Retalhos Literários

O tempo e os sonhos

13 de Novembro de 2013, por Evaldo Balbino 0

O tempo passa para todos. Até as coisas mudam, pois se cansam também. Uma penteadeira antiga demonstra ares de velha avó boa e silenciosa, mas cheia de monotonias. Bela uma penteadeira antiga, porém de uma beleza cheia de enfados, de vida longa num currículo que se estende para longe. Boa e bela, no entanto com uma respiração cansada, com passos lentos em calçada de pedra, com vagares de viver uma vida que sobe por um morro íngreme. E ela, a vida, apesar de tudo, continua bela e boa.

Se se cansam as coisas, o que dizer de nós mesmos? Nós, que temos a consciência de que o tempo só sabe passar e nada mais? Tudo bem que o tempo, dizem, nos traz uma madura idade. A maturidade que não se compra e que não se vende. Nenhuma madureza é objeto de mercancia. Dizem isso, mas tenho lá as minhas dúvidas. E com meus botões vou dizendo que nem sempre evoluímos assim. A vida não é evolução. É acontecimento. Não nego o valor da experiência, mas também não nos vejo caminhando de modo retilíneo, como se estivéssemos, por exemplo, galgando altos patamares, os mais difíceis e nobres. Aprende-se vivendo, é claro! Mas vivemos errando também.

Outro dia recebi um e-mail de um amigo, com belos slides em anexo. Ao vê-los, desfilaram perante meus olhos heróis dos quadrinhos e personalidades da música e do cinema. Greta Garbo, Batman, Mandrake, Marlon Brando, Dalva de Oliveira, o Homem-Aranha etc. E todos iam passando diante dos meus pensamentos como carneirinhos impertinentes. Não dizem que carneirinhos contados à beira do sono são capazes de nos embalar na deliciosa rede dos sonhos? No entanto, os carneirinhos que desfilavam diante de mim eram mulheres lindas, gargantas de ouro e voz deslumbrante, figuras destemidas e invencíveis na luta contra um suposto Mal. E todas essas figuras, apesar de eternas, não deixavam de ser carneirinhos mortais. Todas eternas, porque habitando nossas memórias. Mas também todas mortais, pois tanta beleza, tanto brilho nos olhos, principalmente dos cantores e dos atores, tudo isso já virou uma escuridão, uma ausência de olhos, um vazio de olhar. E ao fim de tudo, sob flores e insetos, nem mesmo a certeza de que esta vida continua. Sob terra que se joga e que se esquece, só resta apenas um silêncio profundo como um rio que não conhecemos. E eis aí uma dúvida que abala tudo, até mesmo qualquer fé que se deseja inabalável.

Sim, o tempo passa. Para todos e para tudo. Coisas, bichos, homens e mulheres, crianças e idosos. Nada tem salvação, pelo menos neste plano que apalpamos e que sentimos com nossos sentidos primeiros e evidentes. As pessoas e seus sonhos (os heróis que construímos), tudo vira pó da memória. Tal melancolia me assalta e se me faz amiga. Não para me levar de mãos dadas ao abismo do nada, e sim para me fazer pensar, sonhar cada vez mais, lutar contra todo apagamento. De mim e de todos. E essa luta pressupõe um revirar constante das horas passadas.

Outro dia mesmo revivi um pouco, e mais uma vez, o passado. Revi um vídeo longo sobre os melhores momentos do Cassino do Chacrinha. Meu Deus, que saudade! Não de uma felicidade, que esta não existe pura e simples. Mas saudade de momentos que vivi: o brilho da roupa do Guerreiro Abelardo Barbosa, a Elke Maravilha dançando com Roberto Leal, o Paralamas do Sucesso, Raul Seixas e sua Al Capone, Elba Ramalho falando de um banho de lua, Sidney Magal com sua Sandra Rosa Madalena, Ultraje a Rigor, Jane e Herondy, Cazuza, Tim Maia, Lulu Santos, Luiz Caldas falando de abelha e flor e amor, Sandra de Sá dizendo da solidão e da necessidade de amor, Evandro Mesquita, Marina Lima falando de noite e sedução, Jairzinho e Simony, Guilherme Arantes, Simone, Roberto Carlos cantando que “todo final tem seu começo” e que os dias e as horas são contados ansiosamente para se ver quem se ama, Fábio Júnior, Baby do Brasil e Pepeu, Wanderléa, Nelson Ned, e, por fim, o Capital Inicial falando de distância e independência.

