Inesquecível
12 de Abril de 2010, por José Antônio 0
Linda! Era fantasticamente linda a garota.
Colírio para os meus sonhos e música para os meus olhos. Morava (ainda mora) em Resende Costa, ali perto do... ou melhor, vizinha daquele primo da... Perdi o nome.
Mas do nome da garota linda eu me lembro. Está aqui dentro de mim, tão arraigado nas minhas lembranças que não consegue mais sair e pular para o papel. Por isso não está escrito aqui.
Eu começava no Assis Resende em 1986. Aos poucos, fui percebendo que dois olhos femininos se alegravam com a minha chegada e se entristeciam com as minhas constantes idas. Alegria sincera, sincera ao ponto de extravasar dos olhos e se derramar nos lábios, em forma de sorriso colorido de batom. Tristeza cálida, que chegava a derreter suas pupilas esgazeadas em dois filetes de pranto baixinho.
Aquilo não podia continuar assim. Ou eu ia ou eu ficava. O problema é que ninguém fica. Não existe primeira vez, tudo é última vez. As coisas já começam pra acabar. Se eu não podia ficar, que pelo menos ela fosse comigo. E imaginava viagens intermináveis nas paisagens da minha aventura.
Passei a gostar mais de mim quando minha imagem aparecia no espelho. Minhas manhãs me despertavam ao toque do entusiasmo e eu contava as horas para pegar o ônibus de Resende Costa. As lajes pareciam cada vez mais belas e as viagens não cansavam nunca. Resolvi investir na minha fachada: comprei sapatos novos, um relógio bem bacana e uma roupa cara, confesso, mas que era bonita era. E mandei ver.
Quando entrei no ônibus, teve gente que até me pediu a bênção, de tão chique eu estava. Era apenas um dia de semana comum e eu ali enfeitado, destoando dos demais, todos vestindo dignamente a roupa própria de uma terça-feira à tarde. Quando o Isaías chegou pra tirar a minha passagem, fuzilou:
– Vai casar hoje, Nêgo? – Isaías chamava todo mundo de Nêgo.
A coisa piorou quando o Mário, assentado ao meu lado, disse que eu estava voltando de um exame de fezes... e que tinha sido reprovado. Gargalhada geral. Mico particular.
Desci em frente à casa da Maria Melo e fui para a escola. Dei as minhas aulas pensando nela, na minha musa das Lajes, que sempre ficava à janela quando eu voltava do colégio. Deu dez e meia e deixei todo mundo pra trás. Mascarado como um Zorro apavorado, entrei na passarela do meu desfile: a rua da garota bonita.
Ela estava lá, em frente a casa, dentro de um Scort novinho (desde esse dia, passei a ter sérias implicâncias com Scort). Passei justamente no momento em que ela... deixa pra lá, é chato ficar falando que ela estava beijando outro.
Engoli uma coisa difícil de descer. Típico príncipe desencantado, terminei o meu desfile. No meu bloco, eu era o destaque de mim mesmo. Olhei as horas no meu relógio bacana: quase meia-noite. Minha roupa perdeu o encanto e apressei o passo com os meus sapatos novos, que não eram de cristal. Nada fica, tudo se vai...
Ou melhor, alguma coisa ficou: as prestações que continuei pagando pelo investimento na minha nova fachada. Inesquecível.
Colírio para os meus sonhos e música para os meus olhos. Morava (ainda mora) em Resende Costa, ali perto do... ou melhor, vizinha daquele primo da... Perdi o nome.
Mas do nome da garota linda eu me lembro. Está aqui dentro de mim, tão arraigado nas minhas lembranças que não consegue mais sair e pular para o papel. Por isso não está escrito aqui.
Eu começava no Assis Resende em 1986. Aos poucos, fui percebendo que dois olhos femininos se alegravam com a minha chegada e se entristeciam com as minhas constantes idas. Alegria sincera, sincera ao ponto de extravasar dos olhos e se derramar nos lábios, em forma de sorriso colorido de batom. Tristeza cálida, que chegava a derreter suas pupilas esgazeadas em dois filetes de pranto baixinho.
Aquilo não podia continuar assim. Ou eu ia ou eu ficava. O problema é que ninguém fica. Não existe primeira vez, tudo é última vez. As coisas já começam pra acabar. Se eu não podia ficar, que pelo menos ela fosse comigo. E imaginava viagens intermináveis nas paisagens da minha aventura.
