A boa morte
13 de Junho de 2009, por Evaldo Balbino 1
Os velórios são ainda, nas pequenas cidades, uma coisa muito fina, de uma finura mesmo. E isso porque vamos encontrar neles certa alegria. Uma alegria triste, é verdade. Mas aí até mesmo a tristeza busca vestimentas que nos conformam a todos. Com roupas sóbrias, a tristeza permite-se outras vestes. Tecidos mais soltos, cores de uma suavidade tendendo às vezes a aberrações sutis, enfeitam os escuros que perpassam os cômodos das casas onde o corpo é velado e vela a todos.
Isso mesmo! Os velórios, em muitas cidades dos interiores, ainda acontecem nas casas que nós todos habitamos. E que não venham afirmar tratar-se essa circunstância de um modo lúgubre de viver e de morrer. Não! Com acenos de uma austera melancolia, mas com sorrisos nos lábios, a vida palpita em cada canto, em cada cômodo da casa em cuja porta a morte bateu.
Nada de lamúrias que não sejam normais. Chorar faz parte da vida, e sem as lágrimas não nos banhamos. Afinal, é-nos difícil ver de outro modo o que desde tempos imemoriais começamos a sentir. Não é fácil apagar aqueles momentos inscritos outrora, nos quais começamos, ao enterrar nossos mortos, a tentar enterrar tudo o que nos dava medo.
Sem ceder aqui a posturas melodiosas e melosas, podemos sim acreditar nas sonatas da vida e em tudo o que dela faz parte inexoravelmente. Se “estamos morrendo” desde que nascemos, se nossas peles se vincam com o passar dos anos, se os cabelos embranquecem e os passos vão se tornando mais trôpegos por ruas e travessas, não devemos ler nisso um caminho para o fim. O que devemos é dar graças a Deus porque em nós muita vida ainda palpita. A pele, o cabelo e os pés estão insistentes em nós, dizendo que o tempo passa e que estamos todos caminhando pela travessia de uma vida interminada.
Para que se confirme o que estou afirmando, basta que voltemos às cenas dos velórios, dos velórios de que eu falava.
Em cada canto um episódio, uma conversa, uns olhares, alguns desejos, fofocas amenas, preocupações pelo café a ser servido, busca de pães para o alimento da madrugada. Não faltam apreensões pelos parentes que ainda não chegaram, pelo filho que mora distante e que, mesmo tendo sido avisado em tempo hábil, ainda não chegou. Busca de camas restantes, já sumidas sob corpos dormindo um sono tranquilo ou não, pois alguns insistem em roncar, asseverando que até mesmo no sono continuam por uma existência teimosa. E onde colocar o filho que dorme no colo, a garotinha que está também com sono e que não foi perguntada se queria participar desse cenário, mas que no fundo também desejou estar no mesmo? E sem falar dos que não choram, daqueles que não são parentes do falecido ou da falecida, mas que nesses momentos se deixam molhar por sentimentos de pêsames pronunciados em rituais. E as piadas, os casos engraçados que nos contam, geralmente nos quartos ou na cozinha? Porque aí as bocas podem dar mais vazão a uma alegria de viver que deve, entretanto, lembrar-se a cada instante de uma inevitável tristeza e de um necessário comedimento.
Essas piadas e esses casos não poderiam faltar deveras. Sem eles, os velórios não seriam os mesmos. Pejados de austeridade, tais rituais nos levariam toda vontade de vida, como se se reduzem a uma constatação só: a de que tudo o que fazemos e sonhamos é apenas um ato de escavação na insolvência. E como essas piadas ficam mais saborosas, porque degustadas com café pela madrugada! Já ouvi os que defendem, para esses casos, o uso de uma cachacinha, para esquentar a noite e a prosa. Eu, de minha parte, confesso que prefiro uma cafeína bem amarga e lúcida, umas doses do café me ensinando que a vida, apesar de tudo e por isso mesmo, é bem doce, de uma doçura impenetrável como pedra, aparentemente indócil, mas toda porosa.
