Terra natal de Carmen Miranda tem planos de ampliar Museu Municipal que leva nome da artista

Município de Marco de Canaveses fica a 50 km da cidade do Porto, com fácil acesso, e já é muito procurado por turistas brasileiros.


Cultura

José Venâncio de Resende0

Sequência de fotos do acervo/espólio de Carmen Miranda.

Um espaço moderno, de maiores dimensões e mais atrativo, “que dê resposta ao espólio cultural que o município dispõe, e sobretudo ao espólio e à memória da diva Carmen Miranda”. É o que pretende Cristina Lasalete Cardoso Vieira, presidente da Câmara Municipal de Marco de Canaveses (equivalente a Prefeitura, no Brasil) - ela quer iniciar, ainda este ano, as obras de adequação da infraestrutura que resultará no novo Museu Municipal Carmen Miranda. “É nosso desejo que as obras se iniciem o mais rapidamente possível, estando no entanto dependentes da autorização necessária, porque se trata de uma obra cofinanciada através de candidatura a fundos estruturais.”

Maria do Carmo Miranda da Cunha nasceu em 9 de fevereiro de 1909 na freguesia de Várzea de Ovelha e Aliviada, concelho de Marco de Canaveses. Com menos de um ano de idade, embarcou para o Brasil na companhia dos pais José Maria Pinto da Cunha e Maria Emília de Miranda e dos irmãos Olinda e Mário. No Rio de Janeiro, a pequena “Bituca”, como era chamada, iniciou a sua carreira artística, depois transferiu-se para os Estados Unidos e conquistou o mundo dando uma nova dimensão ao samba brasileiro.

Quem visita o Museu, encontra o acervo/espólio de Carmen Miranda distribuído num espaço bem apertado. Ali estão reunidas peças como vestido, colar, turbante e sapatos; réplica das roupas usadas em desfiles de carnaval (no caso, carnaval da Mealhada que se inspirou nela); filmes e documentários; fotografias originais; vinis; jornais e revistas da época; selos editados no Brasil e nos Estados Unidos; medalhas comemorativas; pinturas; livros (inclusive uma edição portuguesa da sua biografia por Ruy Castro); a música “Dreamworld Marcos Canaveses” (português e inglês), composta em 1998 por Caetano Veloso e David Byrne; e manuscrito (carta), entre outros.

O espólio é enriquecido com os melhores trabalhos desenvolvidos pelos alunos do Município no concurso anual de expressão plástica, realizado há 13 anos em fevereiro para comemorar o nascimento de Carmen Miranda. Também vai para o Museu o melhor trabalho do Prêmio Carmen Miranda, realizado há 11 anos entre julho e agosto (altura da morte da artista).

O Museu está instalado num prédio ao lado da Biblioteca Municipal, que ficou pequeno para acomodar o acervo/espólio e atividades culturais relacionadas, explica Cristina Vieira. “O projeto implica a reabilitação integral de dois edifícios que se encontram lado a lado e a construção de um novo edifício que una ambos de modo a tornarem-se numa só infraestrutura que será o renovado Museu Municipal Carmen Miranda. O desafio é grande porque estamos a falar de dois edifícios lindíssimos e muito antigos. Teremos de renová-los mantendo a traça original.”

“Museu dinâmico”

A Biblioteca ganhará novas instalações, a serem “brevemente” construídas perto do Museu, acrescenta Cristina. Além de mais espaçoso, pretende-se que “o novo Museu seja dinâmico, um museu de som e imagem, e se constitua um ativo na transformação da sociedade. Queremos torná-lo apelativo e uma referência no País, a pensar no público que nos chega de todo mundo”.

Assim, está prevista a instalação de meios auxiliares de exposição, com recurso a novas tecnologias em substituição aos equipamentos tradicionais, revela Cristina, “e tendo em conta o cariz de espetáculo de Carmen Miranda e a sua jovialidade. Passaremos a contar com exposições com recurso a vídeo, hologramas, videomapping no exterior, instalações interativas, realidade virtual, etc.” Há ainda a intenção de aumentar o acervo Carmen Miranda, “que continuará a ter o seu espaço de privilégio no futuro Museu, mas tal resultará de importantes negociações”.

O projeto propõe-se que o complexo seja interativo, explica a presidente da Câmara Municipal. “Pretende-se trazer o mundo exterior para o interior, e vice-versa, provocando uma relação entre a cidade e o Museu. Para além da entrada de serviço e da entrada do bar/cafetaria, prevê-se a retirada do gradeamento existente, o rebaixamento do muro, que tem uma altura considerável agora, e a abertura franca da entrada principal de forma a poder trazer o equipamento para o exterior, abrindo-se à comunidade.”

Além do espaço expositivo, haverá espaços multiusos, espaços de convívio e social (bar/cafetaria) e Espaço de Serviço Educativo. O bar/cafetaria terá uma possibilidade de acesso direto a partir do exterior, uma vez que é previsto um acesso, por intermédio de escadas, junto à Alameda Dr. Miranda da Rocha, uma das zonas de lazer mais procuradas pelos marcuenses no centro da cidade. A Loja Interativa de Turismo será trasnferida para o edifício do novo Museu, devendo estar aberta também ao fim de semana.

Atração turística

Por ser Carmen Miranda uma figura mundial, muitas pessoas, principalmente brasileiros, procuram Marco de Canaveses para visitar o Museu e saber mais sobre a artista “Pelo interesse que tem no Brasil, pela figura até icônica de Carmen Miranda na cultura brasileira, são em grande número os brasileiros que nos procuram para visitar o Museu”, conta Cristina. “Podemos dizer que, entre os estrangeiros, são os brasileiros que mais procuram o Museu Municipal, até pela novidade do nascimento de Carmen Miranda em Portugal, no Marco de Canaveses.”