Passei a gostar mais de mim quando minha imagem aparecia no espelho. Minhas manhãs me despertavam ao toque do entusiasmo e eu contava as horas para pegar o ônibus de Resende Costa. As lajes pareciam cada vez mais belas e as viagens não cansavam nunca. Resolvi investir na minha fachada: comprei sapatos novos, um relógio bem bacana e uma roupa cara, confesso, mas que era bonita era. E mandei ver.
Quando entrei no ônibus, teve gente que até me pediu a bênção, de tão chique eu estava. Era apenas um dia de semana comum e eu ali enfeitado, destoando dos demais, todos vestindo dignamente a roupa própria de uma terça-feira à tarde. Quando o Isaías chegou pra tirar a minha passagem, fuzilou:
– Vai casar hoje, Nêgo? – Isaías chamava todo mundo de Nêgo.
A coisa piorou quando o Mário, assentado ao meu lado, disse que eu estava voltando de um exame de fezes... e que tinha sido reprovado. Gargalhada geral. Mico particular.
Desci em frente à casa da Maria Melo e fui para a escola. Dei as minhas aulas pensando nela, na minha musa das Lajes, que sempre ficava à janela quando eu voltava do colégio. Deu dez e meia e deixei todo mundo pra trás. Mascarado como um Zorro apavorado, entrei na passarela do meu desfile: a rua da garota bonita.
Ela estava lá, em frente a casa, dentro de um Scort novinho (desde esse dia, passei a ter sérias implicâncias com Scort). Passei justamente no momento em que ela... deixa pra lá, é chato ficar falando que ela estava beijando outro.
Engoli uma coisa difícil de descer. Típico príncipe desencantado, terminei o meu desfile. No meu bloco, eu era o destaque de mim mesmo. Olhei as horas no meu relógio bacana: quase meia-noite. Minha roupa perdeu o encanto e apressei o passo com os meus sapatos novos, que não eram de cristal. Nada fica, tudo se vai...
Ou melhor, alguma coisa ficou: as prestações que continuei pagando pelo investimento na minha nova fachada. Inesquecível.
Luz misteriosa
14 de Marco de 2010, por José Antônio 1
Não acredito em assombrações, mas sou cismado com esse troço. Nunca me apareceu ninguém arrastando correntes nem alma penada zanzando pelo cemitério. Vozes? Vozes do além, gritos do aquém, sussurros de ninguém. Jamais ouvi essas coisas. Sou agnóstico quanto a fantasmas, por isso eles não me dão muita bola.
O que um assombração faria à minha frente? Aparecer? Tem tanta gente aparecida nesse mundo e que dá medo. Ameaçar? Há tanta ameaça concreta no dia a dia. Matar? É tanta gente que não é fantasma e que mata. Se o assombração aparecer pra mim, me ameaçar e me matar, o que tem de mais nisso? Os vivos já vêm fazendo essas coisas bem antes desses seres tenebrosos existirem. Aparecer para fazer o que todo mundo está cansado de ver? Acho que os assombrações têm mais o que fazer do que ficar dando show de deja-vù.
Meu pai sempre me dizia de uma luz que de vez em quando aparecia em Resende Costa. Uma luz estranha, movia-se no ar e não tocava o chão. Como todo assombração que se preze, aparecia para poucas pessoas ou mesmo para uma só. Assombrações não gostam de muitas testemunhas oculares.
Andei muito pelas ruas de Resende Costa de madrugada. E me vinha a lembrança da tal luz. Olhava para tudo o que era escuro e encarava a parada. Mas a luz nunca me apareceu. Curto-circuito do além, apagão no reino dos mortos.
Numa dessas madrugadas, porém, a luz quis dar uma piscadela pro meu lado. Subia eu ali perto da igreja do Rosário, eram quase duas da madrugada, a lua estava que desmaiando. De repente, as luzes da cidade se apagaram. Eu ali, totalmente sozinho, dando peitada nas trevas. Ouvi um chiado insistente, vindo lá do portão do adro da igreja. O chiado ia e vinha. Lá estava ela: a luz! Me encurralava.
Pensei em voltar, mas voltar pra onde? A luz viria a galope atrás de mim, num cavalo fosforescente. Parei meus passos. A luz lá. Era como meu pai me dissera: não tocava o chão. Era vermelha. Pequena, mas de um vermelho vivo. E o chiado dizendo coisas do além-túmulo, vozes que se misturavam, parecia que uma terrível música tentava se salvar de um sufoco, querendo acontecer...
O que era aquilo? Comecei a suar e as pernas já avisavam que iriam me faltar. Enchi os pulmões (é sempre bom ter uma reserva no caso de precisar gritar), estufei o peito e resolvi enfrentar. Caminhei em direção à luz.