Recordo certa madrugada em que, saindo eu da sala onde velavam o corpo de uma senhora, ali aparentemente silenciada nesta vida, deparei-me com sua filha que, momentos atrás, chorava ao lado da mãe. Onde fui encontrá-la? No seu café, sentada à mesa da cozinha. E como ria, com dentes alegres mostrando-se, contando e ouvindo piadas! Seus braços de um nervosismo cheio de vida não se continham, falando sem palavras de um desejo pleno de algo que não se perdera, de uma vida latejando pelas veias. Num comentário a esse episódio, no dia seguinte, me veio um senhor a constatar sobre o papelão que aquela mulher representara, o desrespeito que ela manifestara em relação à própria mãe. Ora, mesmo não comendo um saco de sal com as duas mulheres, mãe e filha, não sabendo de suas relações que, segundo constava, eram das melhores, pude sair numa pronta defesa, se não das envolvidas no enredo, pelo menos da vida e (por que não?) da morte. Argumentei que nos atos da filha a mãe ainda vivia. Não fui entendido no que afirmei. Mas creio ter colocado em suspensão o meu interlocutor que, entre dúvida e reprovação, resolveu deixar em paz, pelo menos naquele instante, a duas vidas de que falávamos.
Sempre gosto de dizer que a morte é, algumas vezes, nossa comadre. E sei que muitos não me compreendem, vendo nesta assertiva uma postura mórbida de quem a pronuncia. De morbidez nada tenho, graças a Deus! Já perdi alguns dos meus, de modos tristes e necessários, mas nem por isso me contento com a simples anuência de que a vida continua. É que, simplesmente, a vida nos convida a várias danças, as quais se passam em vários chãos, sombreados ou não. E sei que a própria morte, nos momentos imperiosos, se cobre de véus, tênues, velando-se e se revelando, mas nos ajudando a todos na sutil festa de celebrar a vida, mesmo sob as caras contritas.
Isso mesmo! Os velórios, em muitas cidades dos interiores, ainda acontecem nas casas que nós todos habitamos. E que não venham afirmar tratar-se essa circunstância de um modo lúgubre de viver e de morrer. Não! Com acenos de uma austera melancolia, mas com sorrisos nos lábios, a vida palpita em cada canto, em cada cômodo da casa em cuja porta a morte bateu.
Nada de lamúrias que não sejam normais. Chorar faz parte da vida, e sem as lágrimas não nos banhamos. Afinal, é-nos difícil ver de outro modo o que desde tempos imemoriais começamos a sentir. Não é fácil apagar aqueles momentos inscritos outrora, nos quais começamos, ao enterrar nossos mortos, a tentar enterrar tudo o que nos dava medo.
Sem ceder aqui a posturas melodiosas e melosas, podemos sim acreditar nas sonatas da vida e em tudo o que dela faz parte inexoravelmente. Se “estamos morrendo” desde que nascemos, se nossas peles se vincam com o passar dos anos, se os cabelos embranquecem e os passos vão se tornando mais trôpegos por ruas e travessas, não devemos ler nisso um caminho para o fim. O que devemos é dar graças a Deus porque em nós muita vida ainda palpita. A pele, o cabelo e os pés estão insistentes em nós, dizendo que o tempo passa e que estamos todos caminhando pela travessia de uma vida interminada.
Para que se confirme o que estou afirmando, basta que voltemos às cenas dos velórios, dos velórios de que eu falava.
Em cada canto um episódio, uma conversa, uns olhares, alguns desejos, fofocas amenas, preocupações pelo café a ser servido, busca de pães para o alimento da madrugada. Não faltam apreensões pelos parentes que ainda não chegaram, pelo filho que mora distante e que, mesmo tendo sido avisado em tempo hábil, ainda não chegou. Busca de camas restantes, já sumidas sob corpos dormindo um sono tranquilo ou não, pois alguns insistem em roncar, asseverando que até mesmo no sono continuam por uma existência teimosa. E onde colocar o filho que dorme no colo, a garotinha que está também com sono e que não foi perguntada se queria participar desse cenário, mas que no fundo também desejou estar no mesmo? E sem falar dos que não choram, daqueles que não são parentes do falecido ou da falecida, mas que nesses momentos se deixam molhar por sentimentos de pêsames pronunciados em rituais. E as piadas, os casos engraçados que nos contam, geralmente nos quartos ou na cozinha? Porque aí as bocas podem dar mais vazão a uma alegria de viver que deve, entretanto, lembrar-se a cada instante de uma inevitável tristeza e de um necessário comedimento.
