Banco Espírito Santo, Portugal Telecom, Oi... (1)
16 de Agosto de 2014, por José Venâncio de Resende 0

BES: banco bom e "bad bank", depois da intervenção do Banco de Portugal este ano
Uma das questões que mais se discute na imprensa e no meio político, em Portugal, é a mal explicada transação financeira milionária entre a Portugal Telecom (PT) e a Rioforte, do Grupo Espírito Santo (GES). Afinal, quem foi o responsável pelo negócio? Quem sabia do negócio?
O fato é que a PT foi uma das grandes vítimas do desmoronamento do GES. A operadora portuguesa – em processo de fusão com a brasileira Oi - não recebeu de volta quase 900 milhões de euros de um investimento feito na Rioforte. Com isso, a PT e a Oi tiveram de renegociar os contratos de fusão e a operadora portuguesa acabou por perder espaço para a Oi na holding CorpCo, criada para atuar no Brasil, Portugal e nações da África. A participação acionária da PT na CorpCo deve cair de 37,3% para 25,6%, aumentando assim a fatia dos outros acionistas. Mas o resultado é que a nova empresa ficou menor.
Outras empresas, como a Américo Amorim e a estatal Caixa Geral de Depósitos (CGD), podem estar expostas à dívida do GES. Estas empresas terão de assumir as perdas relativas aos investimentos que fizeram. Resta saber qual a saúde financeira de muitas dessas empresas e qual a extensão dos danos para a atividade econômica (menos capacidade para investir, por exemplo).
O que se segue é um relato (em duas partes), baseado no que foi publicado, especialmente na imprensa portuguesa, antes e depois da intervenção no Banco Espírito Santo, anunciada em 3 de Agosto (domingo) pelo governador do Banco de Portugal (BdP), Carlos Costa. Foram acontecimentos de tal gravidade que o próprio Carlos Costa chegou a afirmar, em depoimento ao Parlamento, que o sistema financeiro de Portugal caminhou sobre o fio da navalha.
Negócio intrincado
O desmoronamento do GES, cujo expoente era o empresário Ricardo Salgado, abalou a saúde financeira do tradicional Banco Espírito Santo (BES) e de muitas empresas em Portugal. A parte mais visível do GES eram três sociedades constituídas no Luxemburgo - Rioforte, Espírito Santo International (ESI) e Espírito Santo Financial Group (ESPG) - onde eram geridos os interesses internacionais do grupo. E onde estão sob gestão controlada pelos tribunais.
O GES é um universo de cerca de 400 empresas ligadas entre si por complexa rede de participações financeiras, geridas no topo pelas holdings ESI, Rioforte e ESFG, que agora estão sob proteção de credores. As três holdings do topo constituíam um organograma complexo de relações entre empresas sediadas no Luxemburgo, na Suíça, nas Bahamas ou no Panamá. Na estrutura, havia acesso a contas do BES (o principal braço financeiro da família Espírito Santo), da ESFG (principal acionista do banco com cerca de 20%) e da Rioforte, mas acima disso já não havia visibilidade. A ESI, que aloja uma dívida superior a sete bilhões de euros (incluindo 1,3 bilhão que não estavam nas contas) era como se não existisse. Parecia uma caixa preta.
O castelo começou a desmoronar com a crise financeira de 2008, que levou Ricardo Salgado a cometer irregularidades para esconder a real situação financeira do grupo. As regras mais rígidas do Banco Central Europeu (BCE) exigiram sucessivos aumentos de capital para garantir a solidez financeira. As holdings endividaram-se cada vez mais a fim de que a família Espírito Santo conseguisse manter no BES a sua posição de principal acionista. Mas a bancarrota teve o empurrão decisivo de inimigos de Ricardo Salgado (que não são poucos), de dentro do próprio grupo.
Novos empréstimos para pagar juros dos empréstimos antigos tornaram cada vez mais difícil honrar os compromissos financeiros e conseguir dinheiro novo. Para esconder a dívida galopante e a situação de falência técnica, as contas da ESI subavaliavam os passivos. Foram omitidos cerca de 1,2 bilhão de euros de dívida, segundo auditoria externa solicitada pelo Banco de Portugal. Alguns negócios ruinosos, como o imobiliário, contribuíram para o descalabro das contas, cuja situação real foi escamoteada.
