Na tradição cristã, a oração e a celebração eucarística pelos defuntos remonta ao início do cristianismo quando os fiéis se reuniam nas catacumbas para partilharem o pão e fazer memória a Cristo ressuscitado. Perseguição e morte povoaram a existência dos primeiros cristãos e das comunidades primitivas que professavam a fé em Jesus de Nazaré no Império Romano.
Recordar os mortos e rezar por eles é uma prática antiga e piedosa do catolicismo, como relata artigo publicado no site Vatican News no dia 2 de novembro, Dia de Finados: “Há indícios de que os cristãos rezavam e celebravam a Eucaristia pelos seus defuntos. No início, eram recordados no terceiro dia do enterro e, depois, no aniversário de morte. A seguir, no 7º e 30º dia. Tudo começou, porém, no ano 998, quando o Abade Odilo, de Cluny (994-1048), exigiu que o então chamado “Dia de todas as almas”, hoje Dia de Finados, fosse celebrado em 2 de novembro, em todos os mosteiros sob a sua jurisdição”. Ao longo dos séculos, a Igreja universalizou a data e criou no calendário litúrgico a celebração de Finados. “Em 1915, Bento XV concedeu a faculdade a todos os sacerdotes de celebrar várias Missas neste dia, desde que a intenção fosse feita apenas em uma Missa. Hoje, a liturgia propõe várias Missas, nesta data, a fim de ressaltar o mistério pascal, a vitória de Jesus sobre o pecado e a morte.”
A tradição cristã criou no Dia de Finados a visita aos cemitérios. Visita sempre marcada por sensações que se confundem e produzem aquele sentimento que só é traduzido em nossa língua portuguesa: saudade. Entre lápides e cruzes ornadas por flores e velas que se consomem em espiral de preces, caminhamos pelo campo santo saudosos de nossos parentes e amigos que já não estão entre nós. Uma breve e orante pausa diante dos túmulos nos recorda a vida daqueles que morreram, mas também nos inspira reflexões. Reflexões sobre a materialidade da vida e a eternidade do espírito.
Ali, no espaço onde se avizinham túmulos cada qual representando uma forma - alguns suntuosos; outros se identificam por meio de uma simples cruz cravada na terra seca – a brevidade e a fragilidade da vida se fundem numa mesma premissa existencial. O cemitério nos ensina – sim, didaticamente – que a jornada terrena encontra o mesmo fim num espaço onde reinam o silêncio, o vazio e a saudade. Não importa por quais caminhos percorramos em nossa existência terrena; se acumulamos riquezas ou vivemos agruras de uma vida miserável, o fim de todos os corpos é o repouso num mesmo campo. Campo santo para quem acredita que a vida é sagrada, vem de Deus e para ele um dia retornará.
O Dia de Finados, celebrado pelos católicos em 2 de novembro, nos faz reviver a angústia existencial de sermos conscientes da condição de seres finitos, portanto, indefesos diante da inevitabilidade da morte. Condição que nos inquieta, ao mesmo tempo em que abre nosso espírito para a esperança de que a vida só encontra sentido pleno se a morte for o caminho para a eternidade.
Finados ensina-nos também o mandamento da humildade. A raiz latina da palavra humildade é húmus (terra). A terra é nossa origem, dela viemos e para ela retornaremos (“tu és pó e ao pó voltarás”, Gn 3,19). A morte nos nivela como humanidade, ou seja, todos – independentemente de gênero, raça, condição social – possuímos a mesma raiz. Já a vida nos alerta para vivermos a humildade com um dom, isto é, tornar a terra (húmus) de onde viemos um jardim fértil de terra viva.
O mistério da morte confronta a condição humana da finitude e a capacidade sagrada da transcendência alimentada pela fé. Quando atingimos a transcendência por meio da fé, mitigamos o sentimento cruel da perda causado pela morte. Sentimento de dor e saudade transformado em esperança de vida eterna, eis a mensagem que o Dia de Finados, dia de reverência aos nossos entes queridos que já partiram, nos apresenta.
