Crônicas do Cotidiano

As cores da burocracia

16 de Marco de 2017, por Rafael Chaves 0

Há um surto de febre amarela ocorrendo e dizem que é devido ao desastre ambiental patrocinado pela empresa Samarco, em Mariana. A lama marrom matou o Rio Doce, que matou os peixes de escamas prateadas e sapos verdes que se alimentavam de mosquitos de patas listradas de negro e branco - os transmissores - e suas larvas. Não confirmei a notícia, que alguém dirá ser informação tendenciosa da imprensa vermelha, mas minha massa cinzenta acredita nessa hipótese. Que eu saiba, nenhum dos responsáveis de colarinho branco viu o sol amarelo radiante nascer quadrado.

Zé descobriu que teria de se vacinar contra a Febre Amarela para viajar para o exterior. Precisaria emitir um tal de Certificado Internacional de Vacinação e Profilaxia – CIVP. Zé mora no interior, entre as montanhas verdejantes de Minas, montanhas ainda livres das mineradoras que lhes roubam a forma e a essência e deixam desastres ambientais. Porém, Zé desvendou que o site da ANVISA lhe daria toda a assistência para conseguir o tal Certificado.

Passo 1 – tomar a vacina gratuitamente nos postos do SUS ou nos serviços privados credenciados.

Até aí tudo azul!

Zé procurou um serviço do SUS, setor de vacinação, logo de manhã:

- Senhora, estou precisando tomar vacina contra Febre Amarela...

- Aqui não tem vacina, mas chegará à tarde nos postos da cidade, a partir da uma da tarde.

A atendente informou alguns postos e Zé, à tarde, procurou o mais próximo de sua casa:

- Senhora, estou precisando tomar vacina contra Febre Amarela...

- Você tem senha?

- Que senha?

- Cartão alaranjado com um número...

- Não, não tenho. Onde consigo?

- Alguém está distribuindo...

E Zé descobre que só distribuíam dez senhas de manhã e dez à tarde. Que teria de acordar de madrugada para pegar fila. Apesar dos argumentos de Zé, a atendente foi taxativa:

- Eu não trabalho depois das quatro! Se você quiser esperar, problema seu. Não assumo compromisso nenhum, fica a seu critério.  Eu não trabalho depois das quatro, eu não trabalho depois do horário! Eu não trabalho depois das quatro!

Zé, meio branco de indignação, saiu à procura de outro posto. Só começariam a vacinar no dia seguinte. Zé foi ao quarto posto. Em dez minutos estava imunizado. Zé fez as contas: dez minutos vezes dez pacientes igual a cem minutos. Aquela enfermeira loura falsa do primeiro posto que não trabalhava depois das quatro gastava duzentos e quarenta minutos. Quatro atendimentos diferentes para o mesmo serviço: um neutro, um péssimo, outro médio e outro excelente.

Enfim, sinal verde para a próxima etapa.

Passo 2 – Realizar o pré-cadastro na ANVISA.

Tranquilo como uma manhã de céu azul de domingo.

Passo 3 – Comparecer ao estabelecimento que emitirá a CIVP.

Zé descobre que não existe este estabelecimento na sua cidade, lá no interiorzão. Os postos da ANVISA só existem em capitais praticamente. Mas a ANVISA credencia postos privados e Zé encontra um a cem quilômetros e parte para resolver:

- Boa tarde! Eu vi aqui no site da ANVISA que vocês emitem CIVP, não é?

- Sim, emitimos.

- Ah, e quanto que é?

- A vacina é R$120,00, mas o CIVP é de graça.

- Ah, mas eu já tomei a vacina.

- Mas só emitimos CIVP para quem toma vacina aqui.

- Então eu tomo outra.

- É, mas a vacina está em falta.

- Uai, e a vacina tomada em posto público não vale não? Ela não imuniza não?

- Não sei, senhor, mas nós não emitimos CIVP para vacina tomada fora daqui não.