O BES foi um dos que emprestaram dinheiro a empresas do grupo, num total de 1,2 bilhão de euros. Mas nos últimos dias - antes de o empresário Ricardo Salgado deixar suas funções no grupo -, houve operações de gestão danosa que aumentaram a exposição do banco aos negócios ruinosos da família Espírito Santo.
Na noite de três de Agosto (um domingo), o presidente do BdP anunciou oficialmente o fim do BES. Em seu lugar, surgiu o Novo Banco que ficou com a parte “boa” do BES (depósitos, balcões e funcionários) e foi capitalizado através da injeção de 4,9 bilhões de euros (recursos da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional). Na verdade, esses recursos deveriam sair de um fundo de resolução mantido com contribuições dos próprios bancos. Mas este fundo é recente (2012) e não tem ainda valor suficiente (dispõe de apenas 380 milhões de euros), daí porque o governo entrou com o empréstimo na expectativa de que os bancos privados viabilizem a devolução do recurso aos cofres públicos.
Já o antigo BES ficou com a parte “ruim” (os portugueses preferem chamar de “banco mau”), os chamados ativos problemáticos ou “tóxicos”, em grande parte relacionados com os negócios da família Espírito Santo. Com a liquidação do BES, os seus acionistas terão de assumir as perdas.
A atuação do Banco de Portugal
Uma crítica que tem sido feita ao BdP, na imprensa e no meio político, é sobre a demora da instituição em intervir no BES. O BdPdetectou os problemas de endividamento da ESI no ano passado e determinou que o BES reduzisse os empréstimos ao grupo e que aumentasse o capital. Investigou as relações de financiamento entre o BES e as holdings do GES, através de auditoria externa, e impôs medidas para isolar os problemas do grupo. Determinou medidas como uma provisão de 700 milhões de euros na ESFG para acautelar um eventual risco de incumprimento. Exigiu mudança na administração do banco, que culminou com a saída de Ricardo Salgado e a entrada de Vítor Bento, e determinou a solução anunciada (o fim da tradicional marca).
Em 12 de julho, dois dias antes de Vitor Bento assumir o BES, Ricardo Salgado informou ao BdP que o banco estava com problemas de liquidez e que seriam necessárias “medidas adicionais” para restaurar a saúde financeira da instituição. Durante dois dias, Salgado e o administrador financeiro Amílcar Morais Pires tinham analisado “detalhadamente” as contas do banco, antes de comunicar ao supervisor bancário que havia problemas. Estas informações fazem parte da ata do último Conselho de Administração do BES que ocorreu em 13 de Julho, um domingo. A última reunião dos administradores do BES antes da saída de Salgado aconteceu às 20 horas daquele domingo, véspera da posse de Vítor Bento, por determinação do BdP.
Na despedida, Salgado ainda deixou uma pequena “bomba”, ao informar sobre a conclusão pouco otimista resultante da análise feita junto com o departamento financeiro. O banqueiro “chegou à conclusão ser importante transmitir ao BdP, por carta (enviada no sábado, 12 de Julho), o seu entendimento quanto à necessidade imperativa de adopção de medidas adicionais ao plano de contingência de liquidez em vigor no BES”.
Quando, a 12 de Julho, o governador do BdP, Carlos Costa, recebeu a indicação de Salgado de que havia problemas nas contas, mesmo depois do aumento de capital concluído em Junho, ainda não se sabia que dias antes haviam sido feitas operações bancárias que penalizaram ainda mais os resultados. Esta ata do BES ajuda a esclarecer a deterioração da situação financeira do banco. Uma das razões invocadas pelo BdP para intervir no BES foi um prejuízo superior ao estimado, alegadamente por práticas de gestão danosa por administradores cessantes que ainda estavam em funções na primeira quinzena de Julho.
Os culpados
Em editorial denominado “Portugal´s Banking Disaster” (06/08/2014), o jornal New York Times referiu-se a “dúbios empréstimos” feitos pelo BES para alavancar negócios que eram controlados pelo grupo da família Espírito Santo. O resultado foi que, na última semana que antecedeu ao anúncio derradeiro do Banco de Portugal, o BES anunciou perdas de 3,58 bilhões de euros no primeiro semestre do ano, principalmente por causa desses empréstimos.
Mas o jornal não atribuiu a falência do BES tão-somente a uma falha dos funcionários portugueses que tinham a primeira responsabilidade por supervisionar o banco. “A Comissão Europeia, O Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) dividem parte da culpa porque eles tem estado intimamente envolvidos no sistema financeiro e econômico de Portugal nos três anos após emprestar 78 bilhões de euros ao país para ajudá-lo sair da crise financeira. Em Maio, as três organizações disseram que ´a capitalização do banco tinha sido significativamente fortalecida´ em Portugal, o que sugere que eles estavam superotimistas sobre o progresso que tinha sido feito”.