Essas piadas e esses casos não poderiam faltar deveras. Sem eles, os velórios não seriam os mesmos. Pejados de austeridade, tais rituais nos levariam toda vontade de vida, como se se reduzem a uma constatação só: a de que tudo o que fazemos e sonhamos é apenas um ato de escavação na insolvência. E como essas piadas ficam mais saborosas, porque degustadas com café pela madrugada! Já ouvi os que defendem, para esses casos, o uso de uma cachacinha, para esquentar a noite e a prosa. Eu, de minha parte, confesso que prefiro uma cafeína bem amarga e lúcida, umas doses do café me ensinando que a vida, apesar de tudo e por isso mesmo, é bem doce, de uma doçura impenetrável como pedra, aparentemente indócil, mas toda porosa.
Recordo certa madrugada em que, saindo eu da sala onde velavam o corpo de uma senhora, ali aparentemente silenciada nesta vida, deparei-me com sua filha que, momentos atrás, chorava ao lado da mãe. Onde fui encontrá-la? No seu café, sentada à mesa da cozinha. E como ria, com dentes alegres mostrando-se, contando e ouvindo piadas! Seus braços de um nervosismo cheio de vida não se continham, falando sem palavras de um desejo pleno de algo que não se perdera, de uma vida latejando pelas veias. Num comentário a esse episódio, no dia seguinte, me veio um senhor a constatar sobre o papelão que aquela mulher representara, o desrespeito que ela manifestara em relação à própria mãe. Ora, mesmo não comendo um saco de sal com as duas mulheres, mãe e filha, não sabendo de suas relações que, segundo constava, eram das melhores, pude sair numa pronta defesa, se não das envolvidas no enredo, pelo menos da vida e (por que não?) da morte. Argumentei que nos atos da filha a mãe ainda vivia. Não fui entendido no que afirmei. Mas creio ter colocado em suspensão o meu interlocutor que, entre dúvida e reprovação, resolveu deixar em paz, pelo menos naquele instante, a duas vidas de que falávamos.
Sempre gosto de dizer que a morte é, algumas vezes, nossa comadre. E sei que muitos não me compreendem, vendo nesta assertiva uma postura mórbida de quem a pronuncia. De morbidez nada tenho, graças a Deus! Já perdi alguns dos meus, de modos tristes e necessários, mas nem por isso me contento com a simples anuência de que a vida continua. É que, simplesmente, a vida nos convida a várias danças, as quais se passam em vários chãos, sombreados ou não. E sei que a própria morte, nos momentos imperiosos, se cobre de véus, tênues, velando-se e se revelando, mas nos ajudando a todos na sutil festa de celebrar a vida, mesmo sob as caras contritas.
Ode a uma pequena cidade
16 de Maio de 2009, por Evaldo Balbino 0
Sim. Amamos as cidades. Contanto que elas já tenham nos habitado um dia ou durante certa época. Amo o que vejo uma vez, em presença ou numa figura de livro ou num cartão postal. Mas amo muito mais, evidentemente, aquilo ou aqueles que me ocuparam, que se entranharam no meu ser de tal modo, imprimindo-lhe as cicatrizes inapagáveis da vida. Tudo bem que algo apenas visto, mesmo que à distância, pode nos marcar muito. Mas o que se coloca em presença em nossas vidas acaba por delas fazer parte, inegavelmente. Quanto mais em se tratando dos lugares que habitamos, ou melhor, dos lugares que, por carregarem aos nossos olhos tantos significados, acabaram por nos habitar. Se não concordam comigo, leiam, por favor, o maravilhoso A poética do espaço de Gaston Bachelard.
Mas de que amor se pode dizer, se há tantos modos de amar? Irremediavelmente não posso fugir ao senso comum, tão criticado injustamente muitas vezes, segundo o qual amor e ódio andam juntos. Assim, dizer que amo é o mesmo que afirmar ‘eu odeio’. Para além de binarismos, o que me move nos significados que construo é um trânsito entre o aqui e o lá, entre o ser e o não ser, entre o medo e a coragem, entre o amor e o ódio. Sempre assim, dividido, é que nunca pude compartimentar tão geometricamente as coisas da vida. Por exemplo: desde há muito tempo sou tentado a confundir as palavras ‘ode’ e ‘ódio’.
O primeiro culpado por essa confusão, na minha vida de leitor, foi o Andrade, o nosso Mário de Andrade. Ao ler sua ‘Ode ao burguês’, pude ver, para meu espanto, que uma composição lírica, sempre de tom alegre e entusiástico, pode ficar apenas no referido entusiasmo, banindo de si qualquer alegria. O ódio de Mário é contra o burguês, um ódio entusiasmado pelo ‘burguês-níquel’. Se, na base grega, estar entusiasmado é ter deus dentro de si, então Mário encheu-se de deus não para louvar com alegria, mas para destruir freneticamente a burguesia que ele desejava aviltar.