O tempo nos faz alongar caminhos e não nos deixa independentes das distâncias. Elas são pontes que nos ligam sempre ao passado. O passado não passa, mas permanece. A cada vez que perscruto o passado, eu não vejo só coisas boas. Nem tudo é um mar de rosas, mas também, é claro, nem tudo está perdido ou esteve perdido. Há que se extrair de todos os momentos da vida um naco sequer de alegria, de paz, de crença na felicidade plena.

 

Pensando em tudo isso, pergunto a Deus, como já o fez Adélia Prado: “A vida é assim, Senhor? Desabam mesmo pele do rosto e sonhos?”. Se tudo desaba, algo nos salva. E nesta crônica já terminando, lembro a todos que as referidas cenas do Chacrinha foram gravadas num teatro de nome belíssimo. Teatro Fênix. Este nome me salva do tempo e do silêncio.

Livrai-nos do fogo do inferno!

15 de Outubro de 2013, por Evaldo Balbino 0

Começa a noite e o Ribeirão de Santo Antônio está silencioso.

O Seu Geraldo Martins morrera no início da tarde, mas este silêncio todo não é por sua morte. Ele morrera, porém muitos ainda continuam na sua faina, entre milharais, plantações de café e mandioca, entre pomares inesgotáveis da vida. Lá no Ribeirão de Baixo mesmo, a esta hora da tarde, bem na venda do Nélson, alguns homens devem estar bebericando a vida, falando dos segredos alheios, desejando a mulher do próximo, e tudo isso com a pacificadora ideia de que tudo será perdoado, pois estão bêbados, sem maldade nenhuma.

No Ribeirão do Meio, a porteira solitária está fechada. No pasto, a vaca pasce com seu bezerrinho ao lado mesmo do menino. E o menino, de conga, calça de tergal plissada, camisa de uma cor bonita num tom pêssego, aguarda sua mãe que a esta hora deve estar penteando os cabelos em frente à penteadeira. Ambos, menino e mãe, vão ao velório na casa do Seu Martins.

O menino sem medo nenhum. Não tem medo dos mortos, pois sabe que eles não mexem com ninguém. Além disso, o Seu Martins era homem bom, sempre lhe dando balas na venda do Nélson, quando ele, o menino, ia buscar querosene para sua mãe. Atarantada no tear, serviço que faz até altas horas da noite, a mulher não tem como ir à mercearia e pede ao menino que vá em seu lugar. O Nélson não lhe dá nada, somente o troco bem contado, que homem honesto o vendeiro é. Porém o Seu Martins sempre abria seu largo sorriso branco, não da brancura de dentes, que estes ele não tinha, mas da brancura da alegria. Mesmo sem dentes, aquele homem ria, a barriga balançava, e suas mãos se estendiam para o menino guloso por balas.

Agora, depois de morto, certamente o Seu Martins não mais lhe dará balas. E ele, o menino, em ato de agradecimento, acompanhará a mãe até ao velório.

De cabelos longos e penteados, com uma mecha nascendo e crescendo branca bem no meio da testa, a mãe se aproxima apressada. Pega a mão do filho e vai solicitando passos rápidos, argumentando que estão atrasados.

O menino a atende, solícito. Aceita as passadas da mãe, sem deixar de lado, no entanto, o receio de que a poeira da estrada suje seu par de congas, mandadas comprar recentemente na Vila. A sola de borracha branca contrasta com o tom pêssego escuro do resto do calçado. E nenhum receio de que lhe venham dizer ser esta cor para mulheres, tão parecida com o rosa. Que se danem todos, chegou a pensar isso quando as calçava, imponente, para acompanhar a mãe à casa do Seu Martins. E o mais bonito de tudo: a cor das congas é a mesma da camisa que sua mãe coseu. Assim, tão bem vestido, ele vai para um velório. Bonito diante da morte.

Para encurtar o caminho, a mãe decide passarem pela cava, uma estrada funda por onde o menino nunca gosta de passar sozinho. Ribanceiras altas, buracos de onde saem cocotas, mas também serpentes. E o medo da Luz da Pedra? A que dizem vagar sobre o Ribeirão noturno e a qual muitos já disseram ter visto ali mesmo, errando pela escuridão da cava? De jeito nenhum! Passar ali sozinho, nunca! Até mesmo durante o dia, é sempre noite na cava. Acima das ribanceiras, densa mata torna o caminho mais sombrio do que a morte.