Ainda segundo o jornal, este ano o BCE vai promover supervisão dos maiores bancos em países que usam o euro. “Um importante teste da creditiblidade do BCE será quando ele publicar os resultados do ´teste de stress´ dos 128 emprestadores europeus em Outubro. O Banco Central tem de assegurar que este exercício não é um check-up pró-forma que faz os bancos parecerem bons e que esconde seus problemas, como o Banco Espírito Santo parece ter feito. A economia europeia não vai recuperar até que seu sistema bancário seja verdadeiramente saudável.”
(Fontes de informação: Agência EFE, Diário Econômico, Sol.pt, Agência Lusa, SIC Notícias, Expresso, O Globo, The New York Times)
Polêmica na CPLP, Agostinho da Silva e a língua do futuro
06 de Agosto de 2014, por José Venâncio de Resende 0

Agostinho da Silva
O ingresso na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) da Guiné Equatorial foi um dos assuntos mais discutidos na televisão e nos jornais, aqui em Portugal, nas últimas semanas. Sem meias palavras, a mídia lusitana desaprovou a decisão, oficializada na Cimeira da CPLP em julho no Timor Leste, por considerar que na Guiné Equatorial se fala o espanhol e o país tem uma das piores distribuições de renda do planeta, além de ser dirigido há anos por uma ditadura corrupta. A imprensa portuguesa não deixou de notar a ausência no evento oficial de Dilma Rousseff, presidente do Brasil, país que, junto com Angola, teria apadrinhado o país africano.
O assunto não escapou de comentário na conferência do professor Fernando Dacosta, na sessão semanal (24 de Julho) da Academia de Ciências de Lisboa, sobre o filósofo e intelectual português Agostinho da Silva, que morou vários anos no Brasil. Alguns amigos perspicazes de Agostinho da Silva ironizam que a CPLP está a ser transformada em Comunidade dos Países Lusófonos Petrolíferos, disparou o acadêmico Dacosta.
Aliás, seguindo o destino – como fez questão de acentuar – Agostinho da Silva mudou por completo depois que desembarcou no Brasil em 1944, relata Dacosta. Disse que o Brasil provocou um “terremoto” na sua vida. “O Brasil permitiu-me a abertura de mim próprio. Eu fui outro.” Mas nunca esqueceu a frase que um dia ouvira de Fernando Pessoa: “Minha pátria é a língua portuguesa”.
Considerando, ainda, que “cultura e política são a mesma coisa ou não são coisa nenhuma”, Agostinho da Silva formulou seu “plano detalhado” - apresentado no 4º Congresso Internacional de Universidades, realizado em Agosto de 1959 na Universidade de São Salvador (Bahia). Segundo Dacosta, Agostinho da Silva foi além do luso-tropicalismo de Gilberto Freyre, situando-se no futuro em que os povos africanos de língua portuguesa fossem autônomos, o que na sua perspectiva aconteceria logo.
A proposta de Agostinho da Silva iria, mais tarde, consubstanciar o espírito da hoje chamada CPLP, sintetiza Dacosta. A ideia de uma comunidade com essas características foi sugerida por ele ao então presidente Jânio Quadros, com quem colaborou. Mas o ex-presidente Juscelino Kubitschek e o ex-ministro da Cultura e ex-embaixador em Portugal, José Aparecido de Oliveira, além de companheiros e discípulos de Agostinho da Silva, também foram decisivos na viabilização do projeto. Líderes africanos da época seguiram atentamente suas palavras e posições. Porém, governantes, políticos e empresários portugueses tinham dificuldades em aceitar a proposta porque era assentada na independência total das colônias africanas.
Inicialmente, Agostinho da Silva defendia dois blocos congêneres – a CPLP e a comunidade de povos da língua espanhola – que, num segundo momento, se transformariam na CPLI (Comunidade de Povos de Línguas Ibéricas). Só então este bloco poderia incluir a Guiné Equatorial, ironizou Dacosta. Um bloco ibérico capaz de fazer frente a outros blocos ao redor do mundo, um pensamento visionário mas ousado para a época.
Agostinho deixou o Brasil na ditadura militar e faleceu há cerca de 20 anos em Portugal. E suas ideias continuam gerando frutos.