A segunda culpada das ambiguidades nas minhas leituras dessas duas palavras, ode e ódio, é a proximidade fônica e mórfica entre elas. Se de início me preocupava esse devaneio verbal, posteriormente meu estado de preocupação serenou-se: fui percebendo, aos poucos, que tudo era o modo que eu tinha de ler as coisas no meu entorno e, principalmente, os lugares por que passei, que olhei, de que me enamorei enternecidamente. E sempre o enternecimento misturou-se, não a uma ojeriza, mas a um tipo amainado de ódio, uma suposta indiferença, um silenciamento, um modo oblíquo de relacionar-me com cada lugar que morava em mim.
Ode e ódio se confundem, pois, em toda a minha vida. Não uma ode extrema nem um ódio puro, mas um misto de tudo na avalanche dos sentimentos confusos que sempre também me habitaram e me habitam.
Assim a casa em que nasci, as camas sob as quais me escondia quando criança, os debaixos das colchas de retalho que me protegiam de fantasmas, os entre-lugares das árvores, nos quais eu podia cometer meus atos tão normais, mas tão clandestinos aos olhos do mundo. Assim a pequena cidade, para a qual me mudei ainda criança – vila, diziam os mais velhos – e que me tornou esta criança eterna, sempre brincando em suas ruas, na Rua do Rosário, no pasto do Chicão, na Rua Sete, na Lagoa do Lalado, entre os eucaliptos que levavam à casa da Dinha. Sem falar nas lajes, nas conhecidas lajes, famosas, mas também difamadas por línguas que não aceitavam terem aquelas pedras se tornado motéis ao ar livre, ou melhor, ‘pedréis’ para namoros afoitos ou não. E à margem desses namoros, eu, que só comentários sobre eles ouvia, ficava ali nas lajes treinando outros tipos de erotismo: enamorando-me dos ocasos extremosos, daqueles jorros seculares do sol atrás das planícies distantes e tão próximas de mim, com seus apelos e trejeitos femininos de matar.
Em muitos momentos, os de existência mais pública nos palcos de terra, calçados ou cimentados da cidade, meus pés caminhavam medrosamente. Com passadas largas, nervosas, eles iam entre casas com janelas que me olhavam. Janelas de madeira, coloridas, umas meio coloniais, outras mais toscas, com simplicidade disfarçada, umas com vidro, outras não – mas todas eram escancaradas no seu modo olheiro de existir. Essas janelas foram o modo de eu me perceber na vista de todos. E como me preocupavam aqueles olhares, aquela modorra, aquele não existir outro algo para se fazer! Molestava-me a sensação de ser eu um motivo, o único nos momentos em que por ali passava, para ocupar o tempo desse ser vivo que, parece, nasceu para sempre olhar, olhar e olhar.
Já que estou falando desses amores, desses oblíquos amores e dessas oblíquas miradas, lembro aqui o conhecido verso ‘Eta vida besta, meu Deus’ do nosso Carlos Drummond de Andrade. Verso em que o poeta satiriza a vida vagarosa e olheira da Itabira do passado. Mas basta lermos outros poemas e contos e crônicas e livros do mesmo autor, como o memorioso Menino antigo, para verificarmos o quanto restou dessa mesma cidade no mineiro que, mesmo indo para o Rio, não deixou de lado sua mineiridade. E hoje, se não escrevo estas linhas situado realmente entre bananeiras, laranjeiras, homens, cachorros, burros e janelas – todos esses seres que vão e olham devagar –, sentimentalmente estou ali, nas ruas de Resende Costa. Estou ali fazendo poemas e brincando de amar e de odiar. Estou ali sempre dizendo, no meu canto sem fim, ‘pomar amor cantar’.
Mas de que amor se pode dizer, se há tantos modos de amar? Irremediavelmente não posso fugir ao senso comum, tão criticado injustamente muitas vezes, segundo o qual amor e ódio andam juntos. Assim, dizer que amo é o mesmo que afirmar ‘eu odeio’. Para além de binarismos, o que me move nos significados que construo é um trânsito entre o aqui e o lá, entre o ser e o não ser, entre o medo e a coragem, entre o amor e o ódio. Sempre assim, dividido, é que nunca pude compartimentar tão geometricamente as coisas da vida. Por exemplo: desde há muito tempo sou tentado a confundir as palavras ‘ode’ e ‘ódio’.
