À venda a Torre da Lagariça da obra do escritor Eça de Queirós, em Resende, Portugal

Texto atualizado em 24 de setembro.


Economia

José Venâncio de Resende0

A famosa Torre da Lagariça em Resende (Foto Ideal).

A Torre da Lagariça - imortalizada no livro “A Ilustre Casa de Ramires”, uma das mais conhecidas obras de Eça de Queirós -, está à venda. A Torre da Lagariça é a mesma Casa da Torre, localizada na Freguesia de São Cipriano, município de Resende, norte de Portugal. O livro A Ilustre Casa de Ramires é uma homenagem do escritor Eça de Queirós à terra natal de Emília de Castro Pamplona, com quem se casaria em 1886, e à sua família, também conhecida como a família dos condes de Resende.  

O negócio está a cargo do consultor imobiliário Antônio Trindade e sua equipe na Remax Pro, na cidade do Porto. “O investimento tem potencial para o visto gold”, diz. Visto gold é uma autorização para entrada e residência em Portugal, atribuída a cidadãos não naturais da União Europeia ou residentes fora do Espaço Schengen a troco de um investimento financeiro vultoso (por exemplo, a aquisição de bens imóveis de valor igual ou superior a 500 mil euros).

A Torre da Lagariça é um dos dois imóveis do Concelho de Resende classificados como de “interesse público” pelo Decreto 129/77, da Presidência do Conselho de Ministros e Ministério da Educação e Investigação Científica de Portugal.

A Torre teria sido construída entre 1112 e 1128 (século 12) durante a regência de D. Teresa, portanto antes de Portugal. Inicialmente, teve função militar, de defesa da linha do Douro na época da reconquista cristã. Mas esta função perdeu significado com o estabelecimento das fronteiras mais a norte.*    

Em 1538, a Casa recebeu, das mãos de El-Rei D. João III, o foral de Capitania-Mor de Arêgos. Nesse mesmo século 16, seria adquirida pela família Pinto, senhores da Torre da Chã e do Paço de Covelas. Em 1610, a Torre medieval foi vendida à família Cochofel. 

Técnico x literário

No início do século 17, a Torre seria adaptada para habitação senhorial, mas se manteve a planimetria original e as feições das fachadas, que se destacam por reduzido número de fenestrações. Assim, foi edificado um corpo de planimetria em L em volta do núcleo principal. As fachadas do imóvel são marcadas pela disposição de portas e janelas, de molduras retangulares. Na fachada principal, foi construída uma varanda alpendrada no piso superior.  

O imóvel tem uma arquitetura militar românica/gótica, de acordo com o Inventário do Patrimônio Arquitetônico da Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. A Torre tem “planta quadrangular, simples e regular. De massas simples de tendência verticalista e cobertura homogênea de telhado de 4 águas”. A construção é considerada robusta; poucas fenestrações e em nível superior; frestas geminadas de arco apontado; e mata-cães. O material utilizado é granito e madeira.

O imóvel é enquadrado como “rural, a meia encosta e adossado parcialmente a habitação de quinta agrícola e separado por muro semi-circular, em zona de interesse paisagístico”.

A Casa é assim descrita, literariamente, por Eça de Queirós, em “A Ilustre Casa de Ramires”:

“A sala de jantar da Torre, que abria por três portas envidraçadas para uma funda varanda alpendrada, conservava, no tempo do avô Damião… dois formosos panos de Arrás representando a “Expedição dos Argonautas”. Louças da Índia e Japão, desirmanadas e preciosas, recheavam um imenso armário de mogno. E sobre o mármore dos aparadores rebrilhavam os restos, ainda ricos, das pratas famosas dos Ramires que o Bento constantemente areava e polia com amor… almoçava e jantava na varanda luminosa e fresca, bem esteirada, revestida até meio muro por finos azulejos do séc. XVIII, e oferecendo a um canto, para as preguiças do charuto, um profundo canapé de palhinha com almofadas de damasco.”

“Por baixo da Torre (como lhe contara o papa) ainda negrejava a masmorra feudal, meio atulhada, mas com restos de correntes chumbadas aos pilares, e na abóboda a argola donde pendia o polé, e no lajedo os buracos em que se escorava o potro. E, nessa surda e húmida cova, ovençal, bufarinheiro, clérigos e mesmo burgueses de foro uivavam sob o açoite ou no torniquete, até largarem, agonizado, o derradeiro morabitino. Ah! A romântica torre, cantada tão meigamente ao luar pelo Vieirinha, quantos tormentos abafara!...”

“E como o visconde aludia ao desejo, já nele antigo, de admirar de perto a famosa Torre, mais velha que Portugal – ambos desceram ao pomar. O visconde, com o guarda sol ao ombro, pasmou em silêncio para a Torre; reconheceu (apesar de liberal) o prestígio que resulta de uma tão alta linhagem como a dos Ramires…” 

Valor histórico

Quem comprar a Torre da Lagariça, estará adquirindo mais do que um imóvel, diz Antônio Trindade. A Casa tem um “valor intangível” (impossível de quantificar) que compreende valores como história, memória e literatura. A obra “A Ilustre Casa de Ramires”, de Eça de Queirós, é o melhor testemunho.

Por isso, o corretor imobiliário pretende inovar no processo de promoção da venda. “Vou organizar visitas de escolas e de pessoas que queiram conhecer o local e um pouco de história.”

Contatos com Antônio Trindade e sua equipe podem ser feitos pelo telefone (351) 963698423 ou pelo e-mail: atrindade@remax.pt.

*http://monumentosdesaparecidos.blogspot.com/2014/11/torre-da-lagarica-illustre-casa-de.html?m=0

LINK RELACIONADO:

Eça de Queirós na família Resende e Resende na obra de Eça - https://www.jornaldaslajes.com.br/integra/eca-de-queiros-na-familia-resende-e-resende-na-obra-de-eca/1459/

 

 

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