A casa do Seu Martins fica no Ribeirão de Baixo, entre uns bambuzais, um pouco depois da venda do Nélson. Mesmo passando apressados diante do empório, o menino vê alguns homens no balcão bebendo a vida. É gente magra, pois a morte está ali perto, entre os bambuzais, deitada na casa do Seu Martins. E praticamente quase todos do povoado estão, agora, cultuando a morte, exorcizando-a, para no dia seguinte voltarem aos seus afazeres, às suas vidas.

No velório, pessoas de pé, de cócoras; umas sentadas à mesa, outras em bancos de madeira ao longo do terreiro ou pelos cômodos da casa. Um silêncio rumoroso atravessando tudo. No momento em que chegam o menino e a mãe, a reza já vai começada. Todos tristonhos, tentando espantar a morte.

E o menino fica solerte, de ouvidos em pé, escutando aquelas vozes todas em uníssono. Ele nunca ouvira antes aquele tipo de coisa, nunca presenciara o ritual. Entre um mistério e outro, o Ó Meu Jesus vem à tona e atravessa a existência do garoto: “Ó meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno. Levai as almas todas para o Céu, e socorrei principalmente aquelas que mais precisarem”.

O coração apertado, o menino clama por sua mãe:

– Mãe, vamo embora, que tão mandano ele pro inferno. Vamo embora, mãe, pelo amor de Deus!

 

Imersa na reza, como que estando em outro mundo, a mãe não o escuta. Então ele, sem coragem de voltar sozinho para casa, busca pensar na vaca e no bezerrinho, pascendo vivos lá no pasto. Os dois esperando que ele, o menino, volte logo para apartá-los. Não da vida, mas um do outro, momentaneamente, para continuarem juntos no outro dia.

As eternas manhãs de setembro

13 de Setembro de 2013, por Evaldo Balbino 1

(Para Everaldo e Elenice, in memoriam)

Hoje é domingo, o dia é azul, o céu se despe e é limpo. As nuvens me amam, desataviadas. Sobrevoam sobre minha cabeça para dizerem que existo, que me fazem sombras leves com um sol ameno. Dizem-me as nuvens que a vida é bela. Se não vivermos a vida, ela viverá por nós. Então: vivamos! Vivamos, neste domingo, dia da ressurreição. Vivamos nesta manhã de setembro, transformada aqui em palavras, em traços.

Os traços não são eternos, eu sei. Também tenho a consciência de que não sou perene. Mas enquanto puder, pelo menos quero falar. Quero, como se grita naquela canção da Vanusa, sair, falar e ensinar um canto. Não quero ensiná-lo apenas ao meu vizinho, mas também a todos aqueles que venham se avizinhar destas palavras no papel postas. “Eu quero sair / Eu quero falar / Eu quero ensinar / O vizinho a cantar. // Eu quero sair / Eu quero falar / Eu quero ensinar / O vizinho a cantar / Nas Manhãs de Setembro / Nas Manhãs de Setembro / Nas Manhãs de Setembro / Nas Manhãs!”.

Sim, quero cantar como a Vanusa cantava e canta. E saber-me pleno de memória, indo na contramão daqueles que passaram a julgar a cantora como desmemoriada, depois de um episódio em que ela errou o Hino Nacional. Quem realizou tal julgamento é que carece de memória. Parece tão fácil ver nos outros um defeito, uma lacuna sem verificar-lhes o que há de belo. Vanusa é nossa memória. Está em nossa memória musical sem dúvida alguma. Além do mais, para quê cantar bem o Hino Nacional, se neste país a política, em sua grande parte, nos envergonha? A letra parnasiana – bela sem dúvida alguma – não apaga nossa vergonha. Eu defendo sim o nosso hino, mas acho que devemos lutar contra a alienação política que nos toma para construirmos um país que faça jus ao hino tão soberbo que tem.

Eu não sei cantar, mas sei escrever. Então me deixem cantar aqui, nesta folha. Deixem-me cantar como um louco. E como um cão raivoso em noite de lua, quero ser um lobo uivando, furioso, um lobo-memória ardendo de vidas e mais vidas. Quero soltar a voz à semelhança de um uivo ou proferir o que profiro e prefiro com esta voz que Deus me deu. Quero berrar, clamar, gritar, vociferar aos quatro ventos do mundo: vivam as manhãs de setembro! Vivam todas elas, pois nelas estamos eternamente nascendo!