O primeiro culpado por essa confusão, na minha vida de leitor, foi o Andrade, o nosso Mário de Andrade. Ao ler sua ‘Ode ao burguês’, pude ver, para meu espanto, que uma composição lírica, sempre de tom alegre e entusiástico, pode ficar apenas no referido entusiasmo, banindo de si qualquer alegria. O ódio de Mário é contra o burguês, um ódio entusiasmado pelo ‘burguês-níquel’. Se, na base grega, estar entusiasmado é ter deus dentro de si, então Mário encheu-se de deus não para louvar com alegria, mas para destruir freneticamente a burguesia que ele desejava aviltar.
A segunda culpada das ambiguidades nas minhas leituras dessas duas palavras, ode e ódio, é a proximidade fônica e mórfica entre elas. Se de início me preocupava esse devaneio verbal, posteriormente meu estado de preocupação serenou-se: fui percebendo, aos poucos, que tudo era o modo que eu tinha de ler as coisas no meu entorno e, principalmente, os lugares por que passei, que olhei, de que me enamorei enternecidamente. E sempre o enternecimento misturou-se, não a uma ojeriza, mas a um tipo amainado de ódio, uma suposta indiferença, um silenciamento, um modo oblíquo de relacionar-me com cada lugar que morava em mim.
Ode e ódio se confundem, pois, em toda a minha vida. Não uma ode extrema nem um ódio puro, mas um misto de tudo na avalanche dos sentimentos confusos que sempre também me habitaram e me habitam.
Assim a casa em que nasci, as camas sob as quais me escondia quando criança, os debaixos das colchas de retalho que me protegiam de fantasmas, os entre-lugares das árvores, nos quais eu podia cometer meus atos tão normais, mas tão clandestinos aos olhos do mundo. Assim a pequena cidade, para a qual me mudei ainda criança – vila, diziam os mais velhos – e que me tornou esta criança eterna, sempre brincando em suas ruas, na Rua do Rosário, no pasto do Chicão, na Rua Sete, na Lagoa do Lalado, entre os eucaliptos que levavam à casa da Dinha. Sem falar nas lajes, nas conhecidas lajes, famosas, mas também difamadas por línguas que não aceitavam terem aquelas pedras se tornado motéis ao ar livre, ou melhor, ‘pedréis’ para namoros afoitos ou não. E à margem desses namoros, eu, que só comentários sobre eles ouvia, ficava ali nas lajes treinando outros tipos de erotismo: enamorando-me dos ocasos extremosos, daqueles jorros seculares do sol atrás das planícies distantes e tão próximas de mim, com seus apelos e trejeitos femininos de matar.
Em muitos momentos, os de existência mais pública nos palcos de terra, calçados ou cimentados da cidade, meus pés caminhavam medrosamente. Com passadas largas, nervosas, eles iam entre casas com janelas que me olhavam. Janelas de madeira, coloridas, umas meio coloniais, outras mais toscas, com simplicidade disfarçada, umas com vidro, outras não – mas todas eram escancaradas no seu modo olheiro de existir. Essas janelas foram o modo de eu me perceber na vista de todos. E como me preocupavam aqueles olhares, aquela modorra, aquele não existir outro algo para se fazer! Molestava-me a sensação de ser eu um motivo, o único nos momentos em que por ali passava, para ocupar o tempo desse ser vivo que, parece, nasceu para sempre olhar, olhar e olhar.
Já que estou falando desses amores, desses oblíquos amores e dessas oblíquas miradas, lembro aqui o conhecido verso ‘Eta vida besta, meu Deus’ do nosso Carlos Drummond de Andrade. Verso em que o poeta satiriza a vida vagarosa e olheira da Itabira do passado. Mas basta lermos outros poemas e contos e crônicas e livros do mesmo autor, como o memorioso Menino antigo, para verificarmos o quanto restou dessa mesma cidade no mineiro que, mesmo indo para o Rio, não deixou de lado sua mineiridade. E hoje, se não escrevo estas linhas situado realmente entre bananeiras, laranjeiras, homens, cachorros, burros e janelas – todos esses seres que vão e olham devagar –, sentimentalmente estou ali, nas ruas de Resende Costa. Estou ali fazendo poemas e brincando de amar e de odiar. Estou ali sempre dizendo, no meu canto sem fim, ‘pomar amor cantar’.