Geolíngua
Embora não tenha conhecido Agostinho da Silva, pessoalmente, Roberto Moreno seguiu as suas pegadas, ao deixar o Brasil em 1992 em busca de fundamentos científicos para uma tese de doutorado sobre a “língua do futuro”, que prefere denominar “geolíngua” (língua da terra) para não ferir susceptibilidades. A sua tese é que, das cerca de sete mil línguas naturais existentes no mundo, o “galaico-português” (português surgiu do galego) é o que mais potencial tem para se firmar como a língua de 800 milhões de pessoas. Quer dizer, Roberto Moreno propõe a União Iberófona (UI), uma Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e Espanhola - Sem Fronteiras. Ao unir 30 países nos cinco continentes, a substituição da “lusofonia” pela “iberofonia” abarcaria uma comunidade ainda não explorada.
Para isso, patenteou em 2002 a palavra “Geo” - para transformá-la na marca Geo - no território português (registro renovado agora para mais 10 anos), abrangendo 18 classes (relativas a produtos e serviços); criou a Fundação Geolíngua para promover a Geolíngua, como língua universal, e gerir a marca; e registrou os direitos autorais do projeto “8 Séculos da Língua Portuguesa”. Mas ainda não concluiu a tese, iniciada em 1-1-1992, que sonha um dia defender em praça pública tendo o povo como júri.
Roberto Moreno utiliza o conceito de “endoeconomia”, uma economia auto-sustentável e solidária, na prática, pela qual o cidadão em algum momento passaria a ser dono da marca Geo. Ou seja, propõe um projeto por meio do qual a receita da venda de produtos e serviços com a marca Geo (Geoágua, Geopão, Geocafé, Geobanco etc.) seria revertida em seu benefício em áreas como educação, saúde e segurança pública.
Mas isso não é sonhar demais? O próprio Roberto Moreno responde: “´Deus quer, o homem sonha a obra nasce´, dizia Fernando Pessoa. Eu estou a ressuscitá-lo, nesta e em outras profecias. É o ´Quinto império´ via a ascensão espiritual do homem e do diálogo em Geolíngua”.
Links relacionados:
1. Conferência “Evocação de Agostinho da Silva”, de Fernando Dacosta:
https://www.facebook.com/academia.das.ciencias.de.lisboa/app_212104595551052
2. Entrevista de Roberto Moreno ao programa de TV “Verbos e Letras”:
http://www.youtube.com/watch?v=aisI7SEry4c
Uma cidade onde as ruas foram invadidas por "cachorros sem donos"
27 de Maio de 2013, por José Venâncio de Resende 0
Noite dessas, ao passar por uma rua mal iluminada ao lado do cemitério, fui atacado por três cachorros – inclusive levei uma dentada na perna de um deles - que, tudo indica, não tem donos. Outro dia, seis e meia da manhã, cruzei com um “bando” de cachorros, uns dez, fazendo a maior algazarra na rua do bairro.
Não sei ao certo, mas acredito que esta invasão de cachorros é um problema que importuna a cidade inteira. “Tem cachorro de Lafaiete, tem cachorro de Lagoa Dourada, tem cachorro de tudo quanto é lugar”, definiu bem meu primo Zé da tia Alice. Uma afirmação, que pode conter uma informação valiosa do que anda ocorrendo nas ruas de Resende Costa.
Estes acontecimentos me fizeram retroceder no tempo, quando alguns anos atrás eu passava o Natal em Bariloche (Argentina). Chamou minha atenção a quantidade de cachorros idosos que perambulavam pelas ruas, em busca de alguma comida. No restaurante onde jantávamos (um grupo de brasileiros), os simpáticos e bonitos cachorros circulavam entre os turistas na esperança de que pudessem participar da ceia de Natal, ainda que marginalmente.
Voltando mais ainda no tempo, na época de criança, os meninos de minha rua divertiam-se com a chegada, a cada ano, de homens, portando espingardas, para matar “cachorros zangados” no antigo campo do Varginha. Sabíamos que nos dias seguintes iríamos assistir ao espetáculo de urubus invadindo o pasto onde jaziam estendidos os animais, até que sobrassem expostos apenas os esqueletos.
Não quero aqui ser radical ao ponto de defender “pena de morte” para os - ou “vacinação fatal” (à base do tiro) dos - cachorros abandonados pelas ruas da cidade. Mas bem que o poder público e alguma organização não-governamental (protetora dos animais) poderiam tomar alguma providência para nos livrar deste incômodo.
