Um instante capturado para a eternidade
25 de Fevereiro de 2025, por Regina Coelho 0
Entre colunas então alusivas ao Natal e outros textos sobre essa época tão propícia a movimentações e comemorações sociais, familiares e religiosas, a edição de dezembro último do JL publicou uma breve nota acompanhada de duas significativas fotografias. O título da matéria, como síntese, já esclarece as imagens em questão: “Turma da Escola Estadual Assis Resende refaz foto de 47 anos atrás”.
Muito boa a iniciativa dessa turma, por sinal, uma tendência atual, ou seja, a recriação de fotos antigas, com a repetição do mesmo cenário e, quando possível, com as mesmas pessoas e seus respectivos lugares, poses e trajes copiados do modelo original. Como nessa linha do tempo dos alunos da Graça Vale (de 1977) e em todas as outras, história é o que não falta, por trás das fotos inclusive ou principalmente, indo muito além da mera constatação, pela aparência mais atualizada dos fotografados, da passagem inexorável dos anos. Natural e democraticamente para todos.
Compondo ou não uma sequência cronológica, verdade é que nem toda fotografia é somente aquilo que se vê e muitas vezes nem é o que julgamos ver. Tenho um daqueles retratos (adoro esta palavra: “retrato”) típicos dos tempos do curso primário tirados por um profissional contratado pela escola e vindo de fora para fazer o registro fotográfico de nossa passagem por lá. Olhando-o agora, faço dele a seguinte descrição: como pano de fundo, à minha direita, há uma ilustração de um grupo de crianças uniformizados, ao ar livre, e uma delas aparece hasteando a bandeira nacional; à minha esquerda, é possível ver a paisagem urbana de uma rua com um bonde vermelho despontando. No centro, em posição de destaque, sentada numa cadeira escura estou eu, com os braços apoiados sobre uma mesa. Do meu lado esquerdo ainda, um globo terrestre e uma bandeirinha do Brasil colocada sobre um livro. Do direito, dois livros sustentam outra bandeirinha de mesa, dessa vez, a de Minas. E à minha frente, destacada, a famosa plaquinha de recordação do G. E. Conjurados Rezende Costa (assim, com Z), hoje E. M. Conjurados.
E o que vejo mais? Vejo que a maneira como fui retratada não condiz comigo nem com a ocasião. Talvez por sugestão (ou seria imposição?) do retratista, faço pose segurando uma caneta com a mão direita, e sempre fui canhota. Outra coisa: provavelmente sem o aviso aos pais a respeito daquele dia diferente na escola, excepcionalmente, para lamentação posterior de minha mãe, a vida toda tão zelosa com os filhos, com nossas roupas também, eu não estava de uniforme, como deveria estar em momento tão único.
Atualmente, únicos ou corriqueiros, momentos vividos por todos nós não escapam das câmeras possantes dos nossos celulares, que, desbancando as máquinas fotográficas amadoras, decretaram praticamente a aposentadoria desses aparelhos, hoje repousando em alguma gaveta em casa. Muda a ferramenta, mas a fotografia não perde seu espaço. Outrora coisa rara, restrita a grupos e ambientes seletos e/ou a ocasiões especiais, com o passar dos anos popularizando-se, a imagem congelada e captada de um exato instante, não por acaso é chamada também de um instantâneo, no entanto se eterniza no papel e nos arquivos digitais.
Como lugares de registros e lembranças, fotografias contam histórias e documentam fatos, assim preservando a memória e a cultura de épocas diversas. Muitas se tornam famosas pelo que traduzem da realidade e da arte, provocando em nós emoções felizes, perturbadoras ou indignantes.
Para o escritor francês Roland Barthes (1915-1980), “o que a fotografia reproduz ao infinito só ocorre uma vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente”.
Assim e restringindo-me a um passado mais recente (5/8/2024), lembro aqui a imagem icônica de Rebeca Andrade, maior medalhista brasileira em Olimpíadas (seis medalhas), ouro no pescoço, reverenciada pela campeoníssima Simone Biles (prata) e por Jordan Chiles (bronze) e destacada em cliques que correram mundo e entraram para a história. Aquele dia, não mais! A figura de Rebeca no alto do pódio, para sempre.