Foi aí que eu me arrepiei: uma voz rouca veio de algum ponto do escuro:
– Tá enxergando alguma coisa, companheiro?
Parei estarrecido. A luz falava... e falava comigo.
– Que breu, hein?
Era o breu das trevas buscando contato. Balbuciei uma frase qualquer, tão qualquer que já se perdeu no escuro do esquecimento. A luz parou de falar. Silêncio. Aproximei-me e vi dois olhos mirando o meu rosto. Minha espinha virou picolé.
Era um bêbado. A voz rouca era dele. A luz vermelha era de seu rádio. O chiado era do aparelho. A respiração aliviada era... minha mesmo.
Um dia, numa conversa sobre assombração, o assunto da luz misteriosa em Resende Costa voltou. Fiquei quieto e não dei palpite algum. Já pensou se alguém fica sabendo que um assombração etílico me tremeu as pernas com um rádio estragado?
Non creo en fantasmas, pero que los hay... los hay.
O que um assombração faria à minha frente? Aparecer? Tem tanta gente aparecida nesse mundo e que dá medo. Ameaçar? Há tanta ameaça concreta no dia a dia. Matar? É tanta gente que não é fantasma e que mata. Se o assombração aparecer pra mim, me ameaçar e me matar, o que tem de mais nisso? Os vivos já vêm fazendo essas coisas bem antes desses seres tenebrosos existirem. Aparecer para fazer o que todo mundo está cansado de ver? Acho que os assombrações têm mais o que fazer do que ficar dando show de deja-vù.
Meu pai sempre me dizia de uma luz que de vez em quando aparecia em Resende Costa. Uma luz estranha, movia-se no ar e não tocava o chão. Como todo assombração que se preze, aparecia para poucas pessoas ou mesmo para uma só. Assombrações não gostam de muitas testemunhas oculares.
Andei muito pelas ruas de Resende Costa de madrugada. E me vinha a lembrança da tal luz. Olhava para tudo o que era escuro e encarava a parada. Mas a luz nunca me apareceu. Curto-circuito do além, apagão no reino dos mortos.
Numa dessas madrugadas, porém, a luz quis dar uma piscadela pro meu lado. Subia eu ali perto da igreja do Rosário, eram quase duas da madrugada, a lua estava que desmaiando. De repente, as luzes da cidade se apagaram. Eu ali, totalmente sozinho, dando peitada nas trevas. Ouvi um chiado insistente, vindo lá do portão do adro da igreja. O chiado ia e vinha. Lá estava ela: a luz! Me encurralava.
Pensei em voltar, mas voltar pra onde? A luz viria a galope atrás de mim, num cavalo fosforescente. Parei meus passos. A luz lá. Era como meu pai me dissera: não tocava o chão. Era vermelha. Pequena, mas de um vermelho vivo. E o chiado dizendo coisas do além-túmulo, vozes que se misturavam, parecia que uma terrível música tentava se salvar de um sufoco, querendo acontecer...
O que era aquilo? Comecei a suar e as pernas já avisavam que iriam me faltar. Enchi os pulmões (é sempre bom ter uma reserva no caso de precisar gritar), estufei o peito e resolvi enfrentar. Caminhei em direção à luz.
Foi aí que eu me arrepiei: uma voz rouca veio de algum ponto do escuro:
– Tá enxergando alguma coisa, companheiro?
Parei estarrecido. A luz falava... e falava comigo.
– Que breu, hein?
Era o breu das trevas buscando contato. Balbuciei uma frase qualquer, tão qualquer que já se perdeu no escuro do esquecimento. A luz parou de falar. Silêncio. Aproximei-me e vi dois olhos mirando o meu rosto. Minha espinha virou picolé.
Era um bêbado. A voz rouca era dele. A luz vermelha era de seu rádio. O chiado era do aparelho. A respiração aliviada era... minha mesmo.
Um dia, numa conversa sobre assombração, o assunto da luz misteriosa em Resende Costa voltou. Fiquei quieto e não dei palpite algum. Já pensou se alguém fica sabendo que um assombração etílico me tremeu as pernas com um rádio estragado?
Non creo en fantasmas, pero que los hay... los hay.
Pink and Blue
11 de Fevereiro de 2010, por José Antônio 0
Já pensou se as cores sumissem? Haveria vantagens e desvantagens. Jamais nos veríamos brancos de susto, pois a situação não iria ficar preta. Ninguém iria sonhar com um pote de ouro no fim do arco-íris: quem é que iria se animar a ver o que tem aos pés de um reflexo esmaecido e desmaiado em sua própria falta de graça?