Passo 4 – (Não consta do roteiro da ANVISA)

Zé entra em contato com a Ouvidoria da ANVISA, vocifera contra a burocracia, reclama que dificultam a vida do cidadão, pede explicação da razão de credenciarem postos privados (pagos) e não os públicos, pergunta o motivo de a vacina tomada em posto público não valer em posto privado e diz que está vermelho de raiva.

- Raiva? Vacina de raiva não é aqui não, senhor.

O dilema

19 de Janeiro de 2017, por Rafael Chaves 0

Para ficar no nosso idioma, quão hercúlea deve ter sido a tarefa de Camões para escrever 1.102 estrofes, 8.816 versos e em decassílabos? Para ficar no Brasil, como terá Guimarães Rosa escrito as cinco centenas de folhas do Grande Sertão – Veredas? Para ficar em Minas, onde Carlos Drummond encontrou sua pedra no caminho entre tantas montanhas? Para ficar em Resende Costa, quantas teias terão tecido as aranhas para tramar as histórias de José Antônio?

Eu sempre me sinto sem recursos diante do meu cotidiano. Escrever não é fácil. Quero apenas contar um caso, dar uma opinião e encontrar o meio de descrever. Este é sempre o meu dilema.

Sei que descobri o 1000ton - isto mesmo, o Milton se escreve 1000ton - por acaso. Eu precisava cortar o cabelo e alguém me disse:

- Porque você não vai no salão do 1000ton? – e continuou dizendo que fulano, sicrano e beltrano cortavam cabelo lá, que ele era muito bom...

Fui. E continuo indo até hoje.

Da primeira vez estranhei a fila. Sempre que se vai no 1000ton tem pelo menos uns cinco na sua frente. Mas homem também adora fazer os mais diversos comentários em salão e o tempo passa rápido. 1000ton é eficiente, ágil e competente:

- O de sempre? – pergunta.

Você só tem de dizer como você quer da primeira vez, ou se mudar o corte, senão você vai sair de lá com a aparência que sempre quis.

O caso é que lá pela terceira ou quarta vez que eu ia lá encontrei um aviso fixado na parede: “Prezado Cliente, pedimos sua compreensão, a partir de maio o valor do corte passará a ser R$10,00. A Gerência”.

Uai, pensei, que gerente seria esse que eu nunca havia visto no salão? O 1000ton, é público e notório, é o único proprietário, o único cabeleireiro, o único faxineiro, o único cobrador do Salão do 1000ton. 1000ton é um “self-made man” especialista em cortes masculinos que não responde a ninguém, senão a si próprio. Não resisti e perguntei:

- 1000ton, estou lendo este aviso aqui. Olha, primeiro é o seguinte, o gerente está pedindo a compreensão, mas eu não posso compreender como o corte de cabelo vai passar de R$8,00 para R$10,00, um aumento de 25%, se a inflação do ano foi de menos de 5%. Segundo, 1000ton, chama o gerente que eu quero reclamar com ele.

O aumento vingou e o gerente nunca deu as caras. Ninguém mais reclamou. Faz quase dois anos que o corte está o mesmo preço. A verdade é que o 1000ton edita e tem suas próprias regras e incorpora suas personalidades conforme a necessidade. Foi desse modo que o gerente decidiu reajustar o preço e, logo depois, desincorporou. E o 1000ton cabeleireiro continua a fazer a cabeça de muitos homens em Resende Costa.

Meu cotidiano é rico e inspirador. Encontro rimas nas palavras; sei de romances e histórias – às claras e às escondidas -; Resende Costa altaneira está erguida sobre a pedra; e tecelões anônimos em suas casas dão forma e utilidade em retalhos coloridos.

A dificuldade é minha, a culpa é minha de não saber escrever o que eu quero e da forma que gostaria. Esse meu dilema! Fosse uma epopeia, um romance, um poema, uma crônica. Quem me dera Camões, Rosa, Carlos ou José Antônio, quem me dera! Embora eu sempre quisesse contar o caso do 1000ton, desculpe 1000ton, o que eu gostaria mesmo, hoje, era de comentar sobre Fidel diante de sua morte recente – uma personalidade que é referência para a história mundial – ou protestar: Fora Temer! – uma personalidade que é uma desgraça para o Brasil. Tenho dito.