Apelidar alguém
22 de Janeiro de 2025, por Regina Coelho 0
influenciado pelo pai, o menino Dico sempre foi fã de futebol e logo começou a fazer parte dos times de garotos que jogavam bola na rua. Gostava de atuar no gol, por se inspirar no goleiro Bilé, amigo de time de seu pai, que também jogava. Com a dicção ainda se formando e, por isso, sem conseguir pronunciar corretamente o apelido de Bilé, durante os jogos com os colegas de time, falava algo equivalente a “Segura Pilééé!”, quando, entusiasmado, fazia suas próprias defesas. O fato fez com que os companheiros passassem a chamá-lo de Pilé, Pelé, o que não o agradava. E como quase todo bom apelido nessa situação, a alcunha pegou. E como pegou! Com ela e, principalmente, com a genialidade demonstrada mais tarde como jogador profissional (na nomenclatura atual, com a função de meia-atacante), o mineiro criado no interior paulista fez a vida, a fama e se tornou mundialmente conhecido e reconhecido como o Rei de Futebol.
Pelé é o nome à frente do homem Edson Arantes do Nascimento, que costumava se referir a si mesmo na terceira pessoa do singular, em se tratando do atleta. Assim, fazia distinção entre o apelido e seu nome civil, como que sinalizando ser ele alguém dividido em duas pessoas diferentes. Não é exatamente o caso de Xuxa, tão somente registrada como Maria da Graça Meneghel, mas chamada, desde o berço, pelo apelido que lhe atribuiu o irmão mais velho e que contou com a pronta aprovação da mãe.
Pelé e Xuxa, curiosamente, um ex-casal, pela imensa popularidade alcançada no país, foram responsáveis pela replicação espontânea de seus apelidos por aí. A imagem dele, em especial, fez muitos jovens pretos virarem Pelé, pelo menos no apelido, tendo surgido até um Pelé de sucesso no vôlei (Minas Tênis Clube e Seleção Brasileira, em destaque). E o Pelezinho, personagem de histórias em quadrinhos criado (1976) por Maurício de Sousa e baseado na infância do Rei. Já a Rainha dos baixinhos, em seus áureos tempos de reinado, provocou uma onda forte de Xuxas covers, ou seja, de moças que, com o visual idêntico ao dela, é claro, se apresentavam em programas de tevê e em shows por este Brasilzão. E foi por conta do cabelo louro e semelhante ao da apresentadora que o hoje ex-nadador e sempre medalhista olímpico Fernando Scherer, ao ganhar projeção (em 1992) no Troféu Brasil com vitórias importantes, ganhou também o apelido Xuxa.
Considerando a força e a presença dos apelidos na vida de muita gente, fica fácil entender a opção de quem incorporou judicialmente esse outro termo ao seu nome de registro, casos da própria Xuxa e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (antes, sem o Lula), entre outros.
Não se cogita aqui falar sobre o ato de apelidar alguém com termos ofensivos, depreciativos ou caluniosos, o que, para dizer o mínimo, não tem graça alguma. Falemos, portanto, de afetividade e intimidade, condições propícias para nomear e chamar de outras formas pessoas que amamos e/ou que nos são próximas. No ambiente doméstico, por exemplo, é praticamente inevitável o uso de nomes no diminutivo e no aumentativo carinhosos, sobretudo os endereçados às crianças. Outras vezes, palavras pronunciadas pelos pequenos (como no caso do menino Dico) ou inventadas por eles costumam gerar praticamente outros nomes para os que os recebem.
Ainda em casa e no âmbito do trabalho profissional, passamos também quase sempre pelo processo de redução dos nomes de cada um(a) de nós. Assim surgem a Ju, a Lu, a Cris, a Carol, o Alê, o Beto, o Fê, o Xande... Talvez por isso também, venha crescendo nos últimos anos uma tendência interessante entre os pais quanto à escolha do nome de um bebê: a transformação de apelidos afetivos em nomes próprios usados agora oficialmente em registros de nascimento. Alguns deles: Bela (ou Bella), Theo, Nina, Gabi (ou Gábi), Duda. Em outras palavras, se já existe uma preferência (ou grande possibilidade) de uso constante desse tipo de apelido, por que não oficializá-lo logo?
