Ramon Coelho, o luthier-artesão


Perfil

José Venâncio de Resende0

O Luthier Ramon Coelho restaura e fabrica instrumentos de corda (Foto José Venâncio)

Quem chega à oficina de Ramon Coelho, no bairro Dom Bosco, logo se depara com uma dúvida: profissão, luthier ou artesão no ofício de restaurar e fabricar instrumentos de corda como violão, cavaquinho, viola caipira e bandolim? Uma pergunta que tem fácil resposta, basta ler o texto a seguir.

Encontrei Ramon lixando pecinhas minúsculas (1cm de altura x 6 cm de espessura x 7 cm de largura), dezenas delas. Pecinhas "feitas de cedro com a finalidade de aumentar a área de colagem entre a lateral e o fundo do violão". Trabalho manual repetitivo este de lixar peça por peça, principalmente as que vão nas laterais. "Normalmente, eu corto elas na serra de fita para andar mais rápido. Depois de lixadas, estão prontas para colar."

Cada violão gasta em média 140 a 280 dessas peças, conta Ramon. "Prefiro colar elas mais juntas para dar mais resistência."

Fã de Zé Geraldo

Ramon, 51 anos, são-joanense, é filho do resende-costense Wilton Geraldo Coelho e da pradense Verônica Florinda da Silva Coelho. E se tornou luthier meio que por acaso. “Sou fã do Zé Geraldo. Eu era a fim de aprender a tocar as músicas dele. Aí comecei a frequentar a casa do meu cunhado onde a galera ficava tocando violão e ouvindo essas músicas”.

Então, Ramon saiu à procura de um violão usado. “Ganhei um violão quebrado, todo furado, da irmã do dono da Funerária Resende, que na época era borracheiro. Eu arrumei o violão e achei que estava mais ou menos, mas o pessoal achou que ficou bom pra caramba.”

Fruto da busca anterior, várias pessoas começaram a procurar Ramon com violões usados pra vender. “Eu fui comprando e consertando. E até hoje eu não aprendi a tocar violão”.

Desde 1998, Ramon tem esta profissão que, no caso da restauração/reparo, aprendeu sozinho. Já a habilidade de fabricar instrumentos foi adquirida a partir de convite de José João do Nascimento, luthier formado no Rio de Janeiro com curso em Cremona, Itália. "Ele morava em Prados e era funcionário da UFSJ - então, FUNREI. Fui fazer um curso particular de restauração com ele. Então, ele me chamou para fazer o curso de construção de instrumentos de cordas na Funrei".

Mas Ramon não parou nesses cursos. "Estou sempre pesquisando na internet para melhorar ainda mais. No Brasil, não tem muita literatura. A gente vai mais na dedução, vê um serviço e vai tirando conclusão."

Restauração

A maior parte dos serviços de Ramon é de restauração/reparo de instrumentos. "Normalmente, a restauração é devido à quebra na queda, mas é comum, por exemplo, mulher quebrar o violão na cabeça do marido” (rsrsrs).

Há também os casos de escala, braço, lateral, tampo e cavalete que descolam. E ainda a troca de trastes (ferrinhos que estão no braço) e de verniz.

A restauração/reparo depende do tipo de serviço, diz Ramon. "Vai desde uma pestana/nut (separa as cordas perto das tarraxas) em algumas horas até um verniz de um violão inteiro (lixar e envernizar várias vezes até virar um vidro) que dura 15 a 20 dias. Colar e envernizar um braço, por exemplo, leva em torno de uma semana. Polir e colar um cavalete, dois a três dias."

Outro serviço requisitado é a retirada do trastejamento, que "é quando uma corda esbarra em dois trastes ao mesmo tempo, produzindo um som ´sujo´", explica Ramon. Já quando quebra o cavalete, a troca deve ser feita com madeira dura, para melhorar o som.

Mas muitas vezes é preciso fazer uma peça nova como cavalete, pestana ou rastilho – os dois últimos de osso. Ou então comprar tarraxa, corda, captador (para tornar o violão elétrico), roldanas (para colocar correias para pendurar o violão) e cordal (rabicho).

Ramon faz ainda regulagem de guitarra, além de troca de cordas e customização (trocar alguma peça ou fiação da parte elétrica).

Instrumento novo

A construção de um instrumento musical de cordas leva de 1,5 a 2 meses, em condições normais, estima Ramon. "Se estiver chovendo, por exemplo, leva-se mais tempo para envernizar - só para secar, são 12 horas em média".

O verniz é uma forma de proteção que "acaba embelezando, mas ele trava um pouco a vibração. O ideal seria não envernizar", observa Ramon.

Ramon aproveita as horas vagas para produzir um instrumento novo. Neste momento, ele está com um violão de nylon clássico (seis cordas) para venda. E está confeccionando um violão de sete cordas, também para venda.

Ramon recorda que, em 2012, estava fazendo uma viola caipira, quando apareceu na oficina o Max Lara, de Resende Costa, que se interessou pelo instrumento. “Ele gostou do acabamento em si – da marchetaria (incrustação de madeira dentro de madeira) na escala e no tampo e da roseta montada de pecinhas de madeira em forma de gotinhas”.

Ramon utiliza em geral jacarandá mineiro ou baiano para a caixa, a lateral e o fundo, “mas estou querendo usar o loro preto na caixa”. O braço normalmente é de cedro (ou mogno); escala e cavalete são de jacarandá baiano ou ébano; e o tampo, em pinho alemão, cedro canadense, sítika ou abeto.

Na estrutura interna, Ramon costuma aproveitar o pinho alemão que se encontra na caixa de bacalhau – esta madeira é lavada para tirar o sal e fica secando até cinco anos.

Ramon costuma comprar a roseta, mas ultimamente decidiu produzi-la “em casa”. “Eu agora estou fazendo as minhas. Se você está pagando para ter um violão bom, com uma roseta diferente você vai ter um violão exclusivo.” A roseta pode ser feita de retalho de madeira com pecinhas de acrílico ou abalone (espécie de concha).

Clientes

Ramon tem clientes na região inteira, embora a maior parte seja de São João del-Rei. Mas ele costuma receber gente de Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Juiz de Fora e outras capitais e cidades do país. “Tenho duas violas em Curitiba e um violão em São Paulo, um em Formiga, outro em Lavras”.

Além de músicos de bandas e duplas, entre os clientes de Ramon encontram-se universitários, alunos de conservatório, donos de boteco, pessoal de igreja e de barzinho. O último violão que ele vendeu foi para uma pessoa de São João del-Rei e ficou pronto em 30 de março. “Foi a mesma pessoa que me encomendou um violão de sete cordas”.

Mas o seu movimento não tem escapado da crise política e econômica pela qual passa o país. Há dois anos, Ramon entregou 355 instrumentos restaurados/regulados. Em 2016, este número caiu para 294 instrumentos. Este ano, até 16 de maio, entregou 100 instrumentos.

Sem falar das pessoas que deixam instrumentos para restaurar/reparar e não buscam no prazo combinado. “Uma pessoa pediu para restaurar um violão tem mais de um ano e não vem pegar. Dois meses, três meses... acontece direto de o dono do instrumento não pegar.”

Ramon concilia a sua atividade de luthier com a “Pousada Ramon”, “onde conto com a ajuda dos meus pais”.

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Facebook: https://www.facebook.com/RamonLutheria/

 

 

 

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