Foi em setembro, por exemplo, que nasceram, há mais ou menos quarenta anos, meus irmãos Everaldo e Elenice. Os meus irmãozinhos que não cheguei a conhecer. Antes de completarem um ano de idade, eles se foram. O Everaldo, com nove meses de vida; e a Elenice, com apenas quatro meses. Eles subiram uma escada longa e estreita, cheia de dores e sede. Subiram para brincar com outras crianças num amplo jardim. Vergel sobre nuvens erguido, lá onde os miúdos, todos eles, vestem roupa azul, da cor do ar rarefeito, do ar espalhado pelos céus.

Até hoje comemoro o nascimento dos meus dois irmãos, eternas crianças, para sempre nascendo. Comemoração a que me entreguei desde pequeno. Lembro-me, lá na minha infância, da minha ida certa vez ao cemitério do Ribeirão de Santo Antônio. Fui até ao campo-santo, sozinho, para encontrá-los, os meus irmãozinhos. E o que vi eram apenas sepulturas entre flores murchas. Eram lápides de silêncio e monotonia. Mesmo assim, não desisti da busca. Menino ainda iletrado, eu não sabia onde estavam os corpos fraternos. Andei pela necrópole rústica e tristonha, uma paz de cortar a vida! Andei olhando não para os lírios, que esses não grassavam por aquelas bandas, mas olhando e colhendo florezinhas simples, pequenas. E fui pegando aquelas ramas silvestres e colocando-as sobre cada um dos sepulcros. Fui enfeitando com enleio e esmero a todos que ali dormiam. Depois, chegando a casa, tive que ouvir dos meus pais que tudo fora perda de tempo, que as sepulturas do Everaldo e da Elenice não mais existiam, que família pobre não comprava sepultura.

Lembro tudo isso e compreendo. Compreendo o menino no seu amor pelos irmãos mortos, mas para sempre vivos. Compreendo as amargas e familiares palavras, quando lamentavam as diferenças que atravessam a todos nós numa sociedade impiedosa.  Se todos morremos, eu me perguntava, por que não termos todos um espaço próprio para dormirmos eternamente?

Hoje sei de mais coisas. Sei, por exemplo, que não se tem lugar nunca na existência. Que é ela, a existência, um deslugar. E não estou falando da vida terrena apenas. Estou falando do cosmos, da vida material e espiritual, dessa vida ampla que me parece sempre resumir-se em afoitezas, buscas, felicidades e também em angústias e tristezas. Viver e morrer são fatos que para nós se mostram sempre em deslugares, em tensões, em cordas bambas sobre precipícios.

Discurso de um ruminante amoroso

14 de Agosto de 2013, por Evaldo Balbino 0

Fazer literatura, como tudo na vida, é um dom. É uma dádiva poder juntar palavras e construir imagens, surpreendendo os olhos, os ouvidos e a mente do leitor ou do ouvinte. Escrevendo, levo as pastagens que recolho nas planícies da vida para os olhos de leitores que também necessitam dessas pastagens.

É dom sim o ato de escrever, que, no entanto, deve ser trabalhado ao longo da vida como qualquer outro dom. Escrever é uma sina, é fatalidade, mas sem dúvida alguma é uma constante procura.

Uma crônica, por exemplo, não se faz assim, de pronto. Ela é algo que se constrói aos poucos, um bocadinho a cada dia. Isso se pode dizer de uma crônica, de um poema, de um conto, enfim de todo e qualquer texto, mormente daqueles em que a vida vibra. Em todo escrito em que se deseja a vida vibrando, a construção é lenta, morosa, sem fim. Tudo é um romance inacabado. Tanto a vida quanto a escrita são infindáveis.

Quando se senta para escrever, as ideias incansáveis no ato de ruminar já pastaram e estão pastando as coisas da vida, de todas as vidas. E como são longos os pastos! Estendem-se para longes inalcançáveis, para horizontes que não terminam em corcundas montanhas. Para além, sempre mais para além, os pastos da vida se nos dão, se nos ofertam fartos de coisas para nos alimentarmos regalados. E o nosso alimento há de ser tão vário: a delícia e a dor são o nosso cardápio, o nosso pão cotidiano.