Por outro lado, não ficaríamos vermelhos de raiva nem daríamos sorrisos amarelos. Jogador não seria expulso de campo nem ficaria pendurado por causa dos cartões amarelados.
Acho que para mim a ausência – mesmo que momentânea – das cores iria me ajudar. Logo que me mudei para Resende Costa, em 1986, para trabalhar no Assis Resende, tive que montar a minha infraestrutura domicilar. Travesseiro, lençol, cobertor, enfim, todas aquelas coisas. Faltava a fronha. Encontrei uma da minha cor preferida, o azul. Linda e repousante de se ver, prometia um bom repouso e sonhos coloridos. Levei a fronha e completei o meu humilde enxoval de professor inciante.
Ao encapar o travesseiro, minha espinha ficou gelada: a fronha tinha duas faces, uma azul e a outra cor de rosa. E o pior: como explicar essa esquizofrenia cromática para o Maguinho, o Marcos e o Mário?
Eu poderia deixar o lado azul para cima durante o dia. Não iria colar, pois mesmo com o lado azul para cima, o lado rosa se mostrava sutilmente. Jogar a fronha fora? Aí também não. Eu nem tinha recebido o meu primeiro salário e já estava botando no lixo coisas que eu ainda nem tinha começado a pagar.
Fui para a escola com a minha consciência perturbada pelo conflito de duas cores que não cediam o espaço para o branco da minha paz. Dei a primeira aula em azul, a segunda em rosa, a terceira numa mistura violeta das duas e as últimas pulando de uma para outra cor. No fim da noite, corri para casa a fim de chegar antes dos meus companheiros. O negócio era esconder a fronha.
Quando virei o beco, a casa já estava acesa: eles chegaram primeiro. Escutei vozes e fiquei por um tempinho do lado de fora ouvindo o que diziam. A fronha não fazia parte dos assuntos. Entrei e fui para o quarto, onde todos tagarelavam. Juntei-me aos meus amigos e escorreguei os meus olhos para a minha cama. O Maguinho estava assentado nela e tinha colocado seus livros, caixa de giz e apostilas sobre o meu travesseiro. Comecei a suar.
A conversa rolou e eu sem desgrudar os olhos da minha fatídica fronha comprometedora. O assunto descambou para piadas, gozações e, de repente, começou uma guerra de travesseiros. A coisa pedia uma intervenção radical de minha parte. Pulei no meio do quarto e gritei:
- Guerra de travesseiro não!
Nem acabei de clamar e veio uma cacetada macia na minha cabeça. Era o Mário empunhando o seu travesseiro... de fronha branca, como todas as fronhas dos demais. Só a minha fronha era azul e rosa, azul por cima e rosa por baixo. Uma teteia.
- O Zé tá nervoso, gente. Pega o seu travesseiro e vamos pra batalha. – instigou o Mário, pegando o meu travesseiro e jogando-o para mim.
Aí não teve jeito mais. Os olhos deles se arregalaram (os do Mário eram os mais arregalados). Depois do susto, todos caíram de pancada em cima de mim, empunhando os seus travesseiros brancos, fazendo piadas, rindo e pedindo explicações. Quando terminaram a saraivada, contei que não vi que a tal da fronha tinha um lado rosa.
Sabe aquela marchinha: Maria Sapatão, Sapatão, Sapatão. / De dia é Maria, de noite é João. Pois é, quiseram cantar essa marchinha pra mim, só que ao contrário, buscando rimas para as cores. Tive que aguentar calado e humilhado. Ainda bem que a sinfonia não foi pra frente. Como eu era professor de inglês, contentaram-se em me chamar por umas semanas de “Pink and Blue”. Ainda bem que os apelidos não têm legendas.
Por outro lado, não ficaríamos vermelhos de raiva nem daríamos sorrisos amarelos. Jogador não seria expulso de campo nem ficaria pendurado por causa dos cartões amarelados.
Acho que para mim a ausência – mesmo que momentânea – das cores iria me ajudar. Logo que me mudei para Resende Costa, em 1986, para trabalhar no Assis Resende, tive que montar a minha infraestrutura domicilar. Travesseiro, lençol, cobertor, enfim, todas aquelas coisas. Faltava a fronha. Encontrei uma da minha cor preferida, o azul. Linda e repousante de se ver, prometia um bom repouso e sonhos coloridos. Levei a fronha e completei o meu humilde enxoval de professor inciante.