O aposentado e o marido de aluguel

17 de Novembro de 2016, por Rafael Chaves 0

Pois bem, Zé se afastou do trabalho para se aposentar do serviço público depois de cumpridas todas as exigências previdenciárias, garantindo-se paridade e integralidade dos rendimentos.

Poucos dias depois de afastado, Zé descobriu que não tinha nada a fazer em casa, senão aturar a mulher – e esta a ele. Nem fora de casa. Zé não bebia, não jogava cartas, não gostava de futebol e, talvez por isso mesmo, não tivesse amigos. Zé não tinha chácara com plantas e bichos para cuidar. Os filhos, adultos, tinham se arranjado na vida e picado a mula. Zé tinha passado as últimas quase quatro décadas dando expediente na repartição e esqueceu-se de que haveria outra vida além daquela a que se entregara de corpo e alma.

Passados uns três meses, a vida de Zé virou um inferno. O ócio caseiro com o qual sonhara tornou-se incompatível com a tagarelice diuturna da mulher, que, para piorar a coisa, sempre lhe mandava fazer alguma coisa:

- Zé, troca a lâmpada da varanda que tá queimada!

- Zé, vai no supermercado pra mim, o café acabou!

- Zé, o telefone não está funcionando direito. Vê lá o que está acontecendo, Zé!

- Zé, suas roupas estão uma bagunça! Você bem que podia dar uma ajeitada no armário. Pelo menos isso, né Zé?!

Zé, então, tomou uma decisão difícil. Foi à repartição, pediu para cancelarem seu pedido de afastamento – a aposentadoria ainda não havia sido homologada – e voltou à atividade. Zé concluiu que era melhor passar seus dias na repartição mesmo. Ainda mais com o direito a um aumento na remuneração, o pé-na-cova, uma gratificação aos que, com direito de se aposentarem, resolvem continuar na ativa.

Quando questionado sobre sua decisão, Zé não se fazia de rogado e reclamava da mulher.

- Você deveria ter dado uma passagem para ela ir se divertir no Afeganistão – insinuou um colega de trabalho.

- Só de ida – emendou outro.

- E uma burca – sugeriu um terceiro.

E riam divertidamente e em algazarra de suas tiradas.

Entretanto, as coisas começaram a ficar mais difíceis para o Zé. A repartição, como Zé, ficou velha e também meio vazia. Muitos de seus colegas, que tinham outros interesses na vida, ou amigos, ou chácara para cuidar, se aposentaram definitivamente. A tecnologia havia suprimido quase que permanentemente o carimbo. O governo, sob os mais diversos argumentos, não fazia concurso público para repor o quadro de pessoal. Enfim, Zé tinha que trabalhar e mostrar serviço. Os bons tempos tinham ficado para trás.

Logo depois de voltar à ativa, a vida laboral de Zé virou um inferno. Chegou a cismar que o chefe lhe perseguia, implicava com ele:

- Zé, atende o balcão!

- Zé, faz o inventário!

- Zé, ajuda lá na conferência!

- Zé, distribui o malote!

Como Zé não podia mandar o chefe para o Afeganistão decidiu se afastar do serviço de uma vez por todas.

Entretanto, tampouco a mulher ele poderia mandar para o Afeganistão.

Zé matutou alguns dias até encontrar a solução num anúncio de jornal. Marido de aluguel, oferecia o anúncio. O sujeito se prontificava a fazer os serviços domésticos masculinos. “Maravilha, vou ter paz”, pensou Zé, contratando imediatamente o indivíduo.

Se no princípio o marido de aluguel comparecia uma ou duas vezes por semana, uma ou duas horas por dia, aos poucos o serviço foi aumentando. As visitas então passaram a ser diárias e se estendiam por quase todo o dia. Os aparelhos queimavam, as fechaduras enguiçavam, as lâmpadas queimavam, a pintura sujava, os canos entupiam, tudo inexplicavelmente. A única coisa que ficava cada dia melhor era a própria mulher de Zé que, repentinamente, passou a se cuidar: salão de beleza, maquiagem, roupas da moda, dermatologista e até cirurgião plástico... E a expor seus predicados: curvas salientes, pernas lisas, boca carnuda, seios empinados...