Já que estamos na vida, somos gados em seus pastos, e não há como nos destacarmos da relva, dos cerrados, das estepes ao longe compondo um cenário a ser lido. Ler o mundo e escrevê-lo é também ler a nós mesmos.

E se os pastos se chegam tão pertos de quem escreve e de quem lê, é porque suas lonjuras, suas distâncias que nossas mãos não pegam, são tão nossas que reverberam no que somos, no que sentimos. Tudo reverbera em nós e, apesar disso, não se pode segurar o que é tão confuso.

Incapazes de tocar o que aparentemente está perto, nossas mãos também não pegam as distâncias. No entanto insistem no afã de pegá-las, pois queremos sempre nos entender. Escrever e ler são, entre outras coisas, busca de entendimento. São atos pelos quais palmilhamos os caminhos tortuosos da vida numa tentativa de planuras, de linhas retas para compor nossos passos. Eu sei que todo esse desejo de geometria é só desejo, pois tal meta é inatingível. Mas que importa essa consciência, se o que vale é escrever, e ficar na tentativa mesma de entender? Vale o ato de nadar em águas profundas, mesmo sabendo que o que vemos são as superfícies de tudo, as nossas cascas tão pobres, tão cheias de falta de conhecimento.

Os que escrevemos estamos no mundo também para isto: para levar aonde possível for o que é belo como a arte e necessário como a vida. Falo aqui da beleza da arte, que engloba também toda a feiura da vida. Se não for assim, a própria vida não tem sentido. Por isso também escrevo. Por isso sempre faço da escrita uma possibilidade de amor, um jogo de criança infindável e inabalável.

Para escrever é necessário ter disposição. A escrita não vem a esmo, à toa, como se um espírito estivesse ditando algo lá no nosso inconsciente. Isso deve ocorrer, imagino, na psicografia. Para fazer literatura, contudo, o escritor tem que dominar a escrita, tem que saber do que está falando. É lógico que alguma coisa sempre vai escapar, que o texto sempre vai dizer mais do que o autor quis dizer. E o dito a mais sempre é mais do que se esperava. No entanto, apesar do que lhe escapa, o escritor busca dominar o que escreve, tenta olhar para cada palavra, escolhe uma e não outra. Às vezes, são as palavras que o dominam. Mas isso não importa.

Não importa que às vezes as palavras me dominem, pois entre seres amantes não pode haver esses negócios de discriminação. Os comércios do amor determinam, mesmo que não queiramos, todo tipo de desordem. E assim, nos interstícios das relações amorosas, caça e caçador, dominador e dominado são uma coisa apenas. E se tais funções não chegam a se confundir em alguns momentos, elas certamente, na maioria das vezes, alternam-se no ato de amar.

Pois do mesmo modo escrever é isto: um ato de amor. Um amor conturbado, mas pleno. Um ato solitário quando estou aqui, fazendo minhas garatujas. Um ato ermo e só, porém tão perto dos bulícios do mundo! Não posso me afastar, como já sugeriu uma vez o nosso Olavo Bilac, do “estéril turbilhão das ruas”. As ruas não são estéreis, e o nosso poeta já bem o sabia. Tudo são artimanhas do discurso, que sempre diz mais e mais. As ruas são produtivas nos seus rumores.  E escrevendo, neste meu ato solitário e solidário de amor, desejo comungar com o mundo inteiro a vibração maravilhosa da vida.

In (feliz) Ano Novo, aquele

09 de Julho de 2013, por Evaldo Balbino 0

A mãe mexia no tacho o arroz-doce quase pronto. Um cheiro bom subia para o ar e entrava nas narinas gulosas do menino. Enquanto a alquimia ia sendo milagrosamente realizada, ele olhava as mãos da mãe na faina e ia pensando que o doce daquele arroz no tacho só perdia para a doçura das mãos que o preparavam. As mãos da sua mãe eram mais doces até mesmo que o mel emanado da terra prometida no deserto para o povo hebreu em fuga do Egito.