Ao encapar o travesseiro, minha espinha ficou gelada: a fronha tinha duas faces, uma azul e a outra cor de rosa. E o pior: como explicar essa esquizofrenia cromática para o Maguinho, o Marcos e o Mário?
Eu poderia deixar o lado azul para cima durante o dia. Não iria colar, pois mesmo com o lado azul para cima, o lado rosa se mostrava sutilmente. Jogar a fronha fora? Aí também não. Eu nem tinha recebido o meu primeiro salário e já estava botando no lixo coisas que eu ainda nem tinha começado a pagar.
Fui para a escola com a minha consciência perturbada pelo conflito de duas cores que não cediam o espaço para o branco da minha paz. Dei a primeira aula em azul, a segunda em rosa, a terceira numa mistura violeta das duas e as últimas pulando de uma para outra cor. No fim da noite, corri para casa a fim de chegar antes dos meus companheiros. O negócio era esconder a fronha.
Quando virei o beco, a casa já estava acesa: eles chegaram primeiro. Escutei vozes e fiquei por um tempinho do lado de fora ouvindo o que diziam. A fronha não fazia parte dos assuntos. Entrei e fui para o quarto, onde todos tagarelavam. Juntei-me aos meus amigos e escorreguei os meus olhos para a minha cama. O Maguinho estava assentado nela e tinha colocado seus livros, caixa de giz e apostilas sobre o meu travesseiro. Comecei a suar.
A conversa rolou e eu sem desgrudar os olhos da minha fatídica fronha comprometedora. O assunto descambou para piadas, gozações e, de repente, começou uma guerra de travesseiros. A coisa pedia uma intervenção radical de minha parte. Pulei no meio do quarto e gritei:
- Guerra de travesseiro não!
Nem acabei de clamar e veio uma cacetada macia na minha cabeça. Era o Mário empunhando o seu travesseiro... de fronha branca, como todas as fronhas dos demais. Só a minha fronha era azul e rosa, azul por cima e rosa por baixo. Uma teteia.
- O Zé tá nervoso, gente. Pega o seu travesseiro e vamos pra batalha. – instigou o Mário, pegando o meu travesseiro e jogando-o para mim.
Aí não teve jeito mais. Os olhos deles se arregalaram (os do Mário eram os mais arregalados). Depois do susto, todos caíram de pancada em cima de mim, empunhando os seus travesseiros brancos, fazendo piadas, rindo e pedindo explicações. Quando terminaram a saraivada, contei que não vi que a tal da fronha tinha um lado rosa.
Sabe aquela marchinha: Maria Sapatão, Sapatão, Sapatão. / De dia é Maria, de noite é João. Pois é, quiseram cantar essa marchinha pra mim, só que ao contrário, buscando rimas para as cores. Tive que aguentar calado e humilhado. Ainda bem que a sinfonia não foi pra frente. Como eu era professor de inglês, contentaram-se em me chamar por umas semanas de “Pink and Blue”. Ainda bem que os apelidos não têm legendas.
Correio elegante
14 de Janeiro de 2010, por José Antônio 0
Era uma festa de quermesse, ali pelos lados do Parque do Campo. Barraquinhas, luzinhas acesas e espalhadas pelo pequeno largo, chão batido de terra, muita gente alegre e várias meninas andando sem rumo, coladas umas nas outras, soltando risinhos. Músicas e oferecimentos embalavam aquilo tudo. Mário Márcio e eu tomávamos um quentão e o Marcos comia mais um cigarrete. Noite fria de junho.
Vindo de não sei onde, um moleque serelepe me tocou o braço. Trazia um papelzinho. Correio elegante: TE ESPERO-TE NO LADO DIREITO DA CAPELA.
Continuei com o meu quentão enquanto o Marcos passava a régua no terceiro cigarrete. Não dei crédito ao bilhete, sei lá, e se fosse trote? Só que não passou nem um quarto de hora e lá veio o menino com mais um bilhete: VOCÊ NÃO VEM ?
Perguntei ao pombo-correio alcoviteiro quem estava me mandando aqueles bilhetes.
– Uai, vai lá no lado da capela que você fica sabendo.
E não é que ele tinha razão? Resposta lógica e sábia de um carteiro safado, pois ainda por cima lia as correspondências que lhe eram confiadas.
Contei aos meus dois amigos o que estava ocorrendo. Mário disse que eu devia ir, sorvendo mais um gole de quentão; Marcos apenas consentiu com a cabeça, passando discretamente um guardanapo na boca, depois do quinto cigarrete.
