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João, cidadão

29 de Abril de 2026, por João Bosco Teixeira

Cidadão: habitante da cidade, preocupado com a cidade, identificado com a cidade, disposto a servir à cidade. Cidadão também da grande cidade, da cidade maior, da cidade-país. E, então, sofrendo e padecendo com este país-cidade.

Para ainda sobreviver, veem-me à mente lembranças, vividas e não, objetivas e menos, válidas e cridas, presentes como nunca. 

Como me doeu um dia: O que será que será?...

 

O que não tem certeza, nem nunca terá.
O que não tem conserto, nem nunca terá.

 

O que não tem decência nem nunca terá.
O que não tem censura nem nunca terá.

O que não tem governo, nem nunca terá.
O que não tem vergonha nem nunca terá.


Como me dói ainda hoje! É que a saudade dói. Mas, não é a saudade; é a realidade.

Há momentos em que o presente muito lucraria se os governantes conhecessem e se dispusessem a aprender lições nunca esquecíveis. Eis uma de tantas protagonizada pelo  rei Assuero que  escreveu carta aos governadores das cento e vinte e sete províncias  e aos chefes de distrito, seus subordinados, carta na qual dizia: “Colocado na chefia de inúmeros povos e como senhor de toda a terra, eu me propus não me deixar embriagar pelo orgulho do poder e sempre governar com grande espírito de moderação e benevolência, a fim de outorgar a meus subordinados o perfeito gozo de uma existência sem sobressaltos e, já que meu reino oferece os benefícios da civilização e a livre circulação entre as suas fronteiras, nele instaurar o objeto do desejo universal, que é a paz”. (Est 3,13

Assuero viveu no século V a.C., mas suas palavras ressoariam, validamente, no Congresso Nacional, se este não houvesse perdido a legitimidade.  E perdeu, pois, diante de um Supremo judiciário que legisla, ele se cala empobrecidamente, ou quem sabe, covardemente, ou, pior ainda, interesseiramente, dado que não convém rebelar-se contra quem tem a espada de Dâmocles sobre o próprio pescoço.

Sei não. Princípios morais raramente são universais, pois são ajustes de uma sociedade, num tempo determinado. Mas há conceitos insubstituíveis, há valores intocáveis, pelo menos na civilização iluminada pelo cristianismo. Numa reunião de condomínio, depois de acelerada discussão – e é uma pena que tais discussões sejam sempre “aceleradas” - um ex-síndico disse: “não se pode pensar e agir assim: para mim está bom, o resto que se dane. O bem do grupo precisa anteceder, precisa ser mais considerado que o meu bem-estar pessoal”. Corajoso síndico, possuidor de pura cidadania, seria condenado em várias instâncias superiores de nossa administração pública.

Li em O TEMPO de 11 de abril passado: “O verdadeiro desenvolvimento precisa começar pelo básico: ouvir a população, respeitar os territórios e garantir condições dignas de vida para todos e todas” (Andreia de Jesus, Dep. Estadual PT-MG), É verdade, pois “se eu não te ouvir como é que posso cuidar de você?”, dizemos nós, os psicólogos clínicos. Se o partido da Deputada seguisse o preceito que ela apregoa, não teríamos um número de bolsas maior que o número de carteiras assinadas de trabalhador.

João, cidadão. Da cidade terrena. À luz do tempo pascal celebrado, cidadão também da cidade eterna, pois “Semeado corruptível, o corpo ressuscita incorruptível; semeado desprezível, ressuscita reluzente de glória; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual (1Cor 15,42).

Não é fuga. É convicção capaz de justificar e iluminar a cidadania de quem habita, qual cuidador, este mínimo espaço cósmico.

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