Resende Costa (113 anos) – José de Resende Costa (pai) – Parte II
04 de Agosto de 2025, por Regina Coelho 0
Não é exagero afirmar que a maior parte dos resende-costenses descende do inconfidente José de Resende Costa (pai), ainda que não carreguem esses sobrenomes no registro de nascimento. Faço parte dessa maioria.
Junho de 2016. Com base no livro Trilha no passado, da resende-costense Vera Cruz Resende (minha tia), e decidida a trazer à tona um pouco da história do município a partir das famílias que aqui até então se formaram, acabei por enveredar pelos caminhos da minha própria genealogia pelo lado materno e, consequentemente, por conhecer melhor a origem da “Família Resende Costa”. Esse, aliás, o título do artigo para o Contemplando... daquela data, fruto desse levantamento pessoal e feito por ocasião dos 104 anos de emancipação política de Resende Costa.
Em se tratando do início desse tronco familiar em terras brasileiras, interessa destacar o patriarca português João de Resende Costa e sua futura mulher, à época da emigração deles para a nova colônia (Brasil) e de nome Helena Maria de Jesus. Ambos provieram do Arquipélago dos Açores. Ele, da Ilha de Santa Maria. Ela (uma das três lendárias ilhoas de que trata a nossa história) e as outras provieram de Faial. Os dois, entre outras pessoas, vieram para cá “em busca de melhores condições de vida”, como assegura Rosalvo Pinto em sua brilhante obra Os inconfidentes José de Rezende Costa (pai e filho) e o Arraial da Lage. E acrescenta o autor que a escolha da capitania de Minas Gerais como destino de paragem teria sido motivada pelas notícias do intenso movimento de mineração de ouro e diamante, que, em princípios do século XVIII, já estava em plena atividade no distrito das “Minas Geraes dos Cataguases”.
Da descendência de 15 filhos do casal Helena e José, por interesse óbvio, sobressai José de Resende Costa, nascido no território da então Capela de Santo Antônio da Lagoa Dourada, freguesia do Arraial dos Prados (atual Prados-MG). José casou-se com Ana Alves Pretto, com quem teve um filho de nome homônimo ao seu, e uma filha, Francisca Cândida de Resende, nascidos já no Arraial da Lage, para onde se mudou a família.
Ainda de acordo com a mesma fonte, “profissionalmente, JRC/P era capitão do Regimento de Cavalaria Auxiliar da Vila de São José del-Rei, com jurisdição sobre a Lage e Santa Rita (atual Ritápolis, MG) e um rico fazendeiro, proprietário da fazenda dos Campos Gerais da Lage, (...)”. E de uma casa no centro do Arraial da Lage (hoje propriedade de Domingos Sávio Pinto, o Savinho, contador).
Algumas informações em relação ao ambiente familiar vivido pelo conjurado Resende Costa chamam a atenção. Uma delas, a existência de uma “seleta” biblioteca em sua casa, ainda que não se tenha notícia de ter sido ele ligado a atividades intelectuais. Em vista disso, levanta-se a hipótese provável de que, já tendo enviado o filho para estudar no Rio de Janeiro, JRC/P teria montado tal acervo visando à preparação da ida do herdeiro para estudos em Coimbra (Portugal), o que não se concretizou em virtude do envolvimento de pai e filho na Inconfidência Mineira.
As implicações dessa outra história são amplamente conhecidas. Levados ao degredo, um e outro tiveram destinos diferentes. O mais novo, como se sabe, conseguiu voltar ao Brasil, onde refez com louvor sua vida. O outro, seis anos depois de sua chegada ao continente africano, sem cumprimento total da pena de dez anos, portanto, morreu em Ribeira Grande (Ilha de São Tiago – Cabo Verde aos 68 anos. Seus restos mortais encontram-se depositados desde 2011 no Panteão dos Inconfidentes, no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto.
NOTA - Para a escrita dos artigos de junho e julho deste ano, apropriei-me de material produzido por escritores nossos a quem foram dados os devidos créditos. Não produzi nada inédito. Tive apenas o propósito de trazer aos leitores do JL fatos já conhecidos por muitos, talvez esquecidos por alguns e, certamente, desconhecidos por quem não teve a oportunidade de saber algo que seja sobre a vida dos nossos dois históricos Josés.
