Contemplando as Palavras

Cotidianamente

01 de Outubro de 2025, por Regina Coelho 0

Procura-se entender o que pode haver de errado com o domingo, dia da semana normalmente dedicado ao descanso, ao lazer e, por extensão, ao bem-estar, tudo isso proporcionado pela pausa teoricamente relaxante nas atividades estressantes dos outros dias. Acontece, porém, que o “dia do Senhor”, também consagrado à oração entre os povos cristãos, é vivido por muitos com uma certa tristeza. Sim, é uma sensação de angústia e desânimo que dizem sentir os acometidos pela “Síndrome do Domingo à noite” ou “Síndrome do Fantástico”, denominações essas evidentemente informais. Conheço gente que não suporta nem ouvir a música-tema do programa global que vai ao ar nas noites de domingo há 52 anos por associá-la ao final do fim de semana e à chegada de mais uma talvez indesejada segunda-feira.

Os também chamados “Sunday scaries”, (sustos do domingo), termo popular usado principalmente nas redes sociais, podem ser explicados, segundo estudiosos do comportamento humano, pela ansiedade antecipatória em vista da preocupação com o trabalho e/ou estudo e outras demandas, quase sempre a exigir desafios e/ou a causar aborrecimentos durante a semana futura e próxima; ou é o vazio afetivo que surge por estar a pessoa sozinha em casa, sentindo-se isolada, ou mesmo na companhia de outros e, de qualquer forma, não ser capaz de ocupar seu tempo ocioso com alguma atividade prazerosa. Acrescente-se a esses fatores, entre outros, a insatisfação com a rotina diária.

Acordar cedo, enfrentar um trânsito pesado ou um transporte público lotado, chegar ao trabalho e enfrentar pressão e estresse constantes e, ao final do dia, pra não dizer, muitas vezes já à noite, voltar para casa. E, de novo, começar a se preparar para a peleja dos outros dias úteis. Essa é a rotina de milhões de trabalhadores e trabalhadoras habitantes de cidades maiores, aqui considerando, somente como ilustração, grande parte do cenário brasileiro.

Há diferentes cotidianos, é óbvio. Das crianças e jovens em casa e na escola, das cidadãs e dos cidadãos aposentados e seus novos hábitos, dos que vivem na zona rural. Ou de quem mora em cidades pequenas, sem o ritmo frenético dos grandes centros, o que me faz lembrar Drummond (sempre ele) em Cidadezinha qualquer:

“Casas entre bananeiras/mulheres entre laranjeiras/pomar amor cantar./ Um homem vai devagar./ Um cachorro vai devagar./ Um burro vai devagar./ Devagar... as janelas olham./Eta vida besta, meu Deus.” (Alguma poesia)

   Cotidiano também é o nome de uma música que Chico Buarque lançou em 1971.

“Todo dia ela faz tudo sempre igual/ Me sacode às seis horas da manhã/ Me sorri um sorriso pontual / E me beija com a boca de hortelã...”

A letra retrata a vida de repetição e sufocamento que afeta a todos e que ganha ainda uma outra leitura no contexto da ditadura então vigente. E expõe a situação da mulher, que, na época, geralmente ficava em casa enquanto o homem saía para trabalhar.

Essa mesma situação é mostrada em Rotina, canção amorosa de Roberto e Erasmo Carlos lançada em 1973 com o relato da rotina de um homem apaixonado em mais um dia de trabalho, deixando em casa a mulher e só voltando à noite para reencontrá-la. “O sol ainda não chegou/ e o relógio há pouco despertou...”

Antes ainda restrita ao ambiente doméstico e vivendo, pois, “apenas” a rotina de dona de casa, como se isso fosse pouca coisa, o que é, na verdade, extenuante, com o tempo, a mulher passou a incorporar uma outra rotina à sua jornada ao sair de casa e se inserir no mercado formal de trabalho. Cotidianamente.

Nesse corre todo, escrevemos todos os dias uma página diferente na nossa história. Podemos até não perceber a singularidade sutil da volta de 24 horas que vemos passar continuamente e que parece, só parece tornar igual cada dia, que é único, de fato.

E cá entre nós: experimentar o extraordinário de vez em quando é muito bom e necessário, mas é no ordinário da vida que encontramos o nosso ponto de equilíbrio, o viver de cada dia com propósito e sabedoria.