E lá fui eu, em busca da donzela que ME ESPERAVA-ME ao lado direito da capela. Para minha surpresa, o que encontrei por lá foi um cachorro comprido e orelhudo, que ora cochilava, ora acordava. Eu sabia que era trote.
Mas eis que chega o menino outra vez, com mais um bilhete: EU ERREI. É NO LADO ESQUERDO.
Fiquei parado. Ir ou não ir? Quem é que estaria ali me esperando ao lado esquerdo da capela? Seria bonita? Seria a companheira que o meu coração sempre procurou? Seria interessante? Continuei parado, preferi considerar algumas coisas antes. E comecei a matutar...
A bem da verdade, pensemos juntos, devia ser uma garota com problemas de orientação espacial. Confundia-se com direitas e esquerdas. Estava condenada a viver com uma fita numa das mãos para saber o que é destro e o que é canhoto. E já pensou viver com uma mulher que tem problemas de orientação espacial? A coisa já começaria lá no casamento:
– Não, amor, o padre falou pra você colocar a aliança na minha mão esquerda, essa é a direita...
Daí pra frente, o dia a dia do casal iria virar um inferno, cuja caldeira seria a cama:
– É aqui? Mas você disse que era lá... Pare, amor, isso aí é o meu dedão, você está do lado errado outra vez... Qual dos dois está sensível? O direito ou o esquerdo? Hein? O que está com um lacinho de barbante?!
Além disso, o jeito em que ela colocava os pronomes: TE ESPERO-TE. Mulher assim só pode ser possessiva e dominadora. Quer me controlar duas vezes, pela frente e pelas costas. TE AMO-TE... TE CHAMO-TE... TE QUERO-TE... TE PEGO-TE... TE AGARRO-TE... TE DEVORO-TE...
Pode parar!
Fui embora de vez. De novo com o Mário e o Marcos, preferi falar que era um trote.
Então, o Mário chamou pra ir embora, reclamando com o Marcos:
– O Migué – Mário sempre chamou o Marcos de Migué – até parece que está numa dieta de cigarrete, pô! Está reclamando de indigestão. Pudera! Só veio aqui pra comer cigarrete.
Aproveitei a indigestão do meu amigo e empurrei de leve o Mário:
– Vamos embora. O Marcos precisa de um sonrisal.
O Marcos perguntou aflito:
– Pra que lado fica a farmácia? Pra direita ou pra esquerda? Alguém aqui na festa sabe informar?
Cocei a cabeça:
– Eu não me arriscaria, Marcos.
Vindo de não sei onde, um moleque serelepe me tocou o braço. Trazia um papelzinho. Correio elegante: TE ESPERO-TE NO LADO DIREITO DA CAPELA.
Continuei com o meu quentão enquanto o Marcos passava a régua no terceiro cigarrete. Não dei crédito ao bilhete, sei lá, e se fosse trote? Só que não passou nem um quarto de hora e lá veio o menino com mais um bilhete: VOCÊ NÃO VEM ?
Perguntei ao pombo-correio alcoviteiro quem estava me mandando aqueles bilhetes.
– Uai, vai lá no lado da capela que você fica sabendo.
E não é que ele tinha razão? Resposta lógica e sábia de um carteiro safado, pois ainda por cima lia as correspondências que lhe eram confiadas.
Contei aos meus dois amigos o que estava ocorrendo. Mário disse que eu devia ir, sorvendo mais um gole de quentão; Marcos apenas consentiu com a cabeça, passando discretamente um guardanapo na boca, depois do quinto cigarrete.
E lá fui eu, em busca da donzela que ME ESPERAVA-ME ao lado direito da capela. Para minha surpresa, o que encontrei por lá foi um cachorro comprido e orelhudo, que ora cochilava, ora acordava. Eu sabia que era trote.
Mas eis que chega o menino outra vez, com mais um bilhete: EU ERREI. É NO LADO ESQUERDO.
Fiquei parado. Ir ou não ir? Quem é que estaria ali me esperando ao lado esquerdo da capela? Seria bonita? Seria a companheira que o meu coração sempre procurou? Seria interessante? Continuei parado, preferi considerar algumas coisas antes. E comecei a matutar...
A bem da verdade, pensemos juntos, devia ser uma garota com problemas de orientação espacial. Confundia-se com direitas e esquerdas. Estava condenada a viver com uma fita numa das mãos para saber o que é destro e o que é canhoto. E já pensou viver com uma mulher que tem problemas de orientação espacial? A coisa já começaria lá no casamento:
– Não, amor, o padre falou pra você colocar a aliança na minha mão esquerda, essa é a direita...