Resende Costa (113 anos) – José de Resende Costa (filho) – Parte I
02 de Julho de 2025, por Regina Coelho 0
“Em certo ponto da Serra das Vertentes, ao norte de São João del-Rei/MG, há uma cidade que se ergue altaneira, qual sentinela dos Campos das Vertentes e que, de par com uma beleza invulgar do sítio em que se acha plantada, no ‘cimo da rocha’, ergue-se, imponente e dominante, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha de França. Esta cidade que tem uma história rica e de grande relevo, dentre todas as que constelam no universo das Minas Gerais, é o berço da Liberdade e se chama Resende Costa.” É dessa forma que Alair Côelho de Resende se manifesta inicialmente no seu Casos e causos do vovô Totonho da chapada ao se referir à sua terra natal.
E por que Resende Costa? Segundo o também resende-costense José Maria da Conceição Chaves (Juca Chaves), no Memórias do antigo Arraial de Nossa Senhora da Penha de França da Lage, atual cidade de Resende Costa, desde os proêmios de sua existência, até os dias presentes, “em 1º de julho de 1911, dirigiram os habitantes da Lage uma representação àquela Assembleia (Congresso Mineiro), pedindo a elevação do Distrito à Vila sem foro, com a anexação do Arraial do Mosquito – o futuro distrito de São Francisco Xavier – cuja criação se cogitava, e que ao novo Município fosse dado o nome de ‘Resende Costa’ em imperecível homenagem ao seu dileto filho e ilustre brasileiro Conselheiro José de Resende Costa”. Segundo ainda Chaves, a ideia de dar o nome do Conselheiro ao município que seria instalado no ano seguinte “partiu do respeitável patriota e lageano major Joaquim Leonel de Resende Lara, descendente da família daquele conjurado mineiro”.
A citação acima – “conjurado mineiro” – é uma referência a José de Resende Costa (filho), pois ele, sim, recebeu o título de conselheiro, considerando já sua volta ao Brasil, que ocorreu em 1809, “por ordem provinda do Rio de Janeiro, onde já estava a Corte Portuguesa”. Anos antes, em 1802, quando se completaram 10 anos de cumprimento da sentença que o condenou ao degredo por sua participação na Inconfidência Mineira, Resende Costa (filho) estava livre, mas proibido de voltar ao Brasil ou “à América”, como consta do termo de condenação e ainda parte da pena. Dessa forma, no ano seguinte, conseguiu autorização para se mudar para Lisboa, onde, no final de 1805, conseguiu ser nomeado para o cargo de escriturário do Erário Régio (instituição fiscal portuguesa criada em 1761).
Seu retorno à pátria se deveu a um chamado do Príncipe Regente, com a ordem para que trouxesse consigo todos os documentos do Erário relacionados à exploração e ao comércio do diamante. Para tanto, foi investido no cargo de administrador da fábrica de lapidação então implantada no Rio de Janeiro. Gradualmente, foi passando pelas funções de primeiro escriturário, contador-geral e escrivão da mesa do tesouro até 1827, quando requereu sua aposentadoria e recebeu o título de Conselheiro do Império.
Distinguido com muitas outras honrarias, JRC (filho) esteve presente na política brasileira e mineira e, em 1823, já proclamada a Independência, foi eleito deputado à Assembleia Constituinte do Brasil como representante de Minas. Em 1839, fundado o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, ainda no ano de sua criação, foi eleito seu sócio correspondente. No ano seguinte, sócio honorário.
A propósito da vida desse inconfidente lageano e do histórico 7 de setembro de 1822, Juca Chaves relata que “teve Resende Costa a ventura de assistir, em 1822, aos sublimes instantes da independência da Pátria, quando, enfim, adquiria o Brasil os foros de nacionalidade para entrar, definitivamente, no início da posição promissora que os tempos lhe reservavam no concerto mundial como muito bem pressagiaram os visionários de sua grandeza e protagonistas da memorável jornada de 1789”.
José de Resende Costa (filho) nasceu em 1765 no Arraial da Lage e faleceu em 1841 no Rio de Janeiro.