Na Ilha Santa Maria, Açores, onde tudo começou
16 de Fevereiro de 2013, por José Venâncio de Resende 0

Último dia de carnaval nos Açores, mais precisamente em Ponta Delgada, Ilha São Miguel, onde cheguei na terça-feira, 12. Na viagem, comecei a ler o romance “A saga do marrano”, que conta a história de um judeu cristão-novo cujo pai, o médico Diego Ñunes da Silva, fugiu para a América espanhola para escapar da perseguição religiosa, mas acabou preso e condenado pelo tribunal implacável da inquisição.
Qual não foi surpresa quando, ao sair para almoçar, depois de descansar da longa viagem, passei por uma rua cujo nome é Antonio Joaquim Nunes da Silva. Mera coincidência? Nem tanto, a considerar que os historiadores identificaram a presença de judeus e mouros na colonização dos Açores, entre os séculos XIV e XV. Mas esta é uma longa história.
A caminho do almoço, no feriado de carnaval, vi uma cena curiosa. Na avenida principal, à beira mar, dois jovens descarregavam de um carro uma carga estranha: inúmeros saquinhos de água, os quais a princípio cheguei a pensar que fossem de gelo. Passado o almoço, o movimento da avenida já era grande. E começava a guerra dos saquinhos de água, muitos inclusive coloridos.
Daí pra frente, a aglomeração de gente aumentava, carros continuavam a chegar com saquinhos e saquinhos de água e começava o desfile de carros alegóricos – na verdade, grandes caminhões com faixas e patrocínios nas laterais carregados de jovens – que ao se cruzarem na avenida davam seqüência à guerra da água, sobrando quase sempre para os populares que se concentravam na avenida.
Já noite, quando passei pela avenida para tomar lanche, vi o cenário devastado da guerra que sobrou do carnaval açoriano: a avenida coberta de saquinhos estourados de água e os homens da limpeza se esmerando ao máximo para deixar tudo ordem.
Mas a guerra dos saquinhos não mostrava os sinais da crise européia, e portuguesa em particular, que apareciam nos pequenos detalhes. Ou era uma associação de apoio aos consumidores que pedia contribuições aos que passavam pela rua, em frente à sua sede. Ou, em outra rua, um restaurante fechado que trazia um cartaz na porta: “Procuram-se clientes”.
Na quarta, 13, antes de prosseguir minha viagem rumo à ilha-mãe, Santa Maria, fiz um contato-chave com o historiador José de Almeida Mello, que trabalha na Biblioteca Municipal Ernesto do Canto e lidera a Associação Cultural Amigos da Sinagoga de Ponta Delgada. Fui informado por ele que os principais arquivos das famílias tradicionais dos Açores estão concentrados na Biblioteca Pública e Arquivo Regional em Ponta Delgada. Uma pista importante para futuras pesquisas. Mello contou também que os arquivos da mais antiga sinagoga dos Açores, certamente fonte de valiosas informações, estão sendo restaurados para no futuro serem disponibilizados ao público.
Vila do Porto
As informações de Mello, de certa maneira, me frustraram, pois planejei ficar mais tempo na Vila do Porto, Ilha Santa Maria, “onde tudo começou”. Sabem como é: reserva antecipada de hotel, de vôo etc. Hoje, faria o inverso, ou seja, ficaria mais dias na Ponta Delgada.
De qualquer forma, a visita à Vila do Porto foi interessante em vários aspectos. Conheci a porta de entrada dos portugueses do continente nos Açores, no século XV (por volta de 1420). Além dos Resendes, descobri que na ilha existem famílias do nosso convívio, como os Chaves e os Monteiro. Outros aspectos interessantes que nos são familiares estão na arquitetura e no artesanato, que pretendo explorar na reportagem sobre a viagem.
Não poderia deixar de agradecer ao casal José e Paula Melo – ela brasileira – pelo agradável, embora curto, convívio, e pelo apoio, incentivo e ensinamentos sobre a cultura e na história locais. José de Andrade Melo – nenhuma relação com o historiador - é professor do ensino básico e de educação ambiental na Vila do Porto.
Por fim, esta viagem é para mim um divisor de águas na medida em que reforça meu interesse por um tema muito mais próximo de nós do que imaginamos. Trata-se de ler e pesquisar sobre a influência dos judeus cristãos novos na cultura mineira e brasileira, talvez uma das minhas atividades na aposentadoria que bate às portas.