Daí pra frente, o dia a dia do casal iria virar um inferno, cuja caldeira seria a cama:
– É aqui? Mas você disse que era lá... Pare, amor, isso aí é o meu dedão, você está do lado errado outra vez... Qual dos dois está sensível? O direito ou o esquerdo? Hein? O que está com um lacinho de barbante?!
Além disso, o jeito em que ela colocava os pronomes: TE ESPERO-TE. Mulher assim só pode ser possessiva e dominadora. Quer me controlar duas vezes, pela frente e pelas costas. TE AMO-TE... TE CHAMO-TE... TE QUERO-TE... TE PEGO-TE... TE AGARRO-TE... TE DEVORO-TE...
Pode parar!
Fui embora de vez. De novo com o Mário e o Marcos, preferi falar que era um trote.
Então, o Mário chamou pra ir embora, reclamando com o Marcos:
– O Migué – Mário sempre chamou o Marcos de Migué – até parece que está numa dieta de cigarrete, pô! Está reclamando de indigestão. Pudera! Só veio aqui pra comer cigarrete.
Aproveitei a indigestão do meu amigo e empurrei de leve o Mário:
– Vamos embora. O Marcos precisa de um sonrisal.
O Marcos perguntou aflito:
– Pra que lado fica a farmácia? Pra direita ou pra esquerda? Alguém aqui na festa sabe informar?
Cocei a cabeça:
– Eu não me arriscaria, Marcos.
Vaquinha de presépio
13 de Dezembro de 2009, por José Antônio 2
Olá!
Eu sou uma vaquinha. Vaquinha de presépio.
Você está olhando o presépio e nem presta muita atenção em mim. Eu estou em todos eles. Eu e os meus dois companheiros: o galo e o burro. Às vezes, espalham uns carneirinhos ao redor do estábulo. Mas fui eu que acabei levando a fama de bichinho de presépio. Até mesmo pra insultar alguém que é pasmaceira: “vaquinha de presépio”.
Tem lugares aí pelo mundo em que sou eu o centro das atenções. Na Índia, as minhas primas úberes são cotadíssimas. Ninguém mexe com elas. Elas são sagradas. Se me colocarem num altar por aqui, eu viro vaca profana. Eu é que não vou falar nada. Não sou vaca louca.
Tem muitos anos que eu compareço aqui no estábulo nesses dias de Natal. Sinto-me orgulhosa com isso. Outro dia, o burrinho se queixou de que a gente só fica fazendo número, que a gente é zero à esquerda, não faz falta, que a gente é... vaquinha de presépio mesmo! Onde já se viu? Tire os bichos do presépio e você verá a falta eles fazem. Nós temos importância. O Criador também quis nascer perto de nós.
Todos os anos vem aqui um trio de reis, eles são Magos. Cada um traz uma coisa: ouro, incenso e mirra. Sabem que o Menino na manjedoura é muito importante. Ninguém traz nada pra nós. Tudo bem. Não somos os principais do presépio.
Os pais do Menino são pobres e não têm muitos recursos. Não conseguiram arranjar um lugar melhor pro filho deles nascer. Aí eles vieram pra cá, vê se pode! Nessa bagunça toda. Eu vi o pai ajeitando tudo para dar um mínimo de conforto pro bebê e pra mãe. Quando o Menino nasceu, uma luz muito bonita invadiu o estábulo. Nunca o nosso recanto ficou tão bonito. O galo não parava de cantar. Parece que havia uma estrela parada em cima da gente.
A minha função e a do burro é ficar perto do Menino, bafejando sobre ele. Coitadinho, ele sente muito frio e os pais não trouxeram muito agasalho. Às vezes, eu olho pro burro e ele olha pra mim. Sorrimos em silêncio, satisfeitos por estarmos aquecendo o Criador. No fundo, gostaria de ter muitos presentes pra oferecer pro Menino. Mas sou apenas uma vaca. O que uma vaca pode ofertar pro Criador? Não é que eu seja mão de vaca, mas vaca não tem bens. O máximo que eu poderia fazer é deixar que me matassem pra que eu pudesse alimentar o Menino. Já pensou? Vaca atolada. Não seria um prato avacalhado, apesar da vaca ir pro brejo.