- Zé, porque você não faz uma viagem? – Sugeriu ela, enquanto dirigia um olhar 43 e um sorriso malicioso para o marido de aluguel. “Bem que podia ser para o Afeganistão”, sonhou ela.

O Abaporu

16 de Setembro de 2016, por Rafael Chaves 0

O Abaporu não é um homem que come gente, conforme possa parecer à primeira vista, pela etimologia da palavra. É um homem aparentemente meditativo sobre sua condição, sentado em uma pedra, porventura tentando, inutilmente, refugiar-se à sombra de um cacto do sol tropical que insiste em arder seu corpo nu e disforme.

O Abaporu é um quadro. Se Tarsila do Amaral o pintou com a intensão de minha descrição, só ela o poderá confirmar. Fato é que a pintura é um ícone do Movimento Antropofágico que sacudiu a arte brasileira na primeira metade do século XX e é considerada a tela brasileira mais valorizada no mundo. Em 1995 foi adquirida em um leilão aberto a todos por um empresário hermano argentino. Então, os brasileiros que quiserem ver de perto o Abaporu terão de ir ao Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires, MALBA, onde é exposto.

Vira e mexe o inconformismo de o quadro ter se tornado propriedade argentina vem à tona. Afinal, como pode uma obra brasileira de tamanha importância e significância ocupar o lugar central de um museu argentino?

Recentemente o quadro nos foi “emprestado” para exibição durante as Olimpíadas. Outra oportunidade de, mais uma vez, o complexo, o recalque e rebeldia brasileiros serem divulgados em notas de jornais e revistas.

Nada contra os hermanos argentinos! Que mal haveria a eles se um empresário brasileiro adquirisse a obra de Astor Piazzolla de tal modo que, para ouvir um tango, tivessem eles que vir ao sambódromo do Rio de Janeiro? Que mal haveria a eles se o Messi se naturalizasse brasileiro e fizesse dupla com Neymar na seleção canarinho? Nenhum! Mas o contrário, que Tom Jobim e a bossa nova se tornassem argentinos e fossem apresentados ao mundo no Teatro Cólon ou Neymar argentino, sendo instruído por Maradona no La Bombonera, isso não! De jeito nenhum!

A origem de toda essa pendenga, por óbvio, foi a aquisição da obra por um empresário argentino. Nas palavras dele, não houve interesse de brasileiro pela obra. Isto me fez pensar: a história poderia ser diferente se um empresário brasileiro tivesse adquirido a tela no leilão, ou ainda se o empresário brasileiro que era proprietário da obra antes do fatídica arrematação a tivesse doado ou cedido a um museu brasileiro. Pensamento seguinte: onde estariam os ricos empresários brasileiros no dia da arrematação ou a quê interesses estariam vocacionados?

Ocorreram-me as seguintes hipóteses de onde estariam os milionários empresários brasileiros: 1) comprando um helicóptero; 2) comprando um jatinho; 3) comprando um iate; 5) comprando uma Ferrari; 5) comprando uma ilha; 6) descansando em um tour por ilhas, entre Maldivas, Mikonos, Santorini, Phi Phi, Ibiza, Maiorca, Taiti, Moorea e por aí afora; 7) abrindo uma conta num paraíso fiscal; 8) privatizando o social; 9) socializando o prejuízo...

Não sei exatamente quais ou se todas essas, ainda que algumas dessas por procuração, mas nada mais a mim lhes acudiu. Ajudem aí: o quê?; aonde?

Exceto por esses raros momentos em que nos emprestam, o jeito agora é ir mesmo até o país vizinho para jantar um bife de chorizo acompanhado de um malbec, de sobremesa um alfajor e, ato contínuo, ir ao MALBA para admirar o Abaporu. O Abaporu verde e amarelo encontrou sombra e água fresca em clima subtropical. O Abaporu, que não é comedor de gente, foi servido de bandeja a um empresário argentino pelos empresários brasileiros, que, ironia, se serviu.