Política, ética, cidadania, consumismo...
14 de Novembro de 2012, por José Venâncio de Resende 0
O Brasil vive uma confusão só entre política de resultado, ética sem princípios, cidadania do cartão de crédito e consumismo como fim em si mesmo. Aparentemente, nada tem a ver com nada, mas tudo tem a ver com tudo.
Definidas as penas dos chefões da “quadrilha”, de um lado, os petistas – que sempre negaram a existência do mensalão – não se conformam com a condenação de seus líderes – exceção de Lula que não teve seu nome incluído na ação penal – e, de outro, muita gente não entende que Marcos Valério (operador financeiro) tenha recebido pena de 40 anos, enquanto o ex-ministro José Dirceu – considerado oficialmente o mentor – tenha sido condenado a pouco menos de 11 anos de prisão (debite-se isto na conta das leis brasileiras, cujas penas são bastante leves para alguns crimes, como de formação de quadrilha para assaltar os cofres públicos). O fato é que a “quadrilha” do mensalão levou à risca afirmação, alguns anos atrás, do então deputado federal Lula de que existiam 300 picaretas no Congresso Nacional. Ao investir nos “picaretas”, não contavam com a denúncia, transformada em ação penal, e a condenação dos seus chefes e membros.
Enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) julgava os membros da quadrilha, bem perto dali, no Congresso Nacional, a chamada “bancada da Delta” encarregava-se de sepultar a CPI do Cachoeira, que bem poderia ser o embrião de um novo ‘mensalão”. Afinal, são fortes as evidências de que a construtora Delta - principal empreteira do PAC de dona Dilma e que trabalha para vários governos estaduais – tenha ligações com o contraventor Carlinhos Cachoeira, investigação que a CPI se encarregou de sepultar.
E fechadas as urnas das eleições municipais, começaram a todo vapor os conchavos para uma acomodação de forças políticas – com vistas a 2014 – da qual uma das principais “estrelas” é o prefeito de São Paulo e criador/presidente do PSD, Gilberto Kassab. Até há pouco tempo aliado de José Serra, nem bem terminou a eleição paulistana e Kassab já procura o lado oposto para selar de vez o seu embarque no governo de dona Dilma, oferecendo apoio incondicional nas votações no Congresso Nacional e na Câmara Municipal de São Paulo em troca de algum ministério. Agora, ao lado de PMDB e PSB – sem falar da miríade de partidos de segunda linha –, o PSD de Kassab, que já é a terceira força política na Câmara dos Deputados, pega carona na popularidade de dona Dilma, para garantir um quinhão do latifúndio federal no presente e investir no futuro.
O problema é que, subajcente a isto, está um sistema caótico que tudo permite, no qual a política de resultados e a ética sem princípios caminham de braços dados. Nós cidadãos somos joguetes nas mãos dos políticos que, fechadas as urnas, rasgam as promessas de campanha e partem para a política de terra arrasada. Basta dizer que político eleito por um partido, troca-o por outro como se mudasse uma peça de roupa ou migra da oposição para a situação como se tivesse recebido folha em branco assinada pelo seu eleitor.
Uma reforma política é urgente, mas não aquela dos que querem usar de espertezas para se perpetuarem no poder. Uma reforma política de fato seria aquela que implantasse o sistema distrital de votação, que declarasse o voto livre (um direito e não uma obrigação), que reduzisse o quadro partidário (um número reduzido de partidos ideológicos - entre conservador e socialista - e com programas modernos e bem definidos) e que estimulasse a contribuição individual para partidos e candidatos (em substituição às escandalosas contribuições de empresas e contra a ampliação do já existente financiamento público de campanha que custo caro à sociedade). É preciso inverter a lógica, para que o político corra atrás do eleitor e não o eleitor seja obrigado a ir até o candidato.
Esse cidadão maltratado é comumente confundido com mero consumidor. O estímulo ao consumo de bens a qualquer custo é um dos fatores que emperram os investimentos no Brasil (afinal, não só de bens vivem os cidadãos, mas também de infraestrutura e serviços decentes), gerando um descompasso entre demanda e oferta, combustível perigoso para mais inflação no futuro.
Um último alerta: devemos ficar atentos com as indicações, daqui para frente, dos ministros do STF, pois os companheiros vão aumentar a pressão para a escolha de pessoas de confiança do petismo como Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli.