se sente importante, um pequeno vilão, talvez até mais formidável do que os vilões que desfilam nas telenovelas.

Como não tem mar em Minas, as ondas de terra, mato e lixo avançam barranco abaixo até morrerem como águas tranquilas lá no fundo do pasto, entre ossadas de animais domésticos, plantinhas sem-vergonha do campo e cupinzeiros rijos.

Surfar hoje promete ser uma atividade feliz. Ele é o mais rápido. Desce pela ribanceira, entre poeira e adrenalina, como um esquiador profissional. Sentado na folha convexa e oblonga, é o marujo dos mares de Minas. O aguilhão na ponta da folha segue uma direção misteriosa. Não se pode saber o que vem pela frente. Os perigos são fartos, no entanto sua coragem de marujo indomável é descomunal. Os cupinzeiros são recifes de coral erguendo-se das águas. Com mãos fortes e ágeis, ele guina a ponta da piteira ora para a direita ora para a esquerda. Assim, desvia a embarcação de todos os obstáculos. As pequenas ossadas são perigosos monstros marinhos, dos quais o garoto se desvencilha astuciosamente.

E se um polvo enorme o abraçar com tentáculos mortais, como viu certa vez na capa de Vinte mil léguas submarinas? Se aqueles marinheiros criam no monstro, por que ele não pode também acreditar? Se for atacado, não terá problemas! Os espinhos da piteira serão seu livramento. O grande molusco perderá seu tempo, pois, no contato com os espinhos, haverá de afastar-se amedrontado e com dor.

O trajeto pelo qual desce o menino não é tão longo. Porém na infância tudo é imenso. Um mata-burro que se atravessa é uma ponte desmedida, ligando até mesmo mundos distantes e distintos, galáxias diferentes. Enquanto singra os mares de um Júlio Verne, eis que a folha de piteira se choca com uma pedra, e o garoto é arremessado nas águas, ou melhor, na terra.

Vai rolando entre poeira e medo, folhas secas, papéis descartados, terra dura e pedras intratáveis. Quando definitivamente para, seu pé direito bate-se contra uma pedra. E a dor é maior do que o medo. É terrível, contudo ainda é a garantia de que está vivo. Chora o menino, e só consegue voltar para casa amparado nos braços dos amigos.

A mãe pensa em gritar, puxar-lhe a orelha. Mas a compaixão aplaina o furor. Os cuidados requerem a primazia. Se não há remédio para as capetices de uma criança saudável, há que se buscar a cura para o pé torcido, inchado e vermelho.

A vizinha Trindade chega bisbilhoteiramente no quarto em que depositaram o acidentado. Ela vem com bafo de pito de palha, afora dois outros pitos atrás de suas grandes orelhas, um em cada uma. Chega calma, como se na vida tudo acontecesse em câmara lenta. Olha com seus olhos grandes para o menino e receita para a mãe: emplastro de minhoca frita com alho roxo.

À revelia dos enjoos e das caretas do filho, a mãe segue o conselho, amarrando-lhe no tornozelo o pano cheio da gosma fedorenta. Nem sobra no pensamento do menino espaço para ter pena das minhocas, tamanha a náusea que o aflige.

Choramingando, o audaz navegante vai adormecendo. Vai caindo no sono à medida que a dor some. E sonha. Imagina coisas que não sabe e que ainda lerá um dia: Brás Cubas quis ficar afamado com a invenção de um emplastro miraculoso e nunca produzido. Já a mãe do menino e Dona Trindade fazem bizarros emplastros, vivem sem nunca pensar na fama e nem por isso deixam de ser famosas. Famosas pelas mãos que agora as escrevem.