O Menino vai crescer saudável e inteligente. Terá um coração bom e vai fazer muitos milagres. Ao longo da história, as pessoas vão oferecer a vida pra ele, algumas vão construir templos luxuosíssimos. Serão tantos presentes que nem sei. Pelo que eu conheço dele, em minha limitada inteligência bovina, ele não vai gostar dos presentes luxuosos. Ele é muito simples e humilde. É um bebê diferente.
Eu ofereço apenas o meu bafejo. Não é lá grande coisa, mas pelo menos eu não vou oferecer uma cruz.
Vou parar de falar, pois o Menino está dormindo. Acho que ele está sonhando, posso ver um leve sorriso em seu rostinho. Dorme, Menino! Sonha com todo mundo alegre e sem sofrimentos, todo mundo morando em um lugar cheio de paz e harmonia. Faz isso, Menino, porque os teus sonhos são possíveis de acontecer.
E pra você, que me acompanhou até aqui nas últimas linhas, Feliz Natal! São os votos da vaquinha do presépio.
Eu sou uma vaquinha. Vaquinha de presépio.
Você está olhando o presépio e nem presta muita atenção em mim. Eu estou em todos eles. Eu e os meus dois companheiros: o galo e o burro. Às vezes, espalham uns carneirinhos ao redor do estábulo. Mas fui eu que acabei levando a fama de bichinho de presépio. Até mesmo pra insultar alguém que é pasmaceira: “vaquinha de presépio”.
Tem lugares aí pelo mundo em que sou eu o centro das atenções. Na Índia, as minhas primas úberes são cotadíssimas. Ninguém mexe com elas. Elas são sagradas. Se me colocarem num altar por aqui, eu viro vaca profana. Eu é que não vou falar nada. Não sou vaca louca.
Tem muitos anos que eu compareço aqui no estábulo nesses dias de Natal. Sinto-me orgulhosa com isso. Outro dia, o burrinho se queixou de que a gente só fica fazendo número, que a gente é zero à esquerda, não faz falta, que a gente é... vaquinha de presépio mesmo! Onde já se viu? Tire os bichos do presépio e você verá a falta eles fazem. Nós temos importância. O Criador também quis nascer perto de nós.
Todos os anos vem aqui um trio de reis, eles são Magos. Cada um traz uma coisa: ouro, incenso e mirra. Sabem que o Menino na manjedoura é muito importante. Ninguém traz nada pra nós. Tudo bem. Não somos os principais do presépio.
Os pais do Menino são pobres e não têm muitos recursos. Não conseguiram arranjar um lugar melhor pro filho deles nascer. Aí eles vieram pra cá, vê se pode! Nessa bagunça toda. Eu vi o pai ajeitando tudo para dar um mínimo de conforto pro bebê e pra mãe. Quando o Menino nasceu, uma luz muito bonita invadiu o estábulo. Nunca o nosso recanto ficou tão bonito. O galo não parava de cantar. Parece que havia uma estrela parada em cima da gente.
A minha função e a do burro é ficar perto do Menino, bafejando sobre ele. Coitadinho, ele sente muito frio e os pais não trouxeram muito agasalho. Às vezes, eu olho pro burro e ele olha pra mim. Sorrimos em silêncio, satisfeitos por estarmos aquecendo o Criador. No fundo, gostaria de ter muitos presentes pra oferecer pro Menino. Mas sou apenas uma vaca. O que uma vaca pode ofertar pro Criador? Não é que eu seja mão de vaca, mas vaca não tem bens. O máximo que eu poderia fazer é deixar que me matassem pra que eu pudesse alimentar o Menino. Já pensou? Vaca atolada. Não seria um prato avacalhado, apesar da vaca ir pro brejo.
O Menino vai crescer saudável e inteligente. Terá um coração bom e vai fazer muitos milagres. Ao longo da história, as pessoas vão oferecer a vida pra ele, algumas vão construir templos luxuosíssimos. Serão tantos presentes que nem sei. Pelo que eu conheço dele, em minha limitada inteligência bovina, ele não vai gostar dos presentes luxuosos. Ele é muito simples e humilde. É um bebê diferente.
Eu ofereço apenas o meu bafejo. Não é lá grande coisa, mas pelo menos eu não vou oferecer uma cruz.
Vou parar de falar, pois o Menino está dormindo. Acho que ele está sonhando, posso ver um leve sorriso em seu rostinho. Dorme, Menino! Sonha com todo mundo alegre e sem sofrimentos, todo mundo morando em um lugar cheio de paz e harmonia. Faz isso, Menino, porque os teus sonhos são possíveis de acontecer.
E pra você, que me acompanhou até aqui nas últimas linhas, Feliz Natal! São os votos da vaquinha do presépio.