 

Vocabulário animal

27 de Agosto de 2025, por Regina Coelho 0

Eu e meu gosto pela caça às palavras, ou melhor, pelas inúmeras formas como elas se apresentam nos textos literários, nas modalidades informativas e nas mais despretensiosas manifestações linguísticas que observo no dia a dia. Ao falar em caça, não me refiro ao jogo de procurar, encontrar e circundar palavras embaralhadas que, escondidas entre tantas, relacionam-se a um tema comum. Diferentemente do que é caçado nesse passatempo, andei juntando um pouco do nosso extenso, e nada escondido, vocabulário ligado ao reino animal e adaptado às nossas muitas situações corriqueiras de fala.

É fato que as analogias envolvendo os animais são usadas comumente para caracterizar pessoas, descrevendo traços de personalidade e comportamento delas. Nesse sentido, nominar carinhosamente um humano como uma formiguinha é o mesmo que considerá-lo organizado, trabalhador e dedicado às suas funções. Referir-se a alguém como uma raposa equivale a dizer que a pessoa é astuta, esperta. Lembro aqui Ruy Barbosa (1849-1923), grande jurista e político brasileiro que ganhou o cognome de “Águia de Haia” por sua memorável participação na II Conferência da Paz em Haia (Holanda), quando (1907) fez notável defesa do princípio da igualdade entre os Estados. Ruy foi reconhecido como um homem com visão de águia, estrategista, com habilidade de ver além do óbvio e com foco no futuro.

De tão manjadas me vêm à memória, normal, acho, mas que poderia ser de elefante (excelente) ou de galo (curta), três metáforas pra lá de utilizadas em momentos de grande irritação de quem simplesmente ficou ou virou uma fera, ou uma onça ou ainda uma arara. E há muitas outras maneiras de rotular o indivíduo associando-o a algum animalzinho ou animalzão. À lesma (pessoa mole, preguiçosa, sem préstimo), ao carrapato (pessoa pegajosa), ao rato (ladrão), à traíra (pessoa traidora) e à girafa (pessoa muita alta)...

Interessante é que chamar alguém tido como bonito(a), atraente de gato(a), gatinho(a) ou gatíssimo(a) é elogio. Chamar de cachorro(a), nem tanto. E cachorrada, em sentido figurado, é canalhice. Ser cobra em alguma atividade é ser ótimo de serviço. Ser cobra criada, com significação positiva, é ser sagaz, experiente e não deixar se enganar facilmente, mas se associa também a quem é ardiloso e inescrupuloso. E ainda, “se aquilo ali é uma cobra (ou uma cobrinha)”, afirmativa e conotativamente falando, muito cuidado com o bote.

Classifica-se um sujeito não muito chegado aos bons hábitos de higiene como um porco. Coitado do porco animal, só lembrado atolado na lama do chiqueiro. Uma injustiça com os suínos, cuja carne (que me desculpem os vegetarianos) é uma delícia. Sobram também xingamentos àquela criatura a quem muitos julgam ser desprovida de inteligência: anta!, burro(a)!, que ideia de jerico!, que burrice!

Contrariando o senso comum, que costuma relacionar a anta à ausência de entendimento, estudos mostram que ela tem uma grande concentração de neurônios. Sobre o burro, é importante considerar que a percepção negativa que se faz dele também é injusta – um animal forte, resistente e com imensa capacidade de trabalho. É bom ressaltar, no entanto, que a inteligência animal é um conceito complexo, multifacetado. Nesses e em outros casos, a relação com a falta de inteligência (e outras características) é uma construção cultural e não reflete a realidade dos animais, o que pode ser exemplificado pelas fábulas e histórias infantis tradicionais (assunto para um provável futuro artigo).

Não escapa nesse contexto todo a conotação para perua: mulher que se veste, se maquia e se comporta de modo chamativo usando roupas e acessórios espalhafatosos. Curiosamente, porém, é o peru a figura esteticamente mais, digamos, vistosa do casal de aves.

Por fim, inescapável da mesma forma continuar lembrando os que têm olhos de lince (de visão apurada), os que vertem lágrimas de crocodilo (falsas), andam a passos de tartaruga (devagar), dão abraço de tamanduá (abraço dado com más intenções), abraço de urso (abraço afetuoso)... numa bonita simbiose, pelo menos semanticamente falando, entre animais e humanos.

