Deixar para trás a cidade natal é um marco de vida, em razão de tudo que essa decisão representa em termos de mudança, aqui entendida em todos os sentidos. Há, porém, aquelas pessoas que só nascem no lugar de onde se mudam logo, normalmente levadas pelos pais e sem tempo para a construção de quaisquer memórias, na condição recém-nascidas ou pouco mais que isso. Bem diferente é partir mudando de vida, levando e deixando lembranças. Partir por opção e/ou necessidade, para trabalhar e/ou estudar, para crescer na profissão ou pessoalmente. E para voltar um dia. Ou não.
A ficção é pródiga em construir cenas de retorno à terra natal. Cito aqui Tieta (Betty Faria), protagonista que dá título a uma novela adaptada para tevê (de 1989) da obra original de Jorge Amado (1912-2001). E resgato o regresso triunfal dela a Santana do Agreste, 25 anos após ter deixado a cidade, escorraçada pelo próprio pai, que não aceitava o comportamento liberal da filha. Dada como morta, eis que ela ressurge: rica, linda, vivíssima e pronta para se vingar daqueles que a maltrataram. Cena inesquecível.
Caindo na real, falemos dos que voltam. Muitos, para ficar. Há aqueles que voltam sempre: de mês em mês, uma, duas ou três (quem sabe, quatro) vezes ao ano ou todo (ou quase todo) final de semana. Esses últimos praticamente não foram embora. E há ainda os que estão presentes nas ocasiões festivas. Ah, como são propícias essas ocasiões aos reencontros familiares e com amigos ou conhecidos. E estar em casa faz toda a diferença. Apropriemo-nos, então, particularmente, do nosso calendário de eventos. Para os fãs da folia, por que não passar o carnaval na terrinha e sair no Bloco das Domésticas, relembrando outros tempos? Semana Santa tem que ser em Resende Costa! Isso é sagrado, duplamente entendido. E julho sugere o quê? Uma vinda a Resende Costa para o Rodeio, assim mesmo, como costumamos escrever essa palavra, com R maiúsculo, o que virou uma metonímia exclusiva (a parte) para nos referir à Exposição Agropecuária local (pelo todo). E quem é resende-costense entende: Rodeio é a festa toda. Outra oportunidade (ou desculpa) para marcar presença por aqui surge mais adiante com a nossa tradicional Festa do Rosário, imperdível para muitos. Estar por nossas ruas ou em casa para as festas de final de ano, em especial, para o Natal, isso é quase sempre certo.
Nessa permanência temporária, fora os propósitos festivos ou além deles, as preferências em desfrutar momentos de alegria se dividem em programas simples e reveladores que a cada um (a) tocam de maneira única. Uma ida às Lajes (de Cima ou de Baixo), à igreja matriz, ao povoado natal ou à rocinha. Um rolê pelos bares de sempre ou do momento, um giro pelas casas dos parentes, ou, quem sabe, dos amigos daqui. Em casa, há os afagos familiares, especialmente, as comidas feitas pela mãe, avó ou outro familiar e que nunca faltam. Reconhecer-se em tudo isso é manter viva a identificação com a terra que nos viu nascer.
Consideremos agora os ausentes: os de fato ausentes e os ausentes apenas no plano físico da terra natal. Ser ausente de fato, entre outras razões, significa associar um passado de sofrimento vivido na cidade natal à própria cidade. Ser ausente presente, entre outros motivos, é preferir preservar, de longe, as boas lembranças de um passado feliz, por óbvio, que não mais existe.
Ocorre-me lembrar o mineiro Carlos Drummond, que visitou Itabira pela última vez em 1948 (muito antes de morrer, em 1987), o que alguns conterrâneos achavam um pouco caso dele com a cidade. Na verdade, ele só se afastou dela fisicamente, pois crônicas e poemas seus comprovam seu amor a ela, bem como sua tristeza e indignação pela extração predatória de minério no município. “Eu vejo a minha Itabira do passado na minha fotografia na parede”, disse certa vez.
Pensemos, na possibilidade dos regressos felizes em reconexão espiritual com nossas raízes, com o solo natal, onde, então enterrado, encontrou morada o nosso umbigo, símbolo de pertencimento àquele lugar.