NOTA – As informações deste artigo até aqui sem crédito sobre JRC (filho) foram extraídas da obra Os inconfidentes José de Rezende Costa (pai e filho) e o Arraial da Lage, do resende-costense Rosalvo Pinto.
Um espelho da vida real
28 de Maio de 2025, por Regina Coelho 0
“Cada uma de nós lida com particularidades sociais e de raça que definem os obstáculos que teremos na vida. Mas o machismo afeta toda mulher. A estrutura patriarcal interfere no trabalho, na disparidade salarial, na dupla jornada entre profissão e família. Nós, mulheres, somos pressionadas a cuidar mais do interesse dos outros que dos nossos.” Essa é uma fala importante de Natalie Portman, atriz israelense em entrevista à revista Veja, ao se referir à Maddie, sua personagem em A mulher no lago, série da Apple TV+ sobre feminicídio e discriminação contra negros e judeus. Nesse papel, ela investiga a morte de uma jovem negra. As duas, vítimas do machismo, em diferentes graus. E Natalie diz ser esse um espelho da vida real.
Ela tem razão. Ah, o machismo! Postura que não faz distinção geográfica, entranhada ainda, em maior ou menor escala, nas variadas esferas sociais, por isso mesmo normatizada e até certo ponto resistente às mudanças que os tempos de agora impõem a todos. Em seu sentido mais comum, o machismo se expressa por opiniões e atitudes de quem não reconhece a igualdade entre os gêneros e dessa forma se posiciona em desfavor das mulheres. Sem ser apenas um comportamento individualizado, lamentavelmente, ainda é um sistema de crenças que permeia a sociedade e legitima, na prática, a desigualdade.
Não fosse assim, mulheres em geral não passariam por situações como as de serem julgadas pela quantidade de parceiros que tiveram, pelas roupas que usam e não teriam de ouvir comentários maliciosos, indesejáveis ou preconceituosos sobre sua aparência física. Nem teriam sua voz interrompida ou simplesmente silenciada e seus argumentos e ideias ignorados em conversas entre eles e elas. Sim, partem de homens machistas esses e tantos outros atos discriminatórios voltados contra nós e, às vezes, pasmem, vindos de algumas mulheres machistas também, coisa que parece inacreditável, mas existe.
Mais grave, preocupante é a constatação de que o machismo como ideologia que promove, ainda que subliminarmente, a inferioridade feminina e o domínio masculino, cria um ambiente social no qual a violência e o assédio contra mulheres são corriqueiros, tolerados e até justificados.
Refletir sobre toda essa questão é um passo importante para que se entenda o feminismo como um movimento de afirmação das mulheres diante das desigualdades de direitos entre os gêneros. Em se tratando da causa feminista, fala-se em equidade, prega-se a equidade, o que a diferencia dos pressupostos machistas.
Costuma-se dividir a história de lutas e conquistas femininas em quatro momentos. O primeiro (início do século XX) ficou marcado pelas manifestações públicas pelo nosso direito ao voto. Na década de 1940, finda a Segunda Guerra Mundial, uma outra “guerra” foi declarada, dessa vez, por mais espaço no mercado de trabalho. Na década de 1960, a defesa por liberdade sexual foi destaque. E hoje, finalmente, deixando de ser um posicionamento rejeitado pela maioria das mulheres ao longo de muitos anos, pela associação a atitudes radicais de muitas ativistas desses outros tempos, o feminismo ressurge com força, assumido naturalmente por uma nova geração de mulheres como um estilo de vida que, por óbvio, incorpora as causas básicas conquistadas no passado e abraça as causas presentes em prol do exercício do direito pleno de cada mulher poder simplesmente existir e se situar neste mundo.
Escolhi esse tema para este maio, fugindo do mês de março e do seu dia 8, data consagrada internacionalmente à mulher, por acreditar que precisamos falar sobre ele todos os dias, infelizmente, não só por razões felizes ou festivas, muito pelo contrário. E por acreditar que não podemos ignorar, banalizar ou apenas lamentar cada caso de discriminação e/ou de violência contra mulheres e meninas, precisamos todos, homens inclusive, de ações nossas que passem por educação. Por cobrança também a quem de dever por mais adoção e fortalecimento de políticas públicas e legislação aplicável como forma de promover a igualdade de direitos entre as pessoas.