Resende Costa (113 anos) – José de Resende Costa (pai) – Parte II

04 de Agosto de 2025, por Regina Coelho 0

Não é exagero afirmar que a maior parte dos resende-costenses descende do inconfidente José de Resende Costa (pai), ainda que não carreguem esses sobrenomes no registro de nascimento. Faço parte dessa maioria.

Junho de 2016. Com base no livro Trilha no passado, da resende-costense Vera Cruz Resende (minha tia), e decidida a trazer à tona um pouco da história do município a partir das famílias que aqui até então se formaram, acabei por enveredar pelos caminhos da minha própria genealogia pelo lado materno e, consequentemente, por conhecer melhor a origem da “Família Resende Costa”. Esse, aliás, o título do artigo para o Contemplando... daquela data, fruto desse levantamento pessoal e feito por ocasião dos 104 anos de emancipação política de Resende Costa.

Em se tratando do início desse tronco familiar em terras brasileiras, interessa destacar o patriarca português João de Resende Costa e sua futura mulher, à época da emigração deles para a nova colônia (Brasil) e de nome Helena Maria de Jesus. Ambos provieram do Arquipélago dos Açores. Ele, da Ilha de Santa Maria. Ela (uma das três lendárias ilhoas de que trata a nossa história) e as outras provieram de Faial. Os dois, entre outras pessoas, vieram para cá “em busca de melhores condições de vida”, como assegura Rosalvo Pinto em sua brilhante obra Os inconfidentes José de Rezende Costa (pai e filho) e o Arraial da Lage. E acrescenta o autor que a escolha da capitania de Minas Gerais como destino de paragem teria sido motivada pelas notícias do intenso movimento de mineração de ouro e diamante, que, em princípios do século XVIII, já estava em plena atividade no distrito das “Minas Geraes dos Cataguases”.

Da descendência de 15 filhos do casal Helena e José, por interesse óbvio, sobressai José de Resende Costa, nascido no território da então Capela de Santo Antônio da Lagoa Dourada, freguesia do Arraial dos Prados (atual Prados-MG). José casou-se com Ana Alves Pretto, com quem teve um filho de nome homônimo ao seu, e uma filha, Francisca Cândida de Resende, nascidos já no Arraial da Lage, para onde se mudou a família.

Ainda de acordo com a mesma fonte, “profissionalmente, JRC/P era capitão do Regimento de Cavalaria Auxiliar da Vila de São José del-Rei, com jurisdição sobre a Lage e Santa Rita (atual Ritápolis, MG) e um rico fazendeiro, proprietário da fazenda dos Campos Gerais da Lage, (...)”. E de uma casa no centro do Arraial da Lage (hoje propriedade de Domingos Sávio Pinto, o Savinho, contador).

Algumas informações em relação ao ambiente familiar vivido pelo conjurado Resende Costa chamam a atenção. Uma delas, a existência de uma “seleta” biblioteca em sua casa, ainda que não se tenha notícia de ter sido ele ligado a atividades intelectuais. Em vista disso, levanta-se a hipótese provável de que, já tendo enviado o filho para estudar no Rio de Janeiro, JRC/P teria montado tal acervo visando à preparação da ida do herdeiro para estudos em Coimbra (Portugal), o que não se concretizou em virtude do envolvimento de pai e filho na Inconfidência Mineira.

As implicações dessa outra história são amplamente conhecidas. Levados ao degredo, um e outro tiveram destinos diferentes. O mais novo, como se sabe, conseguiu voltar ao Brasil, onde refez com louvor sua vida. O outro, seis anos depois de sua chegada ao continente africano, sem cumprimento total da pena de dez anos, portanto, morreu em Ribeira Grande (Ilha de São Tiago – Cabo Verde aos 68 anos. Seus restos mortais encontram-se depositados desde 2011 no Panteão dos Inconfidentes, no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto.

 

NOTA - Para a escrita dos artigos de junho e julho deste ano, apropriei-me de material produzido por escritores nossos a quem foram dados os devidos créditos. Não produzi nada inédito. Tive apenas o propósito de trazer aos leitores do JL fatos já conhecidos por muitos, talvez esquecidos por alguns e, certamente, desconhecidos por quem não teve a oportunidade de saber algo que seja sobre a vida dos nossos dois históricos Josés.