Gosto dos apelidos afetuosos, sabendo que o emprego deles tem hora e lugar adequados.
Então é Dezembro
25 de Dezembro de 2024, por Regina Coelho 0
Recorrendo às palavras iniciais da versão em português do compositor e produtor musical Cláudio Rabello para Happy Xmas (War is over), canção composta, gravada e lançada em 1971 por John Lennon (1940-1980) e Yoko Ono, estou me dando conta agora, nesse começo de dezembro, de que “Então é Natal”. Verso que por si somente faz lembrar a voz grave de Simone, intérprete brasileira desse verdadeiro hino natalino, a cada temporada de fim de ano ecoando por toda parte.
Nessa toada, aqui duplamente entendida e, em se tratando da letra de Rabello, ainda no comecinho dela, a pergunta é: “e o que você fez?”, na verdade, um chamado à reflexão sobre mais um ano de vida que se finda. Sabe-se que essa época é especialmente propícia a muitos questionamentos ligados a situações de autocobrança, de melancolia típica dos ciclos que se encerram e de apreensão pelo que virá. Para muitas pessoas, as celebrações de Natal e Ano-Novo, principalmente, podem ser custosas, doídas, pois costumam acentuar sentimentos distantes da alegria, e que essas datas tendem a sugerir, como a solidão, sentida pelos que se veem excluídos dessas comemorações. Ou que não têm com quem compartilhar esses momentos.
A tal estado de espírito dá-se o nome de síndrome do fim de ano ou “dezembrite”, termos populares e muito usados nos últimos tempos para designar sentimentos que podem variar entre angústia, tristeza profunda e sensação de fracasso e frustração, entre outros. Nesse contexto, sentir-se uma pessoa fracassada ou frustrada por metas não alcançadas ou expectativas não atendidas é parte desse quadro. O emprego ansiosamente aguardado e que não veio, o sonho desfeito de ter uma casa própria, uma relação amorosa mal-sucedida... e aquela impressão incômoda de não ter feito nada de bom nos outros meses do ano ilustram algumas situações sentidas como mais negativas ainda em cada retrospectiva anual.
Ser acometido(a) por essa síndrome implica também vivenciar sentimentos de pesar e extremo saudosismo pela falta daqueles que não estão mais entre nós, em especial, nossos entes queridos e lembrados pelos inúmeros Natais celebrados com a família então reunida e nos quais eles eram convivência amorosa com os que ficaram. Por outro lado, sofre-se por relações familiares complicadas, quase ausentes ou rompidas.
Volto ao texto do versionista Cláudio Rabello para destacar dele o seguinte trecho: “Que seja feliz quem souber o que é o bem”, em outras palavras, fala-se da solidariedade, um ideal pregado como um aspecto diretamente relacionado à felicidade. Tudo a ver com o autêntico espírito natalino.
Como toda versão envolve a interpretação pessoal de quem a faz, a de Rabello para Happy Christmas, logicamente, não é a única. Certo mesmo é que a letra foi feita originalmente como uma canção de protesto em referência à Guerra do Vietnã (1959-1975) e remete a uma campanha internacional, ainda em 1969, pelo fim dos conflitos e marcada por outdoors espalhados por 12 cidades pelo mundo com os dizeres: “War is over! (A guerra acabou!). Se você quiser – Feliz Natal, de John e Yoko”. São palavras que foram e ainda são um apelo à ação, sugerindo que a paz é uma escolha coletiva e que depende do desejo e do esforço de todos para se tornar realidade.
Mesmo considerando uma possível interpretação sob a ótica da existência individual em tempos de Natal, a música gravada por Simone em 1995 faz alusão à Hiroshima e Nagasaki, de tão tristes memórias e trágicas consequências pelos bombardeios atômicos na Segunda Guerra Mundial. E a Moruroa (atol na Polinésia Francesa), um dos locais onde já foram realizados testes nucleares.