Novelas brasileiras – tradição e transformação
30 de Abril de 2025, por Regina Coelho 0
Em se tratando de literatura e como subgênero pertencente ao gênero narrativo, a novela configura-se como um relato maior do que o conto e menor do que o romance, sendo, pois, uma narrativa de extensão intermediária entre ambos, grosso modo falando. “Um certo Miguilim morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d’Água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto, no Mutum. No meio dos Campos Gerais, mas num covoão em trecho de matas, terra preta, pé de serra. Miguilim tinha oito anos.” Assim começa a novela Campo Geral, obra-prima de Guimarães Rosa (1908-1967).
Em se tratando da antiga novela em áudio, sabe-se que durante a década de 1930 esse fenômeno foi se espalhando pelos países da América Latina, com destaque para Cuba. A ideia era contar um pedacinho da história por dia e guardar a continuação para os dias seguintes, ainda que não fosse exatamente esse artifício uma novidade, uma vez que, precedendo às radionovelas, já faziam isso os folhetins. Esse é o nome dado a histórias curtas que os jornais franceses publicavam em capítulos no rodapé das páginas por volta de 1840. E a moda pegou por aqui depois, com nossos folhetins dando origem a obras que se tornaram clássicos da literatura brasileira — Senhora (José de Alencar), Quincas Borba (Machado de Assis) e A Moreninha (Joaquim Manuel de Macedo), entre outras.
Pós-produção folhetinesca, as tramas ganharam as ondas do rádio, então em processo de popularização, alcançando “o status de principal produto produzido pelas emissoras na época”, segundo o pesquisador Thiago Guimarães, do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Aliás, o maior sucesso em radionovela de todos os tempos foi O direito de nascer (1951), do cubano Félix Caignet, e que ficou três anos no ar e chegou a ser chamada popularmente de O direito de encher.
Com o advento da televisão e para ela a crescente destinação de grande parte das verbas publicitárias, a radionovela foi perdendo força, com algumas delas sendo adaptadas para a tevê e finalmente sucumbirem ao então novo formato – as telenovelas. E caíram no gosto do brasileiro, por décadas se misturando ao cotidiano das pessoas, com personagens ditando moda (como o turbante usado pela viúva Porcina em Roque Santeiro) ou repetindo bordões disseminados depois por aí (“Não é brinquedo não, hein?”, de dona Jura em O clone); lançamento de trilhas sonoras fadadas ao sucesso (caso de Brasil música de Cazuza e outros, tema de Vale Tudo na voz marcante de Gal Costa) e a influência sobre pais noveleiros na escolha de nomes de seus bebês (Jocasta, Jade, Juma, Igor e Dara...).
Sim. Os tempos são outros. O interesse pelas novelas não é mais o mesmo com a concorrência de novas opções de entretenimento. “A audiência se pulverizou. O streaming e as redes sociais embaralharam o jogo”, observa Mauro Alencar, especialista em teledramaturgia. Para a novelista Glória Perez, “as novelas são uma crônica do seu tempo e precisam se adaptar ao ritmo de vida do momento”. E às questões e à linguagem de hoje, acrescento eu, sem ser nenhuma expert no assunto.
Com tudo isso, ainda assim, o brasileiro continua noveleiro. E sem essa de dizer que ver novela é coisa só de mulher. Pelo que se percebe hoje, o gênero não faz muito a cabeça dos mais jovens, assim como parece haver entre eles um certo desinteresse no uso da própria televisão (aparelho) no seu dia a dia. Natural essa mudança de foco, pois cada geração vem com suas demandas e prioridades.
Independentemente dessa percepção, há ainda, e isso é fato, um quê de preconceito, principalmente contra as novelas (ou a maioria delas), vistas por muitos como uma produção de qualidade inferior na programação televisiva, o que não procede como regra geral. Caso talvez de um ranço contra algo tão popular.
Volto ao tempo e me vejo assistindo novelas e séries com minha mãe, em tão boa companhia escrevendo um capítulo real de minha história com ela em ótimas interações nossas diante do desenrolar das tramas da TV.