Resende Costa (113 anos) – José de Resende Costa (filho) – Parte I

02 de Julho de 2025, por Regina Coelho 0

“Em certo ponto da Serra das Vertentes, ao norte de São João del-Rei/MG, há uma cidade que se ergue altaneira, qual sentinela dos Campos das Vertentes e que, de par com uma beleza invulgar do sítio em que se acha plantada, no ‘cimo da rocha’, ergue-se, imponente e dominante, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha de França. Esta cidade que tem uma história rica e de grande relevo, dentre todas as que constelam no universo das Minas Gerais, é o berço da Liberdade e se chama Resende Costa.” É dessa forma que Alair Côelho de Resende se manifesta inicialmente no seu Casos e causos do vovô Totonho da chapada ao se referir à sua terra natal.

E por que Resende Costa? Segundo o também resende-costense José Maria da Conceição Chaves (Juca Chaves), no Memórias do antigo Arraial de Nossa Senhora da Penha de França da Lage, atual cidade de Resende Costa, desde os proêmios de sua existência, até os dias presentes, “em 1º de julho de 1911, dirigiram os habitantes da Lage uma representação àquela Assembleia (Congresso Mineiro), pedindo a elevação do Distrito à Vila sem foro, com a anexação do Arraial do Mosquito – o futuro distrito de São Francisco Xavier – cuja criação se cogitava, e que ao novo Município fosse dado o nome de ‘Resende Costa’ em imperecível homenagem ao seu dileto filho e ilustre brasileiro Conselheiro José de Resende Costa”. Segundo ainda Chaves, a ideia de dar o nome do Conselheiro ao município que seria instalado no ano seguinte “partiu do respeitável patriota e lageano major Joaquim Leonel de Resende Lara, descendente da família daquele conjurado mineiro”.

A citação acima – “conjurado mineiro” – é uma referência a José de Resende Costa (filho), pois ele, sim, recebeu o título de conselheiro, considerando já sua volta ao Brasil, que ocorreu em 1809, “por ordem provinda do Rio de Janeiro, onde já estava a Corte Portuguesa”. Anos antes, em 1802, quando se completaram 10 anos de cumprimento da sentença que o condenou ao degredo por sua participação na Inconfidência Mineira, Resende Costa (filho) estava livre, mas proibido de voltar ao Brasil ou “à América”, como consta do termo de condenação e ainda parte da pena. Dessa forma, no ano seguinte, conseguiu autorização para se mudar para Lisboa, onde, no final de 1805, conseguiu ser nomeado para o cargo de escriturário do Erário Régio (instituição fiscal portuguesa criada em 1761).

Seu retorno à pátria se deveu a um chamado do Príncipe Regente, com a ordem para que trouxesse consigo todos os documentos do Erário relacionados à exploração e ao comércio do diamante. Para tanto, foi investido no cargo de administrador da fábrica de lapidação então implantada no Rio de Janeiro. Gradualmente, foi passando pelas funções de primeiro escriturário, contador-geral e escrivão da mesa do tesouro até 1827, quando requereu sua aposentadoria e recebeu o título de Conselheiro do Império.

Distinguido com muitas outras honrarias, JRC (filho) esteve presente na política brasileira e mineira e, em 1823, já proclamada a Independência, foi eleito deputado à Assembleia Constituinte do Brasil como representante de Minas. Em 1839, fundado o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, ainda no ano de sua criação, foi eleito seu sócio correspondente. No ano seguinte, sócio honorário.

A propósito da vida desse inconfidente lageano e do histórico 7 de setembro de 1822, Juca Chaves relata que “teve Resende Costa a ventura de assistir, em 1822, aos sublimes instantes da independência da Pátria, quando, enfim, adquiria o Brasil os foros de nacionalidade para entrar, definitivamente, no início da posição promissora que os tempos lhe reservavam no concerto mundial como muito bem pressagiaram os visionários de sua grandeza e protagonistas da memorável jornada de 1789”.

José de Resende Costa (filho) nasceu em 1765 no Arraial da Lage e faleceu em 1841 no Rio de Janeiro.