Fala-se de guerras ainda hoje e sempre. Pior, vive-se em guerras. Ucrânia x Rússia. Israel x Hamas... E outras tantas inominadas. Falemos, contudo, de Natal. Melhor, vivamos o Natal, que é nascimento, que é renascimento, que é vida. Que possamos ter um Natal em sua essência – de atitudes mais compassivas com o nosso próximo e de trégua aos nossos desassossegos de todo dia.
Um cidadão digno
27 de Novembro de 2024, por Regina Coelho 0
Chamou a atenção a forma pela qual o poeta, filósofo, ensaísta e crítico literário Antonio Cicero (assim mesmo, sem os devidos acentos gráficos) decidiu morrer, aos 79 anos. O também imortal da Academia Brasileira de Letras (desde 2017) convivia nos últimos anos com o peso de um diagnóstico de Alzheimer, optando agora pelo procedimento de morte assistida em Zurique, Suíça, país onde essa prática é realizada legalmente. Na manhã do dia 23 de outubro último, junto com a notícia de sua morte, foi divulgada uma carta em que Cicero explica sua decisão.
No texto, ele se dirige a pessoas a quem se refere como “queridos amigos”, começando por dizer que se encontra na Suíça, prestes a praticar o que ele chama de eutanásia, afirmando ainda que sua vida se tornou insuportável por estar sofrendo pela doença. E prossegue:
“Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem. Exceto os amigos mais íntimos, como vocês, não mais reconheço muitas pessoas que encontro na rua e com as quais já convivi. Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia. Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo (...) A convivência com vocês, meus amigos, era uma das coisas – senão a coisa mais importante da minha vida. Hoje, do jeito em que me encontro, fico até com vergonha de reencontrá-los.” (...)
Diferentemente da eutanásia (palavra de origem grega cujo significado etimológico é “a boa morte”), que consiste em provocar a morte de alguém antes do previsto pela evolução natural da doença, um ato misericordioso devido ao sofrimento intenso provocado por um mal incurável, na morte assistida (ou no suicídio assistido), o caso em questão, o(a) profissional de saúde apenas prescreve a substância letal, mas fica a cargo da pessoa que se submete a essa prática administrá-la em si mesma. Grosso modo, é isso. Esclareça-se ainda que as duas práticas não são permitidas em nossa legislação.
Não cabe aqui qualquer tipo de juízo de valor em relação à difícil atitude de Cicero em decidir, conscientemente, por dar fim à própria vida. E, no caso dele, especificamente, nem cabe a argumentação religiosa segundo a qual se Deus nos dá a vida, somente Ele poderá tirá-la. Na carta de despedida, evocando sua condição de ateu, desde a adolescência, afirma textualmente: “tenho consciência de que quem decide se minha vida vale a pena ou não sou eu mesmo”.
Diante do exposto, é consequente considerar que, ao se despedir deste mundo da maneira como o fez, o irmão e parceiro da cantora Marina Lima deixou não somente poemas, ensaios e letras de músicas, mas também uma discussão ética, médica, filosófica e jurídica sobre temas tão sensíveis e complexos – a morte assistida (ou o suicídio assistido), a eutanásia e suas implicações. E em que pesem tabus morais e religiosos em torno dessas questões, ainda que controverso e/ou por isso mesmo, o debate é sempre necessário.
Deve-se isso hoje a Antonio Cicero Correia Lima, o poeta de Guardar, poema incluído na antologia Os cem melhores poemas brasileiros do século (Editora Objetiva), de 2001, organizado por Ítalo Moriconi: “Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela. Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro do que um pássaro sem voos”. É o letrista de O último romântico, sucesso eterno na voz de Lulu Santos: “Me dá um beijo, então / Aperta minha mão / Tolice é viver a vida assim / Sem aventura. / Deixa ser / Pelo coração / Se é loucura então melhor não ter razão”. E de Fullgás, também um hit dos anos 1980, na voz de Marina (irmã): “Meu mundo você é quem faz / Música, letra e dança / Tudo em você é fullgás / Tudo é você é quem lança / Lança mais e mais”. E o autor do que poderia ser seu próprio e antecipado epitáfio: “Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade” (final da sua carta de despedida).
Monólogo em Mi au au!