O menino tinha nariz atento e ouvidos perspicazes. E ele se lembrava de ter ouvido várias vezes, na igreja, exortações sobre uma terra prometida muito antigamente para um povo nômade. Uma terra onde leões e cordeiros apascentariam juntos, as animálias e os humanos seriam companheiros inseparáveis, as árvores dariam seus frutos, a natureza reinaria plena e ninguém choraria suas dores nem as dores alheias. Essa seria uma terra onde não haveria choro nem ranger de dentes, pois as dores desapareceriam dela. Mesmo deslumbrado com terra assim tão doce, o menino à beira do tacho ainda achava que as mãos da mãe é que eram as mais doces de todo o universo.

E agora aquelas mãos faziam um arroz-doce, luxo a que se davam todos os da sua casa em dias de Ano Novo. Então, mais uma vez, a mãe foi para o fogão como sempre, e o menino ficou empertigado, esperando pela hora do manjar. E ali, aguardando, ele não saberia nunca dizer o que era mais doce: se acompanhar a feitura da iguaria ou se comê-la.

Desta vez a chuva caía fina lá fora. De mansinho, sem raiva nenhuma, abrindo um ano sem nenhum estardalhaço. Era uma chuva sem bátegas, mas goteiras contínuas desciam serelepes das telhas de barro da cozinha e iam bater no telhado mais abaixo lá da varanda sobre o quintal, um telhado sem-vergonha de amianto, bem chinfrim mesmo.

O menino ouvia a chuva cantando sobre a casa e lavando as ruas da infância, enquanto ele namorava a mãe e o arroz-doce. Vontade de caminhar e correr na enxurrada, ele não tinha agora. Sua vontade era mesmo estar ali, ao lado da mãe, esperando docemente pelo que era doce. Esperando, não pela Terra Prometida, mas aguardando aquele doce que lhe seria ofertado nesta vida mesma, neste nosso cotidiano maravilhoso.

A mãe cantava músicas sem fim. Cantava e também contava histórias para ele. Embalado por melodia tão sublime, o menino confundia a voz materna com o canto da chuva lá fora. Mãe e água eram uma coisa só, úmida e aconchegante.

Eis, entretanto, que de repente um som outro veio interromper a harmonia que reinava na cozinha. O pai do menino entrou espavorido, dizendo que o Carlinhos, um garoto da vizinhança, estava soterrado nas terras em lama do barranco de lixo. O pai buscava por uma enxada para ajudar os homens que, debaixo da chuva, tentavam tirar a vítima ainda viva daquele lamaçal.

O barranco de lixo era o cartão-postal que todos daquele bairro de periferia tinham que ostentar na cidade. Era o regalo que a Prefeitura dava cotidianamente aos moradores das margens. Ele, o menino, até que gostava do barranco, pois lá dentro já tinha achado muitos brinquedos, velhos na verdade, mas ainda prestáveis. E quem ousasse entrar no bairro tinha que atravessar uma nuvem de fumaça fedorenta, de lixo queimando sem cessar, de restos da cidade sendo carbonizados pouco a pouco.

O Carlinhos aproveitara a chuva contínua, o fogo do barranco meio apagado, e fora lá dentro do precipício para buscar pneus velhos com que pudesse brincar. E o que ele tinha encontrado foi uma catástrofe: a terra muito molhada passara por um deslizamento e descera sobre ele e sua infância.

Muitos da pequena cidade acorreram ao local. A chuva persistia, e mais desmoronamentos poderiam vir. Os homens lá embaixo trabalhavam com enxadas nas mãos, buscando pela vida perdida entre pedra, lixo e lama. Foram horas aquelas de terror e medo, de percepção de que a vida é mesmo frágil e de que a morte não escolhe idade. Tanto não escolhe, que o Carlinhos foi tirado morto de debaixo da lama. Um corpo já sem alma, enterrado vivo quando o que ele buscava era somente um brinquedo. Quando o que ele buscava era somente a vida.

Desfeita a confusão de pessoas, o menino, a mãe e os demais irmãos voltaram desolados para casa. O pai tinha ido com os outros homens, levando o corpo bambo do Carlinhos para a Santa Casa. Já estava morto, mas tinham que seguir alguns rituais de praxe. Seria feita até mesmo uma autópsia.

Chorando na cozinha, a mãe foi encontrar o arroz-doce esquecido e todo queimado no tacho. E ele, o menino que esperava pelo doce, foi para o quarto dos pais triste como nunca. Foi para lá e ficou olhando, sobre a cômoda da mãe, aquele grosso livro de capa preta prometendo uma terra que mana leite e mel.