Dos 3.478 visitantes ao museu, em 2017, 50% eram formados por grupos e escolas, 30% por visitas ocasionais da população local e 20% por turistas brasileiros.

Ao longo do tempo, o Município procurou desenvolver diversas atividades relacionadas com a personagem. O destaque dessa agenda cultural foi a comemoração do centenário de Nascimento da artista (2009), com a realização de dois concursos: um dedicado às escolas do Município e outro internacional – “Prêmio Carmen Miranda” – aberto a todas as formas de expressão artística.

Plano estratégico

Ampliar as atividades culturais e o número de visitantes faz parte do plano estratégico que o museu deverá ganhar, a partir de colaboração da Câmara Municipal com a Direção Regional de Cultura. Segundo Cristina Vieira, “objetivamente, ao investirmos num novo museu, temos todo o interesse no aumento dos visitantes, não apenas no contexto local, mas também aberto aos cidadãos estrangeiros numa perspetiva de aumentar o próprio fluxo do turismo, que não podemos ignorar, e o reflexo que tal terá na economia local e regional”.

Uma ideia é estabelecer protocolos com organizações ou empresas privadas, “que poderão permitir ao Museu levar a cabo a sua missão e praticar estratégias destinadas à captação de públicos, como a gratuitidade, com sustentabilidade”, exemplifica Cristina. “Ao procurar estabelecer protocolos que resultem, por exemplo, na troca de obras que possibilitem a construção de narrativas entre duas cidades ou mesmo dois países, o Museu pode beneficiar também da já mencionada reputação por associação.”

Símbolo

A partir do Brasil, Carmen Miranda conquistou o mundo com o seu gênio irreverente e sua aptidão artística. Em seus escritos, o jornalista Antônio Monteiro Novais (Sanhudo)* define Carmen Miranda como um “símbolo do abraço e de fusão de povos, do encontro de cultura e paixões e, por ultimo, da alma alegre e vibrante duma civilização, toda voltada ao ritmo intenso e alegre de uma paisagem apaixonante e dum clima febril”.

Assim, Sanhudo descarta que a carreira de Carmen Miranda tenha tido apogeu (“não pode haver apogeu sem ocaso”). Também considera que ela “não é nem poderia ser um mito, com algo sequer do que de irreal tem o que é místico”. Com “ascensão rápida, vertical, imparável”, a “Embaixatriz do folclore brasileiro” triunfou no Rio de Janeiro, em Hollywood e na Broadway.

Ainda adolescente, Carmen Miranda começou como modista de chapéus, conta Sanhudo. “Chapéus de gosto exótico, por vezes improvisados, de tudo fizeram as suas mãos hábeis.” Era comum vender na rua o chapéu que usava, e assim voltava à casa para improvisar outro para si. Muitos dos seus lendários trajes e turbantes eram assim pensados e confeccionados.

E prossegue Sanhudo: “Mãos hábeis, mãos graciosas, mulher apaixonante, exuberante de alegria, de graça, de movimento e de arte. Artista que deu ao samba uma dimensão diferente, que o explorou até o transformar em algo que só ela própria podia figuradamente definir, dançando, cantando… sambando de verdade.”

A sua estreia oficial enquanto cantora aconteceu a 7 de fevereiro de 1929, dois dias antes de completar 20 anos, no Instituto Nacional de Música, num festival em benefício da Policlínica de Botafogo.**

“Rapidamente, a inconfundível voz de Carmen Miranda, cuja lembrança vive no coração e na memória das gentes do Marco de Canaveses, projeta-a para uma carreira promissora e encanta o Brasil, a Broadway, Hollywood e o Mundo. Dez anos depois de se apresentar pela primeira vez ao grande público, Carmen Miranda viria a seduzir a Broadway e deixar também a América aos seus pés.”

A “Pequena Notável”, como era conhecida entre os brasileiros, embarcou numa vida cheia de glamour e viagens constantes para filmagens, shows e digressões por cidades americanas e pelos principais países da Europa.

Economia

Marco de Canaveses situa-se a noroeste de Portugal, no Douro Litoral, a 50 km da cidade do Porto e com fácil acesso por carro e comboio (trem). O município tem uma população ao redor de 54 mil habitantes, num concelho que reúne 16 freguesias distribuídas em área de cerca de 202 km2. É banhado pelos rios internacionais Tâmega e Douro, além da serra da Aboboreira que permite explorar o turismo de natureza.

Marco de Canaveses é retratado pela excelência dos vinhos verdes produzidos nas quintas locais. Entre as atividades principais, destacam-se ainda as indústrias de exploração e tratamento de granito, têxtil, de construção civil e metalúrgica.

Assim, o turismo não é a principal atividade do Município, “mas um dos objetivos do atual executivo municipal passa por criar condições para aumentar a sua importância, pois temos condições para isso”, assegura Cristina Vieira. “Em Portugal, tem se falado muito no estrangulamento que o turismo está a provocar nas grandes cidades, sobretudo Porto e Lisboa. Estamos no tempo de deixar fluir para outras cidades esses milhões de pessoas que todos os anos aterram nos nossos aeroportos.”

*Carmen Miranda, Marco de Canaveses, Cadernos Monográficos, III, MCMLXXXI, Instituto Português de Heráldica da Academia Portuguesa de Ex-Libris da Ordem dos Templários.

**Jóias da Terra de Carmen Miranda, Câmara Municipal de Marco de Canaveses.

 

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