23 de Outubro de 2024, por Regina Coelho 0
“minha mãezinha pensa que durmo o dia inteiro, mas não! Fico mesminzando, isto é, falando comigo mesmo, atento a todos os passos, ações dela. Adoro quando fala ao telefone e diz o meu nome, ou um dos vários – Kiko, Kiquinho, Ssiicoo, Chiquinho.
Com os olhos semicerrados, observo-a andar pra lá e pra cá. Mas ela desconfia e mexe comigo, conversa com este filhinho tão amado.
Até hoje não sei como vim parar aqui neste ambiente. Não é a nossa casa, não tem varanda pra eu sair; sei que posso ficar nas janelas, mas confesso – sou medroso demais, acomodado, preguiçoso não, isso não!
Gosto muito de ficar aqui porque, noutro lugar, eu não tinha chances de ficar com ela. A Nina era só dela, me empurrava, me batia pra mamãe ser apenas dela. Sofria muito. Agora, só sei que estou grudadinho na mamãe, noite e dia, dia e noite. Ajeitamos a casa, lemos, rezamos e nos acariciamos muito. Ah! Assim, eu ronrono feliz! Cochilo, sonho! Sentindo seus dedos me carinhando suave...
Mas o bom mesmo é quando vão tomar cervejas, ouvir músicas, porque lá vêm meus “cartuchinhos” de whiskas sabor salmão (preferido meu, porque mamãe também gosta de salmão). Eu me encho de uma gulazinha gostosa, trincando aquela delícia! Também gosto muito de me deliciar com um pouquinho de requeijão à hora do café. Fico esperando quietinho a mamãe colocar no dedo indicador aquela gostosura branquinha e leve... Ah! Mamãe é muito boa, me entende e me enche de mimos. Eu penso que retribuo, pisco os olhos para lhe dizer “eu te amo” (ela me ensinou); até fico bravo, mio grosso quando ela fica dançando, porque tenho medo de ela cair. Já caiu uma vez, e eu quase morri de aflição, tentei levantá-la com as unhas e os dentes, mas não consegui!
E quando ela fala — Chico, você poderia ser um menininho! Quase choro, pois não posso ser menino. Mas sei que ela me ama, como bichaninho felino. Eu sinto este amor tão visível e sincero. Ah! Eu a amo, também, e a minha irmã tão lindinha!
Meu cunhado brinca de me assustar, mas é por ciúme... sei que é. Mas, às vezes, corro e volto corajoso pra perto dele. Afinal, família é sempre assim; e eu amo ter a minha.
Vou ronronar um pouco, depois escrevo mais... tchau, leitor amigo! Beijinhos de focinho!”
Autoria: Maria Antônia Chaves
Chico, o personagem-narrador do monólogo acima, mora atualmente em São Paulo (capital), existe de verdade e é uma das grandes alegrias na vida da minha querida amiga Toninha. Nós duas, bem como a Moreira e a minha xará Regina (da Filomena), também queridas amigas e as quatro colegas de sala, formávamos na faculdade, no tempo da “pré-história das nossas Letras”, “o quarteto de Resende Costa”, conforme se referiam a nós alguns professores.
Pois bem! Interessa agora, no entanto, esse destaque dado ao Chico, cuja tutora tem nele um amoroso e inteligente companheiro de quatro patas.
Essa relação de afeto entre ambos me fez lembrar um outro bichano, no caso, “alguém” resgatado da ficção. Refiro-me ao gato malhado do romance O gato malhado e a andorinha Sinhá, escrito por Jorge Amado (1912-2001) em 1948 como um presente de aniversário para o filho, João Jorge, que fazia um ano naquela ocasião. Obra essa publicada somente em 1976. Trata-se de uma fábula sobre um amor impossível entre dois seres muito diferentes entre si. Um gato, sujeito mal-humorado, de pelagem manchada, o que o torna diferenciado e rejeitado. E ela, uma bela e adorável andorinha.
Desenvolvido em linguagem poética e cheia de metáforas, o texto do nosso para sempre lido e AMADO Jorge é encantador, da mesma maneira que também o é o Monólogo Mi au au, uma divertida criação da Toninha, sob a inspiração em sua feliz convivência diária com o Chico. Ou Kiko, Kiquinho, Ssiicoo, Chiquinho.