Taíza de Pinho Barroso Lucas*
Tenho uma inquietação que talvez seja de muitos e muitas que acompanham o curso da história recente: estamos vivendo a era com o maior volume de informações já produzidas pela humanidade e, ainda assim, adoecemos como nunca. A desigualdade social avança, a concentração de renda se intensifica, os recursos naturais são explorados até o limite e os gases de efeito estufa seguem aumentando. A última Conferência Climática da ONU, a COP 30, fracassou em não estabelecer o caminho da transição energética. Entretanto, a mudança do clima deixou de ser projeção e passou a ser experiência: ela atravessa o cotidiano urbano, agrava doenças, pressiona sistemas de saúde, altera hábitos e redefine a vida nas cidades.
O conhecimento, entretanto, salva vidas. A história das vacinas é uma prova inequívoca: quando ciência, políticas públicas e responsabilidade coletiva se unem, vidas são protegidas. O mesmo raciocínio vale para os efeitos das mudanças climáticas sobre a saúde: dispomos de dados, evidências, pesquisas e tecnologias capazes de reduzir riscos e prevenir mortes. O que ainda não alcançamos plenamente é a consciência coletiva necessária para transformar conhecimento em ação contínua.
As cidades são hoje o palco central do desafio civilizatório. Não basta planejar infraestrutura resistente ao clima se continuamos reproduzindo lógicas sociais que excluem, segregam e adoeçam. Uma cidade saudável é mais do que um conjunto de obras; é um ecossistema social e ambiental equilibrado. Envolve caminhabilidade, transporte público eficiente, alimentação saudável acessível, ar, água e solos limpos, além de vegetação nativa e arborização em abundância. Árvores não são ornamentos: oferecem serviços ecossistêmicos essenciais, regulam o microclima, reduzem ilhas de calor, filtram poluentes, acolhem biodiversidade e, sobretudo, protegem vidas humanas.
O que muitas vezes se perde de vista é que não somos espectadores da natureza. Somos parte dela. Somos uma espécie ecológica que depende de uma teia de relações para existir. A saúde humana passa, inevitavelmente, pela saúde ambiental. A doença do planeta é também a nossa doença e o contrário também é verdadeiro.
Durante séculos, o capitalismo consolidou o mito do indivíduo autossuficiente, como se cada um de nós caminhasse sozinho, apartado do todo. Mas não há solução individual possível para problemas coletivos. Não existe ar filtrado exclusivamente para quem pode pagar, nem chuva seletiva para bairros mais ricos. A vulnerabilidade climática expõe com crueldade o que a humanidade teima em esquecer: somos interdependentes.
É claro que a adaptação climática exige investimentos bilionários. Precisamos deles e com urgência. Mas há um investimento ainda mais profundo e estrutural, sem o qual nenhum recurso financeiro será suficiente: a construção de uma consciência coletiva. Antes de tecnologias, precisamos de pertencimento. Antes de grandes obras, precisamos de responsabilidade compartilhada. Antes de planos climáticos, precisamos assumir que transformar a cidade é um ato de comunidade, não de consumo.
A universidade, o poder público, as organizações sociais, as escolas e cada cidadã e cidadão têm um papel insubstituível. A transição para cidades saudáveis não depende apenas de gabinetes, mas de calçadas, cozinhas, ônibus, parques, escolas e relações cotidianas. Depende do reconhecimento de que o bem-estar de uma pessoa é inseparável do bem-estar das outras e inseparável do território que habitamos.
A emergência climática não é apenas um desafio ambiental: é um desafio ético, social e humano. A pergunta que se impõe, portanto, não é apenas quanto vamos investir, mas como queremos viver e com quem. Porque só há futuro se houver coletivo.
*Professora do CEFET MG e atualmente está como coordenadora Especial de Mudanças Climáticas da Prefeitura de Belo Horizonte.