O Álibi

17 de Setembro de 2015, por Rafael Chaves 0

Há coisas que acontecem que até Deus duvida.

Zé Alfredo e Adriano combinaram uma cervejada na quinta-feira, como faziam todas as semanas, para espairecer. Deram notícia de uma festa de igreja num povoado perto da cidade e se mandaram para lá. Em pouco tempo deixaram a barraquinha de víspora e foram dançar, que o forró comia solto no largo da igreja. E se engraçaram com umas meninas fogosas que também se engraçaram com eles. Nem bem terminou a primeira música e já estavam aos beijos e abraços com as assanhadas. E antes que terminasse a segunda dança, decidiram fazer coisa melhor atrás do caminhão que fazia vez de palco para a banda. E se atracaram.

Lá pelas tantas, Zé Alfredo e Adriano deram conta de que já era tarde e que suas esposas já deveriam estar nervosas com o atraso deles. Resolveram ir embora, não sem antes voltarem ao largo da igreja para uma última dança com as meninas. “O esporro das dez da noite e o das duas da manhã é o mesmo”, filosofou Zé Alfredo, imaginando o tanto que sua mulher ia esbravejar quando ele chegasse em casa.

Quando entraram no carro, antes que fechassem a porta do carro e a luz do teto se apagasse, Adriano avistou que Zé Alfredo estava com um chupão no pescoço. Zé Alfredo puxou o retrovisor, esticou o pescoço e se deu conta do estrago: uma marca vermelha arroxeada, do tamanho de um ovo bem abaixo da sua orelha. Zé Alfredo ficou branco de pavor, e quanto mais branco ele ficava mais vermelha a desonra se destacava.

- Vamos passar na casa de mamãe! – disse Zé Alfredo.

Zé Alfredo era ferreiro, artesão de dobradiças, ferrolhos, trincos, trancas e toda sorte de artefato de ferro. Moldava, torcia e retorcia o ferro em obras de arte, ardendo na boca da fornalha.

- Fazer o quê na casa da sua mãe a essa hora? – perguntou Adriano.

Foi de seu ofício que Zé Alfredo extraiu seu plano mirabolante. Quando chegaram na casa da sua mãe, Zé Alfredo foi direto à cozinha, acendeu a trempe do fogão, pegou uma colher e a pôs sobre a chama até ela se abrasar e a entregou a Adriano.

- Adriano, passa a colher no meu pescoço.

- Você tá maluco, Zé?! Acha que eu vou fazer isso, cara?

- Adriano, carai, você é meu amigo ou não é? Passa logo essa colher no chupão! – ordenou.

Zé Alfredo berrou de dor. E dolorido bateu à porta de casa, altas horas da madrugada.

A mulher de Zé Alfredo soltou os tamancos pra cima dele. E maldisse a cerveja e praguejou contra Adriano “essa cambada de amigo que você tem” e amaldiçoou todas as quintas-feiras e xingou e esperneou até dar notícia da queimadura no pescoço de Zé Alfredo.

- E o quê é isso aí no seu pescoço? – perguntou a mulher.

- Você não deixa eu falar. Tô tentando tem meia hora, mas você não para de falar...

- O quê é isso no seu pescoço? – insistiu a mulher, tombando o pescoço de Zé Alfredo e examinando de perto a ferida.

- Então, é por isso que atrasei. O cano de descarga do carro do Adriano soltou e eu fui concertar. Entrei debaixo do carro e quando eu estava tentando arrumar, o cano caiu. Tava quente pra caramba e caiu no meu pescoço.

A mulher de Zé Alfredo, condoída e consternada da dor de seu marido, ajeitou pomada e lhe fez curativo. Depois, deitados na cama, a mulher de Zé Alfredo lhe afagou os cabelos:

 

- Zé, faz mais isso não! - E lhe perdoou, pelo menos até a próxima quinta-feira.