 

NOTA – As informações deste artigo até aqui sem crédito sobre JRC (filho) foram extraídas da obra Os inconfidentes José de Rezende Costa (pai e filho) e o Arraial da Lage, do resende-costense Rosalvo Pinto.

Um espelho da vida real

28 de Maio de 2025, por Regina Coelho 0

“Cada uma de nós lida com particularidades sociais e de raça que definem os obstáculos que teremos na vida. Mas o machismo afeta toda mulher. A estrutura patriarcal interfere no trabalho, na disparidade salarial, na dupla jornada entre profissão e família. Nós, mulheres, somos pressionadas a cuidar mais do interesse dos outros que dos nossos.” Essa é uma fala importante de Natalie Portman, atriz israelense em entrevista à revista Veja, ao se referir à Maddie, sua personagem em A mulher no lago, série da Apple TV+ sobre feminicídio e discriminação contra negros e judeus. Nesse papel, ela investiga a morte de uma jovem negra. As duas, vítimas do machismo, em diferentes graus. E Natalie diz ser esse um espelho da vida real.

Ela tem razão. Ah, o machismo! Postura que não faz distinção geográfica, entranhada ainda, em maior ou menor escala, nas variadas esferas sociais, por isso mesmo normatizada e até certo ponto resistente às mudanças que os tempos de agora impõem a todos. Em seu sentido mais comum, o machismo se expressa por opiniões e atitudes de quem não reconhece a igualdade entre os gêneros e dessa forma se posiciona em desfavor das mulheres. Sem ser apenas um comportamento individualizado, lamentavelmente, ainda é um sistema de crenças que permeia a sociedade e legitima, na prática, a desigualdade.

Não fosse assim, mulheres em geral não passariam por situações como as de serem julgadas pela quantidade de parceiros que tiveram, pelas roupas que usam e não teriam de ouvir comentários maliciosos, indesejáveis ou preconceituosos sobre sua aparência física. Nem teriam sua voz interrompida ou simplesmente silenciada e seus argumentos e ideias ignorados em conversas entre eles e elas. Sim, partem de homens machistas esses e tantos outros atos discriminatórios voltados contra nós e, às vezes, pasmem, vindos de algumas mulheres machistas também, coisa que parece inacreditável, mas existe.

Mais grave, preocupante é a constatação de que o machismo como ideologia que promove, ainda que subliminarmente, a inferioridade feminina e o domínio masculino, cria um ambiente social no qual a violência e o assédio contra mulheres são corriqueiros, tolerados e até justificados.

Refletir sobre toda essa questão é um passo importante para que se entenda o feminismo como um movimento de afirmação das mulheres diante das desigualdades de direitos entre os gêneros. Em se tratando da causa feminista, fala-se em equidade, prega-se a equidade, o que a diferencia dos pressupostos machistas.

Costuma-se dividir a história de lutas e conquistas femininas em quatro momentos. O primeiro (início do século XX) ficou marcado pelas manifestações públicas pelo nosso direito ao voto. Na década de 1940, finda a Segunda Guerra Mundial, uma outra “guerra” foi declarada, dessa vez, por mais espaço no mercado de trabalho. Na década de 1960, a defesa por liberdade sexual foi destaque. E hoje, finalmente, deixando de ser um posicionamento rejeitado pela maioria das mulheres ao longo de muitos anos, pela associação a atitudes radicais de muitas ativistas desses outros tempos, o feminismo ressurge com força, assumido naturalmente por uma nova geração de mulheres como um estilo de vida que, por óbvio, incorpora as causas básicas conquistadas no passado e abraça as causas presentes em prol do exercício do direito pleno de cada mulher poder simplesmente existir e se situar neste mundo.

Escolhi esse tema para este maio, fugindo do mês de março e do seu dia 8, data consagrada internacionalmente à mulher, por acreditar que precisamos falar sobre ele todos os dias, infelizmente, não só por razões felizes ou festivas, muito pelo contrário. E por acreditar que não podemos ignorar, banalizar ou apenas lamentar cada caso de discriminação e/ou de violência contra mulheres e meninas, precisamos todos, homens inclusive, de ações nossas que passem por educação. Por cobrança também a quem de dever por mais adoção e fortalecimento de políticas públicas e legislação aplicável como forma de promover a igualdade de direitos entre as pessoas.