O fim de uma era
26 de Marco de 2025, por Regina Coelho 0
Pesquisando aqui e ali, informei-me de que a primeira exibição pública do telefone ocorreu em 4 de julho de 1876 como parte dos eventos programados para a Exposição Universal da Filadélfia (de 10 de maio a 10 de novembro), realizada em comemoração ao Centenário de Independência dos Estados Unidos. Convidado pelo presidente americano (Ulysses Grant) a participar dos festejos, naquele dia 4 Dom Pedro II era um dos presentes. Ele havia conhecido o inventor do telefone dias antes. No momento em que Graham Bell demonstrava o funcionamento de sua invenção, o imperador brasileiro teve a oportunidade de contribuir com a experiência. “Meu Deus, isto fala!”, exclamou ele, admirado, ao ouvir pelo receptor do aparelho a voz de Alexander Graham Bell, que estava a distância, de posse do transmissor. Encantado com a novidade, Dom Pedro de Alcântara, como preferia ser chamado, decidiu trazê-la para o Brasil e, em 1877, foram instaladas as primeiras linhas telefônicas do país, ligando o Palácio da Quinta da Boa Vista às residências ministeriais. Estava inaugurada a telefonia em terras brasileiras.
Com o tempo, o telefone foi se popularizando por nossas bandas, e o aumento do número de linhas gerou a necessidade da implantação de centrais telefônicas. Operadas por telefonistas, as centrais conectavam manualmente os telefones dos usuários, e assim eram feitas as ligações. Ainda assim, considera-se a presença do sistema telefônico, por anos, apenas nas cidades de maior porte, paulatinamente, nas de médio porte, igualmente com mais força nos setores públicos, industriais e comerciais, bem como nos lares de cidadãos com certo poder aquisitivo.
Sob essa perspectiva, integrando-se à vida das pessoas, os telefones ganharam vez e voz também nas artes. Na música, por exemplo, muitas letras passaram a fazer referências a eles, incorporados que foram a situações cotidianas de muita gente.
Em novembro de 1916, foi gravado o que se considera nosso primeiro samba, Pelo telefone (atribuído a Ernesto dos Santos, o Donga, e a Mauro de Almeida), sucesso no carnaval de 1917 e feito em linguagem que evoca o espírito carnavalesco e a malandragem associada a esse gênero musical. Alô... Alô?, lançada em 1933 (de André Filho e Mário Reis), ganhou interpretação de Cármen Miranda, com participação de Reis e letra que trata de uma tentativa frustrada de conversa, ao telefone, de alguém que não tem o retorno do outro lado da linha, talvez um amor não correspondido. Nessa mesma linha de relacionamentos amorosos em conflito, inescapável citar o Telefone mudo (1983 – de João Batista de Oliveira, o Franco), hit de sempre na voz do Trio Parada Dura, entre outros. E não dá pra esquecer Alô, alô, marciano (1980 – de Rita Lee e Roberto de Carvalho), um papo telefônico imaginário em que um terrestre se dirige a um “habitante” de Marte em crítica e irônica visão sobre a sociedade da época, diga-se, não muito diferente nos dias atuais.
Consolidado seu lugar de importância na sociedade, a telefonia se expandiu até os municípios menores, abrangendo Resende Costa na administração do prefeito Aristides Coelho (1975-1976). Antes disso, ainda criança e indo a São João (del Rei) com gente da família em visita a parentes, eu ficava fascinada vendo aquele aparelho, geralmente preto (com um disco giratório e os números de 0 a 9), sobre um móvel num canto de sala. E torcia pra ele tocar.
Chegando o telefone em RC, meu pai foi um dos primeiros proprietários de uma linha. Em casa, no início, quando ele tocava, era aquela quantidade de mãos para atender a ligação. Inicialmente também fazer interurbano era coisa custosa, pois a gente discava o zero, esperava que a telefonista atendesse logo a chamada (o que nem sempre ocorria) e completasse a ligação, que, além disso, custava caro.
Vieram os planos de expansão e a supervalorização financeira das linhas telefônicas. Em 1998, a privatização da Telemig, então operadora estatal mineira, hoje extinta. Com a telefonia móvel passamos a viver uma nova realidade. E agora, vivemos praticamente o fim da era dos telefones fixos.